Antônio Nelson Faria, Jornalista
A vida é cheia de altos e baixos. Mas quando a gente começa a escangalhar, ufa! suplicamos ao bom Deus, a todos os Santos e aos médicos para que nos acudam porque a coisa está difícil e é preciso procurar remédio para a cura. O tratamento hospitalar, atualmente, é bem diferente do exibido no seriado Dr. Kildare, um enlatado americano dos anos 70. Precursor dos telecines com esse tema, diverge dos filmes atuais, que apontam a precarização da saúde, impactam a crueza do corredor da agonia e evocam o lado técnico e humano dos profissionais da área.
Na minha infância, o Hospital Português era o modelo de qualidade. No seu ambiente circulavam médicos de renome e enfermeiras — verdadeiras nurses americanas —, com suas vestimentas brancas e os bonés estilo militar, alvos e engomados, brilhantes mesmo nas noites chuvosas. Na ala infantil reinava Elizabeth, sempre impecável, anjo de bochechas cor de rosa que cuidou de grande parte dos bebês nas últimas décadas, até a aposentadoria.
No mesmo período, a secular Santa Casa, dirigida pelo grande médico e gestor Dr. José Murad, cumpria sua função social atendendo a população no seu imponente prédio da Rua do Norte, enquanto o Centro Médico, criado pelos médicos Expedito Bacelar e Lourival Bogéa, despontava como o hospital mais novo da cidade.
Eu, afilhado e paciente do salvador de crianças, o abençoado Dr. Amaral de Mattos, sempre fui acompanhado pelos seus diagnósticos precisos, num tempo em que o médico tinha olho clínico. Tive uma infância sem grandes problemas de saúde, época quando embrocação com Colubiazol curava irritação na garganta, poções contra febre eram aviadas nas farmácias Sanitária e Garrido e, já maiorzinho, dose diária de Wakamoto ou Óleo de Fígado de Bacalhau dava vigor e estimulava o cérebro para a carga horária escolar de tempo integral.
Não fui criança linda ao ponto de disputar o título de Bebê Johnson ou ser destaque no livro anual do Dr. Delamare, manual que ensinava às mães cuidados e tratamentos infantis. Mas esbanjava saúde e felicidade. Agora, depois de muito tempo, a conta chegou. E bem salgada!
Recentemente fui internado na UTI do Hospital São Domingos, a Casa Bahia da saúde: empreendimento enorme, com equipe de especialistas e atendimento de primeira linha. Mas, como ninguém se hospitaliza por opção, na hora do aperreio recorri ao glorioso protetor São José de Ribamar e propus um acordo tático, rogando socorro urgente para um quadro clínico perigoso, que, na linguagem popular, significava "bater na trave".
UTI de hospital não é nada parecido com quarto dos hotéis Blue Tree ou Luzeiros. É barra pesada, mas conta com corpo médico e atendentes eficientes e prontos para manter você vivo. Não se assemelha em nada ao paraíso; no entanto, evita que você fure a fila e vire a curva sem volta. Brincadeiras à parte, lá você encontra tratamento, diagnóstico preciso e atendimento de qualidade que salvam vidas.
A permanência nessa área hospitalar é quase sempre dolorosa e desgastante. Até porque ninguém pega o celular e faz ligação solicitando reserva de vaga em UTI. Por ser minha avant-première nessa acomodação, fiz a lição de casa para conquistar a desejada alta. Cumpri minha parte, mas quase fui enquadrado como "impaciente" – aquele sujeito que cobra calor humano numa área de urgência estratégica –, em contraponto ao personagem do filme norte-americano O Paciente Inglês, que amargou longo período em leito hospitalar.
Como saí são e salvo, vou honrar o acordo fechado com São José, pagando a promessa e comparecer ao Santuário de Ribamar, agradecendo a graça alcançada na terra onde reinou Dedé da CETRACOL, dono da empresa de transporte coletivo que fez história com a maior frota de ônibus da cidade. Antes, farei um pit stop no antigo Bar da Dona Neuza, no Anil, tomando uma cerveja gelada para renovar as forças e seguir a romaria em retribuição ao santo protetor por me manter vivo para os próximos carnavais, festas juninas, todos os festejos da cidade e para sempre, amém!
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