Por Socorro Guterres.
Quem chega à Curitiba dos grandes parques, como o Tanguá, de surpreendente beleza; Curitiba da Ópera de Arame, cenário de grandes eventos, entre lagos e vegetação típica; Curitiba do Jardim Botânico, de arquitetura em estrutura metálica e estilo art-noveau; Curitiba do Museu Oscar Niemayer (MON), o maior da América Latina; Curitiba das capivarinhas e do lendário trem que atravessa a Serra do Mar, entre “nuvens” e araucárias, e que nos banqueteia na chegada em Morretes com o delicioso Barreado, cozido de carne muito bem temperado; Curitiba da poesia moderna, curta e objetiva de Paulo Leminski; realmente, quem chega à cidade planejada de Curitiba, não pensaria ou não imaginaria em se deparar com um vampiro. Mas ele existiu e existe ainda na literatura singular, concisa, por vezes amarga e irônica de Dalton Trevisan, ou melhor, esse é o título de uma de suas obras mais famosas, O Vampiro de Curitiba, (1965), cujo epíteto se lhe aplica perfeitamente, conforme veremos mais à frente.
Dalton Trevisan nasceu em 1925 e faleceu no ano de 2024. Formado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, atuou alguns anos nessa área para depois dedicar-se inteiramente à escritura, tornando-se um dos mais premiados contistas brasileiros. Ao lado de Rubem Fonseca é considerado um dos maiores renovadores do conto moderno: literatos célebres por retratar o cotidiano urbano. O escritor curitibano revelou com acidez e ironia a terra na qual nasceu, conquistando ao longo da carreira grandes prêmios para autores de língua portuguesa, como o Prêmio Camões (2012); quatro edições do Prêmio Jabuti (1960, 1965, 1995, e 2011) e também se consagrou com o Prêmio Machado de Assis, comenda máxima da Academia Brasileira de Letras. Dentre as obras de Trevisan destaca-se “Novelas Nada Exemplares” (1959) cujo título situa-se como uma criação irônica e subversiva da famosa obra clássica Novelas Exemplares (1613) do escritor espanhol Miguel de Cervantes, embora as obras tratem de universos humanos opostos. Trevisan dedicou praticamente toda sua trajetória literária ao domínio dos contos, publicando dezenas de livros e centenas de textos. Mas voltemos especial atenção ao Vampiro de Curitiba.
O livro publicado inicialmente pela Editora Civilização Brasileira é dividido em 15 capítulos que apresentam o personagem-tipo Nelsinho, também chamado de “herói”, mas que, na verdade, comporta-se como um anti-herói. O diminutivo já é uma ironia e dispõe Nelsinho em diferentes fases da vida, bem como sua relação conturbada com as mulheres. Violência verbal e sarcasmo unem-se à linguagem coloquial e sucinta de Trevisan, que foge ao óbvio, permitindo ao imaginário do leitor preencher o que falta no texto. Às mulheres cabe o papel de vítimas ou sedutoras de Nelsinho, o metafórico “vampiro” curitibano, que se apresenta como um homem cínico, obsessivo e predador sexual, numa personificação da misoginia e do machismo. A imprensa e o público transferiram o título de vampiro ao próprio autor, Dalton Trevisan, mito devido ao seu comportamento recluso, não concedendo entrevistas, recusando-se a ser fotografado ou filmado e não comparecendo a eventos literários. Inclusive não esteve presente às cerimônias nas quais lhe foram concedidos os grandes prêmios que suas obras conquistaram. O escritor paranaense afirmava que “A obra é mais importante que o escritor”, filosofia de vida que justificava sua postura reservada ante a fama e o mercado literário. Mas isso não não o impedia de flanar pelo centro da cidade, por sebos e livrarias, sempre de modo anônimo e silencioso.
A linda cidade de Curitiba, cujo nome origina-se do tupi-guarani Kur yt yba (terra dos pinheirais) é o palco que guarda a solidão atormentada de Nelsinho num foco citadino e marginal, que resulta num certo “amargor”, ou um “mal-estar na civilização”, como diria Freud, ou seja, a oposição da civilização e os impulsos naturais do indivíduo, tais quais as pulsões de prazer e de agressividade do Vampiro de Curitiba.
Assim, “se um viajante numa noite de inverno” - parafraseando título homônimo da obra do escritor Ítalo Calvino, que trago pela similar precisão da linguagem e pela representação da cidade como espaço de memória e desolação - chegar a Curitiba poderá não encontrar a cidade dos pinheiros, a cidade referida como modelo, a cidade padrão de desenvolvimento urbano; mas pode, na perspectiva de Dalton Trevisan, deparar-se com uma distópica urbe de andarilhos. Então, realmente, estará encontrando a intrigante arte literária de Dalton Trevisan, um eterno vampiro a seduzir o leitor que deambula por suas páginas, permitindo-lhe alternar caminhos na cidade de Curitiba, imortalizada em sua obra literária.
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