ORQUÍDEA SANTOS, jornalista profissional e editora da Plataforma Nacional do Facetubes
Inúmeras mensagens de 'zap' chegaram nesta última semana sobre a entrevista entre Vanice Zimerman e Mhario Lincoln (e VICEVERSA). Ao estudar esses comentários, uma das perguntas de Zimerman atraiu bastante o público leitor. Trata-se das técnicas (e são técnicas mesmo) para escrever um bom prefácio. Alguns acharam que Mhario Lincoln havia sido duro ao dizer "o leitor precisa desejar entrar no livro; e não ter a impressão de que o autor é 'o máximo'". Outros, acharam profissional e madura a colocação de Lincoln. Portanto, para dirimir dúvidas (ou criar novas), trago hoje uma análise sobre esse tópico específico dessa bela entrevista que até agora (manhã de 10.08) já superou 2 mil acessos.
Na verdade, a resposta de Mhario Lincoln apresenta uma concepção tecnicamente consistente do prefácio: ele não o entende como peça de celebração, mas como mediação entre obra, autor e leitor. Essa ideia encontra respaldo direto na teoria do crítico francês Gérard Genette, para quem prefácios, títulos, notas e outros elementos paratextuais participam da maneira pela qual uma obra chega ao público e orienta sua recepção.
Quando Lincoln afirma que primeiro lê integralmente, procura estrutura, recorrências, imagens, silêncios e tensões para somente depois escrever, aproxima-se de uma primeira técnica reconhecida pela crítica: a leitura cerrada — close reading —, procedimento que concentra a atenção na linguagem, nas relações internas e nos mecanismos de construção do texto antes de submetê-lo a juízos externos. A segunda técnica é a contextualização crítica, isto é, compreender a obra dentro do percurso do escritor, de sua época e da tradição literária com a qual dialoga. É uma perspectiva que encontra correspondência no método de Antonio Candido, cuja crítica busca articular forma literária, processo histórico e dimensão social sem reduzir uma coisa à outra.
Há, ainda, uma terceira técnica especialmente importante na resposta: formular uma hipótese interpretativa sem transformar o prefácio numa sentença definitiva sobre o livro. É o que Lincoln chama de procurar o “centro de gravidade da obra”. O prefaciador tem que identificar uma questão dominante, demonstrar sua presença por meio de elementos concretos do texto e oferecer ao leitor uma possibilidade de entrada; não pretende encerrar os significados da criação literária.
Essa cautela é a chave da recepção desenvolvida por Wolfgang Iser e Umberto Eco, que deslocaram parte da atenção crítica para a relação entre estrutura textual e atividade interpretativa do leitor. Nesse ponto, a formulação de Lincoln — “o prefácio deve iluminar a obra sem ofuscá-la. Deve oferecer chaves, não fechaduras” — sintetiza com precisão uma ética do prefaciador: revelar caminhos sem sequestrar do leitor o direito da descoberta.
Outra coisa importantíssima: Lincoln também explica por que a separação proposta entre emoção pessoal e avaliação crítica é relevante. Amizade com o autor, admiração ou afinidade estética podem motivar o texto, mas não devem substituir a demonstração crítica. Um prefácio intelectualmente responsável precisa fazer com que suas afirmações possam ser reconhecidas na própria obra.
Agora, Mhario Lincoln confessa em que fontes bebeu dessa água: "Pauliceia Desvairada", de 1922, Mário de Andrade que transformou o célebre “Prefácio Interessantíssimo” em verdadeira exposição de princípios estéticos: nele discute procedimentos de sua poesia e fundamentos da renovação modernista, tornando o paratexto parte decisiva da história literária brasileira. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, destaca justamente que esse prefácio apresenta bases estéticas do Modernismo e as ideias de Mário sobre poesia.
Já em Machado de Assis, Mhario diz ter descoberto outro modelo interessante, mesmo que sob enominações como “Ao leitor” e “prólogo”. Nesses textos preliminares de romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, o espaço anterior à narrativa já estabelece uma relação crítica, irônica e estratégica com quem vai ler. Assim, com esse, existem mais três fundamentos que podem ser considerados essenciais à escrita de um bom prefácio: leitura minuciosa da arquitetura interna da obra; contextualização literária e histórica; e construção de uma interpretação suficientemente forte para orientar, mas suficientemente aberta para não substituir o livro.
É exatamente aí que ganha força a afirmação final atribuída ao poeta Alex Brasil: “é a obra que é ‘imortal’, nunca o autor”.
E para fechar, um anti-exemplo. Mhario diz, com base no que ele absorveu em seus estudos prefaciais que “o prefácio deve iluminar a obra sem ofuscá-la”. Pois bem! Entre vários exemplos, vou citar um, mas no sentido técnico; e não, como julgamento depreciativo de sua importância literária. Bom dizer isso.
Trata-se de “Bênção Paterna”, prefácio escrito por José de Alencar para Sonhos d’Ouro, de 1872. Em Nele, Alencar não apenas prepara a entrada do leitor em Sonhos d’Ouro, mas ele procura antecipar objeções, posicionar-se diante da crítica e estabelecer parâmetros pelos quais sua própria literatura deveria ser compreendida. Um estudo acadêmico de Priscila Salvaia observa que, nos preâmbulos de Alencar, havia uma tentativa de influenciar a crítica e até de projetar determinado modelo de leitor. O mesmo estudo chega a uma constatação particularmente reveladora: Sonhos d’Ouro acabou recebendo relativamente pouca atenção em comparação com a força alcançada por seu próprio prefácio.
Parabéns portanto a artista Vanice Zimerman por ter levantado um assunto tão interessante. Os originais, abaixo:
VANICE ZIMERMAN 4 — Quando escreve um prefácio ou uma apresentação, você segue algumas etapas para analisar o livro e as sensações que mais chamaram sua atenção?
Mhario Lincoln: Sim. Um prefácio exige método, responsabilidade e contenção. Não pode ser escrito apenas com entusiasmo, amizade ou desejo de agradar. Prefácio não é coroa de flores, resumo promocional, nem vitrine para a vaidade do autor ou do próprio prefaciador. É uma forma de mediação crítica entre a obra e o leitor. Meu primeiro procedimento é ler o livro integralmente. Não começo procurando frases para elogiar. Procuro compreender a estrutura, a unidade, as recorrências, os silêncios, as imagens dominantes e as tensões internas. Depois, observo o lugar daquela obra dentro da trajetória do autor e, quando necessário, dentro da tradição literária à qual ela se aproxima ou da qual procura afastar-se. Em seguida, separo impressão pessoal de análise crítica. Uma obra pode me emocionar e ainda apresentar fragilidades. Pode contrariar minhas convicções e, mesmo assim, possuir grande valor literário. O crítico precisa resistir à tentação de transformar preferência pessoal em critério universal. Também procuro identificar aquilo que chamo de centro de gravidade da obra: a questão em torno da qual os textos parecem se organizar, mesmo quando o próprio autor não a enuncia diretamente. Somente depois dessa etapa começo a escrever. Na apresentação de Conexão VIII — Feira do Poeta, em homenagem a Geraldo Magela, (que você Vanice, fez parte), comecei da compreensão de que as antologias são também instrumentos pedagógicos e relicários literários. Elas reúnem textos antes dispersos, documentam uma geração e permitem que novos autores ingressem no espaço público da literatura. Aquela publicação reuniu 58 autores e demonstrou que uma antologia pode ser, simultaneamente, memória, oportunidade e documento cultural. Enfim, quando escrevo prefácios (e eu gosto muito), sigo também regras mais simples do que as técnicas que citei acima: o prefácio deve iluminar a obra sem ofuscá-la. Deve oferecer chaves, não fechaduras. Enfim, o leitor precisa desejar entrar no livro; e não ter a impressão de que o autor é “o máximo”. Na verdade, “é a obra que é ‘imortal’, nunca o autor”, palavras do grande poeta Alex Brasil (AML/APB-MA).
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