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Curitiba receberá, nos dias 23 e 24 de outubro, um dos representantes da tradição coral brasileira: o Coral São João, de São Luís do Maranhão, com 36 coralistas, sob a regência do maestro Fernando Elias Mouchrek. Serão duas apresentações em espaços de características distintas, reunindo a experiência musical acumulada pelo grupo ao longo de quase 50 anos. A viagem integra um roteiro cultural que também contempla Londrina, no Paraná, e São Paulo. Na bagagem, os cantores levam uma história construída com disciplina, convivência, pesquisa musical e compromisso com a divulgação da cultura maranhense.
Fundado em 10 de abril de 1977, o Coral São João nasceu da iniciativa de jovens ligados à Igreja de São João, na capital maranhense. O que começou com os cânticos das celebrações religiosas ganhou dimensão nacional e internacional. Sob a direção de Mouchrek, o conjunto desenvolveu um repertório que atravessa a música erudita, as composições populares, o folclore brasileiro e diferentes tradições musicais. Essa diversidade explica parte de sua permanência no cenário coral, sustentada por uma concepção artística que reconhece na voz humana um instrumento de expressão coletiva.
Há uma particularidade na construção musical do São João que merece atenção. O canto coral exige equilíbrio entre os naipes, clareza na emissão das palavras, afinação, dinâmica e compreensão do texto musical. Também exige algo que não se aprende apenas com exercícios de técnica vocal: a capacidade de escutar o outro. É nesse encontro entre vozes individuais que se estabelece a identidade de um conjunto. O trabalho de Fernando Mouchrek tem sido reconhecido justamente pela valorização dessa identidade, com espaço para a interpretação rítmica e a expressão das raízes brasileiras.
Em agosto de 2023, durante o II Festival Internacional de Corais, realizado em Natal, no Rio Grande do Norte, o Coral São João recebeu troféu e certificado de participação no Teatro Alberto Maranhão. Na ocasião, a experiência artística do grupo voltou a chamar a atenção pela capacidade de aproximar diferentes linguagens musicais. O regente Marcos Júlio, ligado à tradição do canto lírico brasileiro, já havia destacado uma característica essencial do conjunto: sua identidade brasileira. Essa observação alcança o centro da proposta musical de Mouchrek, que compreende o canto coral "como uma forma de preservar e comunicar a cultura de seu povo", disse após a apresentação de sucesso nesse Festival.
DUAS APRESENTAÇÕES EM CURITIBA
A primeira apresentação está programada para sexta-feira, 23 de outubro, às 17 horas, na Escola de Música Paideia. O encontro representa uma oportunidade de aproximação entre experiências musicais desenvolvidas em regiões diferentes do país. Em um ambiente voltado à formação musical, a presença de um coral com quase cinco décadas de atividade permite observar o resultado de um trabalho coletivo que atravessou gerações de cantores.
No sábado, 24 de outubro, às 18 horas, o Coral São João participará da missa e do concerto no Santuário São Francisco de Assis, localizado na Rua Francisco Derosso, 715, no bairro Xaxim. O espaço religioso estabelece uma ligação com as próprias origens do conjunto maranhense. Foi dentro de uma igreja que o grupo iniciou sua trajetória, antes de alcançar teatros, festivais e outros palcos. A apresentação em Curitiba retoma, portanto, uma relação antiga entre música, espiritualidade e participação comunitária.
FERNANDO MOUCHREK E A ARTE DE REGER PESSOAS
A trajetória de Fernando Mouchrek ajuda a compreender a continuidade do Coral São João. Sua atuação vai além da marcação de compassos e da orientação das entradas de cada naipe. O regente é responsável por estabelecer uma unidade interpretativa entre pessoas com experiências, timbres e sensibilidades diferentes. Seu trabalho envolve preparação, escolha de repertório, orientação musical e a manutenção de um projeto artístico ao longo do tempo.
Essa continuidade tem significado especial no Brasil, onde manter um conjunto coral em atividade por tantas décadas exige organização e participação permanente de seus integrantes. A história do São João demonstra a importância dessa construção coletiva. Cada apresentação resulta de muitas horas de ensaio e de uma relação de confiança entre o maestro e seus cantores. Em 2026, o grupo caminha para completar meio século de existência, tendo participado de eventos nacionais e internacionais e contribuído para a divulgação da música produzida no Maranhão.
DO PARANÁ A SÃO PAULO, UMA VIAGEM ENTRE VOZES E CULTURAS
A permanência em Curitiba também permitirá aos integrantes conhecer espaços culturais e históricos da cidade. O roteiro inclui visitas ao Jardim Botânico, à Ópera de Arame, ao Parque Tanguá, ao Memorial Paranista, ao Memorial Ucraniano e ao Bosque Alemão. No domingo, 25 de outubro, a programação será livre, com possibilidade de visita à Feira do Largo da Ordem. Na segunda-feira, 26, pela manhã, o grupo seguirá para Londrina, com chegada prevista para as 13h30. São Paulo também faz parte da sequência da viagem, com programação de apresentações ainda não detalhada no roteiro divulgado.
Uma turnê dessa natureza cumpre uma função que ultrapassa a apresentação musical. Ela permite que artistas de diferentes regiões conheçam outras realidades culturais, estabeleçam contatos e ampliem a circulação de seus trabalhos. Para o Maranhão, a presença do Coral São João em outras cidades brasileiras significa levar consigo uma parcela de sua memória musical, formada por tradições religiosas, manifestações populares e experiências de concerto.
A chegada do grupo a Curitiba merece ser compreendida também sob esse aspecto. São vozes que começaram a cantar juntas em 1977 e que, renovadas ao longo dos anos, continuam encontrando motivos para seguir viagem. Há quase cinquenta anos, Fernando Mouchrek conduz essa experiência com um princípio que permanece essencial ao canto coral: "ninguém canta sozinho quando o objetivo é construir uma harmonia", reforça Nando. E talvez esteja aí a contribuição mais duradoura do Coral São João à música brasileira. Cada voz tem sua importância. O resultado pertence a todos.
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