Renata Barcellos
O Setembro Amarelo é a campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção do suicídio, iniciada em 2015 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV) - telefone: 188
O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, motivo pelo qual o mês inteiro foi escolhido para a mobilização.
Objetivos da Campanha
Conscientizar a população sobre os fatores de risco para o comportamento suicida.
Orientar sobre a importância do tratamento adequado para os transtornos mentais.
Quebrar tabus e reduzir o estigma em torno da saúde mental.
O suicídio é um tema recorrente nas literaturas mundiais, refletindo os valores e as angústias de cada período histórico.
Vale ressaltar que, segundo a OMS, há mais de 700 mil mortes por ano no mundo e cerca de 16,8 mil casos anuais no Brasil.
No Mundo (Organização Mundial da Saúde - OMS)
Total de mortes: Mais de 700 mil pessoas tiram a própria vida anualmente, o que equivale a cerca de uma morte a cada 100 registros.
Jovens: É uma das principais causas de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
Tendência global: Enquanto a taxa geral diminui em algumas regiões do planeta, os países das Américas apresentam índices em crescimento. [1],
No Brasil (Ministério da Saúde)
Número de casos: O país registra médias superiores a 45 mortes por dia, ultrapassando 16,8 mil óbitos anuais recentes.
Crescimento: Houve um aumento expressivo de mais de 60% nos registros da última década.
Perfil mais atingido: A maioria esmagadora dos casos envolve homens (cerca de 79%), com maior incidência entre adultos jovens.
Fatores de risco: Quase a totalidade dos casos está associada a transtornos mentais, como depressão e ansiedade, somados a fatores sociais e ambientais
Antiguidade e Classicismo
Grécia Antiga: o ato era visto por vezes como uma questão de honra ou destino trágico (como em Homero e nas tragédias de Sófocles).
Shakespeare: o autor retratou o conflito de forma profunda, desde o célebre "ser ou não ser" de Hamlet até os desfechos fatais de Romeu e Julieta.
Idade Média e Romantismo
Idade Média: o suicídio era severamente condenado pela Igreja, mas aparece representado na Divina Comédia, de Dante Alighieri, que destinou um círculo específico do Inferno a essas almas.
Romantismo: o marco central é Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. A obra gerou forte comoção e debate na Europa do século XVIII ao transformar a dor romântica em apelo absoluto.
É importante ressaltar que os estudos sobre o tema atravessam séculos. Em 1774, a literatura europeia era dominada pelo Romantismo, que se opunha ao racionalismo iluminista e exaltava a intensidade emocional. Nesse contexto, Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, tornou-se um fenômeno entre os jovens da época. A obra apresenta um jovem sensível que se apaixona por uma mulher comprometida. Incapaz de lidar com o amor não correspondido e o sofrimento da rejeição, Werther decide pôr fim à própria vida. Na época, o livro foi associado a um aumento de suicídios entre jovens da época. Relatos históricos sugerem que exemplares da obra foram encontrados ao lado de pessoas que tiraram a própria vida.
Outro exemplo é Kiríllov, o mais célebre suicida de Dostoiévski (no romance Os demônios, de 1872. O personagem se mata com um tiro na têmpora, realizando com o ato o último passo de sua argumentação sobre a inexistência de Deus.
Em O mundo se despedaça (1958, no USA; no Brasil, 2009), de Chinua Achebe, o protagonista Okonkwo acaba por se enforcar ao perceber que sua tribo não tentará resistir às investidas do colonizador europeu. Em ambos os casos, o suicídio acaba transparecendo como afirmação de um argumento ou ideologia.
Realismo e Literaturas Contemporâneas
Realismo/Século XIX: romances como Anna Karenina, de Tolstói, abordaram o desespero de heroínas diante das pressões sociais.
Em O mito de Sísifo (1942), de Albert Camus, o problema do suicídio já é posto em suas palavras inicias: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”.
A influência do suicídio sobre a imaginação criativa é investigada na obra poética de Sylvia Plath por A. Alvarez, em O deus selvagem: um estudo do suicídio (1972). A autora, ainda, do romance A redoma de vidro (1963), uma das mais emblemáticas narrativas do século XX sobre o tema em questão.
Contemporaneidade: autores modernos exploram o tema sob um viés psicológico complexo e sensível. Exemplos:
O romance Graça infinita (1996), de D. F. Wallace, trata o trauma de dois filhos diante do suicídio do pai; a tentativa de suicídio de uma viciada em drogas como fuga de uma existência insustentável; o ato performático de um suicida excêntrico, minuciosamente planejado para adquirir ares de “espetáculo”.
Em Invenção e Memória, de Lygia Fagundes Telles, publicado no ano de 2000 explora o ato extremo de forma explícita em textos como o conto Suicídio na Granja, que examina as memórias da infância e as razões íntimas — entre cartas, gestos e silêncios — levam alguém a abreviar a própria existência.
Um texto recente sobre o tema é A suicida, uma das narrativas que compõe a obra O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna, de 2011. O protagonista, que está na capital tcheca para escrever um romance, depara-se com uma jovem prestes a se jogar da Ponte Carlos, sobre o rio Moldávia. Ao tentar dissuadi-la, acaba envolvendo-se com ela, passam a noite juntos, mas cedo da manhã ela sai e joga-se da ponte.
Raphael Montes em seu primeiro livro, Suicidas (2012), um suspense que se desenrola a partir de uma brincadeira macabra entre um grupo de jovens, resultando em uma morte coletiva. Mestre das reviravoltas nos thrillers, Montes mantém a coesão já em sua estreia e trata o tema com cautela, provando que até a literatura de entretenimento tem sua responsabilidade.
Segundo a Dra. Márcia Regina Büll, mensagem aos educadores e responsáveis? “Aos pais e responsáveis, deixo o apelo para que exerçam a escuta atenta e sem preconceitos. Fiquem atentos a mudanças bruscas de comportamento, isolamento e frases de desesperança. Não minimizem o sofrimento dos jovens rotulando-o como "drama" ou "frescura". O amor e o suporte familiar são a primeira e principal rede de proteção contra a dor profunda. Para a sociedade como um todo, a mensagem é que o sofrimento humano exige empatia, e a informação séria e humanizada é uma das ferramentas mais poderosas que temos para preservar vidas”.
Por fim, o estudo do suicídio nas literaturas é, em grande parte, um trabalho ainda por fazer. O tema é sempre atual mas controverso. As literaturas não têm o dever de explicar ou justificar esta prática. Estas podem ser uma ferramenta essencial para compreendermos suas causas sociais e psicológicas. Ao trazer este tema para o debate, elas contribuem para a construção de uma sociedade mais consciente e empática, ajudando tanto na prevenção quanto na desconstrução do tabu.
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