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Especial de hoje. "Mário Faustino: ‘O Homem e sua Hora’" *. Textos escolhidos de Fernando Braga

05/12/2020 11h13
Por: Mhario Lincoln
Conversas Vadias
Mário Faustino: ‘O Homem e sua Hora’ *
Textos escolhidos: autor Fernando Braga
Na segunda metade do século passado, nascia os primeiros gritos da nossa geração, a de 60, marcada por muita claridade. Apesar das mortes violentas de John Kennedy e Martin Luther King, surgiam no mundo, com grande estrondo, o movimento ‘Hip’ e os ‘Beatles’, e junto deles, em nosso país, as premonições de ‘Brasil, o País do Futuro’, escrito pelo judeu-austríaco Stefan Zweig; a inauguração de Brasília; a nacionalização da indústria automobilística; a era romântica do ‘Fusca’; o modelo econômico de Roberto Campos; a magia do nosso futebol a encantar o mundo; a revolução do cinema novo através do talento de Glauber Rocha; o ‘movimento concretista’ a se projetar nas artes, juntamente com os movimentos musicais da ‘Bossa Nova’, ‘Jovem Guarda’ e ‘Tropicália’, bem como os grandes festivais, em todos os níveis de arte, a revelar uma juventude brilhante egressa das Universidades. Ante essa luminosidade toda, o poeta e contista Mário Luna Filho, ainda jovem estudante de medicina e já laureada pela Academia Maranhense de Letras em concursos literários, chamava-me atenção, com o brilho de sua inteligência, para a grandeza e a simbologia imagística da poética de um outro Mário, o Faustino, recém-falecido em desastre aéreo.
Fernando Braga.
Mário Faustino dos Santos e Silva nasceu em Teresina-Piauí, em 22 de outubro de 1930 e faleceu em Lima-Peru, em 27 de novembro de 1962, com apenas 32 anos de idade, num desastre aéreo. Realizou a maior parte de seus estudos em Belém, onde se tornou redator e cronista de ‘A Província do Pará’ e, em seguida, de ‘A Folha do Norte’, onde foi chefe de redação; foi nesse período que Mário reuniu uma plêiade de jovens escritores, poetas e críticos, seus contemporâneos da ‘Geração de 45’, como Haroldo Maranhão [1927-2004], Oliveira Bastos [1933-2006], Benedito Nunes [1929-2011], Max Martins [1926-2009], Rui Barata [1920-1990], o norte-americano Robert Stock [1923-1981] e a ucraniana, naturalizada brasileira, Clarice Lispector [1925-1977], estes dois últimos residentes também, à época, em Belém do Pará, para colaborarem no suplemento, o qual mantinha intensa conexão com os intelectuais do eixo Rio-São Paulo. Como se viu, esses jovens intelectuais, todos contemporâneos de Mário Faustino, hoje descansam nos resplendores da luz perpétua, infelizmente, para perca da nossa história literária, não mais são lembrados... Com exceção de Clarice que vez por outra é alvo de estudos e citações.
Juntamente com os afazeres jornalísticos, Faustino cursou a Faculdade de Direito, abandonando-a no terceiro ano, período em que mereceu uma bolsa de estudos do ‘Institute of International Education’ para estudar Teoria Literária e literatura norte-americana, no Pomona ‘College, Claremont’, nos Estados Unidos, onde viveu dois anos Em 1955, publicou seu primeiro e único livro de poemas, ‘O Homem e sua Hora’, mudando-se no ano seguinte para o Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar como professor-assistente na ‘Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas’- FGV. Tornou-se editorialista do ‘Jornal do Brasil’, assinando nesse suplemento dominical, a página ‘Poesia-Experiência’, dedicada exclusivamente à reflexão sobre a tradição, a teoria e a prática poéticas, principalmente sobre o concretismo, grande foco ao tempo, onde ganhou notoriedade.
Em fins de 1959, decepcionado com os rumos tomados pelo suplemento, desistiu da militância literária e passou a dedicar-se exclusivamente à redação e ao editorial do jornal. Com a interrupção da página, surgiram várias propostas de trabalho no país, mas Mário optou pelo posto de jornalista no ‘Departamento de Informação da Organização das Nações Unidas’ [ONU], em Nova York, entre 1960 e 1962; de retorno ao Brasil, assumiu, por curto período, o cargo de editor-chefe da ‘Tribuna da Imprensa’, logo vendido para o próprio Jornal do Brasil..
Vejamos Mário Faustino nesse ‘Soneto’, publicado em ‘Os melhores poemas’, 2ª ed. São Paulo, global, 1988:
“Necessito de um ser, um ser humano/que me envolva de ser/ contra o não ser universal, arcano/impossível de ler/ à luz da lua que ressarce o dano/cruel de adormecer/a sós, à noite, ao pé do desumano/desejo de morrer./Necessito de um ser, de seu braço/escuro e palpitante/necessito de um ser dormente e lasso/ contra meu ser arfante:/necessito de um ser sendo ao meu lado/um ser profundo e aberto, um ser amado”.
Em ‘Alma que Foste Minha’, publicado em ‘Antologia Poética’, Faustino transcende a beleza imagística:
“Alma que foste minha,/desprendida de meu corpo e de meu espírito,/ leque de palma sem raízes, sem tormentas,/que género esta noite te distingue,/que metro te organiza, por que dogmas,/que signos te orientam — rumo a quê?/— Mestre, qual é o sexo das almas? Desmarcada e sem cordas/alma que foste minha/sem cravos e sem espinhos/que trigo milenar te mata a fome divina/que pirâmide encerra tua essência nudíssima/que corpo te defende de ti mesma do espaço/que idade, quantas eras, contra o tempo alma anárquica/desmarcada e sem cravos/ sem precisão de estar/ ou de ficar/— Que te vale Bizâncio?/ou de mudar/ou de fazer, ou de ostentar/ - Que te vale este verso?/apoética, absurda/como chamar-te alma, de quê, quando./ para quê, alma de morto, para onde?”
Em ‘Vida Toda Linguagem’, Mário, grande poeta que o era e com total domínio do verso e do idioma, mergulha no universo lírico-sintático e apura essa essência do verbo, enfeixado em 'Antologia Poética’:
“Vida toda linguagem,/ frase perfeita sempre, talvez verso,/geralmente sem qualquer adjetivo, /coluna sem ornamento, geralmente partida./Vida toda linguagem,/ há, entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome/aqui, ali, assegurando a perfeição/ eterna do período, talvez verso,/talvez interjectivo, verso, verso./Vida toda linguagem,/feto sugando em língua compassiva/o sangue que criança espalhará — oh metáfora ativa!/ leite jorrado em fonte adolescente,/sémen de homens maduros, verbo, verbo./Vida toda linguagem,/bem o conhecem velhos que repetem,/contra negras janelas, cintilantes imagens/ que lhes estrelam turvas trajetórias./ Vida toda linguagem —/como todos sabemos/conjugar esses verbos, nomear/ esses nomes:/amar, fazer, destruir,/homem, mulher e besta, diabo e anjo/e deus talvez, e nada./Vida toda linguagem,/vida sempre perfeita,/imperfeitos somente os vocábulos mortos/com que um homem jovem, /nos terraços do inverno, contra a chuva,/tenta fazê-la eterna — como se lhe faltasse/outra, imortal sintaxe/a vida que é perfeita/língua eterna”.
Por fim, ouçamos o poeta em ‘Viagem’, publicado no livro ‘Poesia’, em 1966, poema integrante da série ‘Esparsos e Inéditos’. Terá sido este poema o ‘Canto de Cisne’ de Mário Faustino a prever o que iria acontecer quando sobrevoava os Andes?
“Apago a vela, enfuno as velas: planto/um fruto verde no futuro, e parto/de escuna virgem navegante, e canto/um mar de peixe e febre e estirpe farto—/e ardendo em festas fogo-embalsamadas/amo em tropel, corcel, centauramente,/entre sudários queimo as enfaixadas/fêmeas que me atormentam, musamente —/e espuma desta vaga danço e sonho/com címbalo e símbolos, harmônio/onde executo a flor que em mim se embebe,/centro e cetro, curvando-se ante a sebe/divina — a própria morte hoje defloro/e vida eterna engendro: gero, adoro”.
Ou neste ‘Romance’, publicado em 'Antologia Poética'? Talvez tenha sido este o canto derradeiro de Mário Faustino:
“Para as Festas da Agonia/ vi-te chegar, como havia/ sonhado já que chegasses:/ vinha teu vulto tão belo/ em teu cavalo amarelo,/anjo meu, que, se me amasses,/ em teu cavalo eu partira/sem saudade, pena, ou ira;/teu cavalo, que amarraras/ ao tronco de minha glória/e pastava-me a memória,/feno de ouro, gramas raras./era tão cálido o peito/angélico, onde meu leito/me deixaste então fazer,/que pude esquecer a cor/ dos olhos da Vida e a dor/ que o Sono vinha trazer./ Tão celeste foi a Festa,/ tão fino o Anjo, e a Besta/onde montei tão serena,/que posso, Damas, dizer-vos/ e a vós, Senhores, tão servos/ de outra Festa mais terrena —/ não morri de mala sorte,/ morri de amor pela Morte”.
Além de seu único livro ‘O Homem e sua hora’, Faustino traduziu Ezra Pound e Robert Stock para o português.
“Com os Andes não se brinca”, escreveu um dia Dom Pablo Neruda, amigo querido de Mário Faustino, e foi justamente lá, a sobrevoar as neves eternas, que o homem viu sua hora e não chegou ao seu destino. O poeta infelizmente estava naquele último ‘Voo 810, da Varig’.
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*Fernando Braga, in ‘Toda prosa’, antologia de textos do autor.
Ilustração: Capa do livro com foto do poeta Mário F
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