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Dez anos após a morte de Jomar Moraes, sua produção continua ocupando lugar relevante na preservação da memória literária do Maranhão.
Entre seus trabalhos, destaca-se o estudo dedicado a Gonçalves Dias, concebido inicialmente em 1973 e retomado para publicação décadas depois. Desde as páginas iniciais, Jomar esclarece o método adotado: reconhece os biógrafos que o antecederam, cita Manuel Bandeira, Josué Montello, Antônio Henriques Leal e Lúcia Miguel Pereira, trabalha com fontes documentais e evita apresentar como descoberta aquilo que já havia sido estabelecido pela tradição crítica.
O valor do livro está justamente nessa consciência historiográfica. Jomar Moraes não procura apagar a bibliografia anterior para justificar sua contribuição. Organiza informações, confronta registros, seleciona documentos, preserva referências e estabelece um percurso de leitura capaz de aproximar o leitor do homem que existia por trás da obra. Ao explicar que o texto havia sido escrito muitos anos antes de sua publicação, também preserva algo de sua própria formação intelectual, deixando visível o amadurecimento do pesquisador e sua preocupação com a fidelidade às fontes.
Essa opção metodológica ganha força quando o livro alcança a relação entre Gonçalves Dias e o Maranhão. Jomar evita reduzir a “Canção do Exílio” a uma peça de identidade regional. O poema tornou-se brasileiro. Ao mesmo tempo, a documentação mostra que muitas de suas imagens nasceram de lembranças concretas: as palmeiras, Caxias, São Luís, o Itapecuru, o desejo recorrente de retornar à terra natal. Nas cartas reunidas pelo pesquisador, a saudade deixa de ser apenas matéria poética e assume dimensão biográfica.
Em determinado momento, Gonçalves Dias escreve que “o meu Maranhão lá está à minha espera”. Em outras correspondências, relaciona diretamente a volta à terra natal à expectativa de encontrar amigos, recuperar forças e reencontrar ambientes que permaneciam associados à sua memória. Quando a doença avança, o retorno deixa de ser simples projeto de viagem e passa a representar uma escolha de próprio peito.
O verso conhecido da “Canção do Exílio” retorna, então, à vida do próprio autor como expressão concreta de um desejo. Jomar Moraes amplia essa leitura ao reconstruir também a rede intelectual em torno de Gonçalves Dias. João Francisco Lisboa, Sotero dos Reis, Antônio Henriques Leal, Odorico Mendes, Gentil Braga e outros nomes aparecem em relações de amizade, colaboração, divergência e circulação de ideias. O Maranhão do século XIX surge, assim, como espaço ativo de produção cultural, política e literária, conectado a debates mais amplos e ao movimento intelectual brasileiro.
A síntese proposta por Jomar permanece válida: Gonçalves Dias alcançou dimensão nacional sem romper com sua origem. Sua obra atravessou fronteiras porque transformou referências locais em linguagem compartilhada. Ao registrar esse processo com documentos, cartas e bibliografia crítica, Jomar Moraes realizou mais do que uma biografia. Organizou uma parte da memória intelectual maranhense e deixou um método de leitura em que literatura, história e documentação permanecem articuladas.
c/Mhario Lincoln
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