Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Orquídea Santos e Mhario Lincoln
Essa chamada “trend dos anos 80” que tem se espalhado pelas redes sociais, com fotos produzidas digitalmente com cabelos volumosos, roupas coloridas, ombreiras, iluminação de estúdio e o granulado das antigas fotografias de família, guardam bem lá no fundo, algumas verdades; algumas dessas, bem fortes.
Veja: nem sempre quem publica a foto retrô, viveu aquela década histórica, há mais de 60 anos. Contudo, o que se vê é um enxame de publicações com fotos de si mesmas, numa década que (em muitos casos), nem viveram. Segundo a imprensa, o tema ultrapassou 50 mil buscas em poucas horas e registrou forte crescimento no Google Trends. Mas atentem: esse fenômeno não pode ser explicado somente pela curiosidade tecnológica. Ele revela uma necessidade humana de "pele", de toque, de convivência pessoal, de rodas de conversa, de encontros no fim do experidente, etc. E isso, ficou pra trás faz muito tempo, enfraquecendo quase todas as formas do relacionamento humano.
Prestem bem atenção: talvez por isso - por essa necessidade umbilical - essas fotografias recriadas possam ter outras funções, que não (só) uma brincadeirinha adolescente. Pode, sim, ser algo bem maior, ou seja, quem se deixa transformar como pertencente aos anos 80, não deseja apenas trocar de roupa ou de penteado. Na maioria das vezes procura entrar numa atmosfera associada à infância, à juventude, às reuniões familiares, às festas de bairro, aos discos, às cartas e às conversas, fato que atualmente, se torna bem difícil com a lógica digital explícita.
Em muitos casos, a imagem toca numa ausência concreta: as reuniões natalinas, - sinônimo de família - onde todos (mesmo com algumas exceções), eram famílias e continham pessoas que se abraçavam, que se tocavam, que conversavam - até brigavam (mas ao vivo). Não pela "telinha". Assim, através desses efeitos digitais - trends - a inteligência artificial começa a ajudar a compreender momentos que nunca mais voltariam com tanta intensidade, se apenas fossem olhadas fotografias amareladas da época (há mais de 60 anos, repito).
Por essa razão, fui buscar abrigo nos pesquisadores Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, e esbarrei em algo muito além dos colares, cabeleiras e roupas coloridas: as funções psicológicas da nostalgia. Esses pesquisadores indicam que ela (nostalgia) costuma aparecer em momentos de solidão, insegurança, tédio ou ruptura e pode fortalecer o sentimento de conexão social, a autoestima e a percepção de que a vida possui continuidade. A nostalgia, nesse sentido, não representa uma simples fuga. Ela pode funcionar como um recurso emocional: a pessoa visita mentalmente um vínculo antigo para suportar uma ausência presente. Isso é seríssimo!
E ao ir mais fundo nessa pesquisa, algo prendeu minha atenção: o “verdadeiro eu”, formulado pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott. (Informações repassadas por nossa correspondente na Inglaterra, dra. Flora Guilhonm). Para ela, o verdadeiro self está ligado à espontaneidade, ao gesto pessoal e à sensação de estar vivo. Contudo, o falso self surge como uma adaptação às exigências do ambiente e também pode cumprir uma função social protetora.
Vale, no entretanto, refletir também sobre outra verdade necessária: quem sente saudade dos anos 80 raramente sente saudade de todos os acontecimentos daquela década. No Brasil, aquele período também carregou desigualdade, inflação, censura ainda presente nos primeiros anos, dificuldades econômicas e as consequências de duas décadas de ditadura. Muitas famílias enfrentaram desemprego, violência, discriminação e falta de acesso a direitos básicos. Porém, a memória afetiva não arquiva a História inteira. Ela seleciona vozes, cheiros, músicas, rostos e cenas capazes de manter alguma coerência entre quem fomos e quem somos.
Por isso, essas fotos e trends não transformam a lembrança em mentira. Apenas mostram que recordar é reconstruir. E é diferente da simples fotografia antiga que guarda o instante. Entretanto, a imagem fabricada pela tecnologia produz uma lembrança de algo que nunca aconteceu. Eis a característica mais filosófica das trends: o ser humano passou a sentir nostalgia até de um passado que - em muitos casos - nunca viveu. (Isso é doido, não é?). A pessoa olha para a própria figura numa festa inexistente, numa sala que jamais conheceu, e reconhece ali alguma coisa emocionalmente verdadeira. A cena é falsa. O desejo pode ser autêntico.
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Fontes consultadas
Metrópoles — Especialistas analisam a viralização da trend dos anos 80. GZH — Crescimento das buscas pela trend dos anos 80. Universidade de Southampton — O que é nostalgia e quais são suas funções. Current Directions in Psychological Science — Nostalgia: Past, Present, and Future PubMed Nostalgia, solidão e conexão social. Frontiers in Psychology — Nostalgia como recurso diante da solidão. Oxford Academic — Donald Winnicott e o conceito de falso self. Exame — Origem e características visuais da trend.
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