Editoria de Literatura e arte c/Mhario Lincoln
Em “Tempo”, Marise Manoel constrói uma percepção fragmentada da existência, como se o relógio tivesse perdido a autoridade sobre os homens e sobre a natureza. Tulipas que se curvam, ipês que atrasam o florescer, a grama que sobe pelos pés e o assobio às três da madrugada formam uma paisagem em que o tempo deixa de ser medida e passa a ser sensação. A repetição de “perdemos” funciona como eixo do poema e transforma a leitura numa espécie de inventário da desorientação. O tempo já não organiza a vida: ele se dissolve dentro dela.
Há também uma dimensão social muito clara. A insônia, o bêbado que canta, a garrafa contra o muro, as senhas guardadas no moleskine e o cansaço de conservar poemas compõem sinais de uma sociedade saturada de registros, compromissos, códigos e inquietações. O cotidiano aparece como espaço de espera e desgaste. O verso “guardar poemas cansa” (sensacional este verso), concentra uma reflexão sobre memória e sobrevivência: preservar palavras significa carregar vestígios de experiências, afetos e perdas. A imagem do defunto jogando dados amplia essa tensão ao aproximar vida, acaso e morte, numa cena em que a existência parece continuar mesmo quando já não existe futuro a contar.
O fecho, “o tempo não passa deste agora”, conduz o poema a uma síntese filosófica: o presente torna-se a única realidade possível, espécie de limite entre aquilo que desapareceu e aquilo que ainda não chegou. Marise Manoel alcança essa reflexão com economia verbal, ritmo interrompido e imagens cotidianas carregadas de sentido. Sua trajetória iniciada no final dos anos 1970, reunindo poesia, crítica, traduções, música e presença constante em publicações culturais, ajuda a compreender a segurança formal de uma autora que conhece o peso da palavra e também o valor do silêncio entre os versos. Em “Tempo”, ela transforma a passagem dos dias numa pergunta sobre aquilo que ainda somos quando já não sabemos contar o próprio tempo.
O POEMA
TEMPO
Perdemos os sinais do tempo
tulipas se curvam ao vento
a grama sobe pelos pés
ipês atrasam o enigmático florescer.
Perdemos a noção do tempo
perdemos o tempo
e sofremos seguidas insônias
alguém assobia às três da madrugada
uma garrafa se quebra contra o muro
o bêbado canta
Perdemos o passar do tempo
perdemos a noção das coisas
senhas no bolso do moleskine
guardar poemas cansa
Perdemos a contagem dos dias
um defunto joga dados ao acaso
lacônico arremesso de vida
o tempo não passa deste agora.
Marise Manoel verão 2026
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