Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
Este texto tem como base a bela apresentação “A Beira do Abismo”, de Salomão Rovedo, escrita no Rio de Janeiro, em outubro de 2011, para a obra de Joaquim Itapary, e também exaustiva pesquisa realizada em acervos jornalísticos, acadêmicos, institucionais, blogs e redes sociais.
Em agosto de 1944, quando a Segunda Guerra Mundial ainda ocupava as primeiras páginas dos jornais, pescadores do litoral de Guimarães, na Baixada Maranhense, começaram a falar de um animal de grandes proporções visto nas águas da região. O episódio saiu da conversa entre homens do mar e chegou ao jornal O Imparcial, de São Luís. Na edição de 8 de agosto, a reportagem “O ‘Bicho’ de Guimarães” registrou a viagem do comandante H. L. Roush, observador naval dos Estados Unidos no Maranhão, à área onde teria ocorrido o aparecimento. Roush chegou a afirmar ao jornal que a ocorrência do “bicho” lhe parecia um fato, relatando que as buscas haviam sido feitas também por dirigível e avião. Pescadores falavam numa “cobra do mar”, e o prefeito de Guimarães, Carlos da Cruz Brenha, forneceu informações que serviram de base para um desenho da criatura.
No dia seguinte, 9 de agosto, O Imparcial voltou ao assunto sob o título “Serpente Marinha”. O jornal dizia que o caso continuava prendendo a atenção da população. Descrevia um corpo de mais de dez metros, com partes visíveis acima da água, registrava o medo dos pescadores e informava que a atividade de pesca já sofria consequências. A reportagem discutia até uma possível “caça ao monstro”, com pequenas embarcações a vela, já que o ruído dos motores, segundo o relato atribuído a Roush, faria o animal desaparecer. O que hoje soa como uma narrativa pronta para a literatura nasceu, portanto, de páginas efetivamente publicadas na imprensa maranhense.
A história não ficou no Maranhão. Em 21 de setembro de 1944, o Diário Carioca, no Rio de Janeiro, publicou a chamada “O Monstro de Guimarães desperta a imaginação dos vates populares nortistas”. Poucos dias depois, em sua edição dominical de 1º de outubro, o jornal examinou diferentes explicações para o fenômeno: peixe-boi, cachalote, uma sucessão de animais nadando, polvo de grandes dimensões, espécie marinha ainda desconhecida, produto da imaginação popular e até a hipótese de um submarino inimigo camuflado. A própria imprensa de 1944 já havia colocado, lado a lado, zoologia, guerra, medo coletivo e imaginação.
O passo seguinte foi dado pela cultura popular. O poeta baiano Rodolfo Coelho Cavalcanti escreveu o folheto de cordel O Monstro de Guimarães, usando as notícias do Maranhão como matéria de criação. A pesquisadora Larissa Emanuele da Silva Rodrigues de Oliveira, da Universidade Federal do Maranhão, estudou posteriormente as duas versões, a de Cavalcanti e a de Joaquim Itapary, em artigo publicado em 2020 na revista A MARgem, da Universidade Federal de Uberlândia. A pesquisa demonstra que o episódio de 1944 transitou da notícia para a oralidade e da oralidade para o cordel, adquirindo novas formas à medida que era contado. O próprio Cavalcanti informa, em seus versos, que escreveu a partir dos “sinais” observados nos jornais.
Foi sobre essa matéria acumulada durante décadas que Joaquim Itapary trabalhou. Hitler no Maranhão ou O Monstro de Guimarães, publicado pelas Edições da Academia Maranhense de Letras em 2011, parte do acontecimento documentado e entrega a narrativa à ficção. Hitler e Eva Braun surgem no Maranhão, o atentado de 20 de julho de 1944 contra o Führer entra na trama, um submarino participa da história e personagens locais passam a fornecer vestígios, lembranças e revelações ao narrador. Itapary não escreveu uma investigação histórica destinada a provar a presença de Hitler em Guimarães. A pesquisa acadêmica sobre a obra identifica expressamente a mistura entre realidade e ficção empregada pelo escritor.
Há um dado que ajuda a estabelecer com precisão essa fronteira. O submarino U-99, incorporado à fabulação como veículo da presença de Hitler no Maranhão em agosto de 1944, já não existia nessa data. Registros navais dão o U-99 como perdido em 17 de março de 1941, no Atlântico Norte, depois de ataque do destróier britânico HMS Walker. A informação não reduz a construção de Itapary. Ela confirma a natureza literária do expediente. O escritor pega uma hipótese que já circulava na imprensa durante a guerra, a de um submarino associado ao misterioso vulto marinho, e leva essa possibilidade para dentro da ficção.
Salomão Rovedo percebeu esse mecanismo desde a apresentação do livro. Em “A Beira do Abismo”, texto reproduzido nas páginas enviadas à Plataforma, ele começa com uma chave que serve para toda a leitura: “Tudo é invenção, tudo também é verdade”. Rovedo acompanha a passagem de Itapary entre Berlim bombardeada e a ilha de Urubuoca, entre a guerra mundial e o cotidiano maranhense, entre o registro histórico e a história que nasce quando o escritor decide alterar suas fronteiras. Para o apresentador, Itapary trabalha com um texto direto, conciso, capaz de mudar de técnica e de registro sem permanecer preso a um único modelo narrativo. Ao final, situa a novela no campo do realismo fantástico e vê nela um momento de definição da presença de Itapary na ficção maranhense.
A recepção publicada no Maranhão seguiu direção semelhante. Em dezembro de 2023, doze anos depois do lançamento, a coluna PH, no Imirante, dedicou amplo espaço à releitura da obra. Registrou que o livro nasceu de crônicas publicadas em O Estado do Maranhão, recordou a noite de autógrafos no Convento das Mercês e destacou a alternância entre registros narrativos, o vocabulário do litoral, a presença do humor, da história, do horror e do absurdo. O texto identifica na escrita de Itapary um trabalho consciente com a língua portuguesa e com o ambiente cultural maranhense.
Outro registro vem de Fernando Braga, em texto publicado no Blog do Sérgio Muniz. Ao recuperar personagens e lugares da vida intelectual de São Luís, Braga inclui Hitler no Maranhão ou O Monstro de Guimarães entre “os grandes livros da ficção brasileira”. Em 2013, o Blog do Paulinho Castro examinou justamente o ponto em que muitos leitores e páginas da internet passaram a confundir invenção e acontecimento, chamando atenção para o caráter ficcional da viagem de Hitler ao Maranhão. Esse efeito diz algo sobre a técnica empregada por Itapary: a narrativa cerca o impossível com nomes, lugares, datas, documentos aparentes e episódios históricos conhecidos, criando uma zona de verossimilhança na qual o leitor precisa decidir constantemente onde termina o arquivo e começa o escritor.
A obra também ultrapassou o circuito da resenha local. Está catalogada pela Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos, mantida pela Universidade Federal de Santa Catarina, e tornou-se objeto da pesquisa acadêmica publicada pela UFU. Nas buscas em acervos abertos, a repercussão nacional documentada do livro aparece com maior nitidez no meio universitário e em bases literárias. A história original do monstro teve circulação nacional já em 1944. A distinção é importante: o “bicho” chegou aos jornais brasileiros durante a guerra; décadas depois, Itapary deu a ele uma segunda existência pela literatura.
O interesse permanece. Em agosto de 2026, mais de oito décadas depois das primeiras reportagens, a história voltou a circular nas redes sociais em postagem dedicada à memória maranhense, relembrando O Imparcial, os pescadores, as buscas aéreas e a tentativa de descobrir o que havia nas águas da Baía de Cumã. A permanência digital mostra a força de uma narrativa que passou pelo jornal diário, pela conversa popular, pelo desenho, pelo cordel, pela crônica, pela novela e agora circula novamente em vídeos e publicações de rede social.
Joaquim Salles de Oliveira Itapary Filho nasceu em São Bento, em 23 de abril de 1936. Escritor, jornalista, advogado, professor e homem público, ocupou a Cadeira nº 4 da Academia Maranhense de Letras e presidiu a instituição entre fevereiro de 2006 e janeiro de 2008. Sua bibliografia reúne poesia, crônica, pesquisa histórica e econômica e ficção. Morreu em São Luís, em 29 de julho de 2024, aos 88 anos. Na avaliação publicada por José Neres após sua morte, Itapary permanece ligado principalmente à tradição da crônica maranhense, campo do qual sua ficção também retirou personagens, observação social e linguagem.
Hitler no Maranhão ou O Monstro de Guimarães nasceu, assim, de um fato jornalístico que nunca recebeu solução definitiva. Não é necessário encontrar o animal de 1944 para compreender o destino da história. O jornal registrou o medo. O cordel transformou o medo em narrativa popular. Joaquim Itapary introduziu Hitler, Eva Braun, guerra, memória e invenção nesse arquivo. Salomão Rovedo encontrou a formulação que resume o procedimento: invenção e verdade convivem na mesma página. O Monstro de Guimarães deixou as águas da Baía de Cumã sem que ninguém o capturasse. Na literatura, permanece em circulação.
Abaixo, uma rápida apreciação sobre Salomão Revedo, o apresentador do livro de Joaquim Itapary:
(*)SALOMÃO REVEDO por ele mesmo: "Meu nome é Salomão Rovedo (1942), tenho formação cultural em São Luis (MA), resido no Rio de Janeiro. Sou escritor e participei de vários movimentos poéticos nas décadas 60/70/80, tempos do mimeógrafo, das bancas na Cinelândia, das manifestações em teatros, bares, praias e espaços públicos. Tenho textos publicados em: Abertura Poética (Antologia), Walmir Ayala/César de Araújo-CS, Rio de Janeiro, 1975; Tributo (Poesia)-Ed. do Autor, Rio de Janeiro, 1980; 12 Poetas Alternativos (Antologia), Leila Míccolis/Tanussi Cardoso-Trotte, Rio de Janeiro, 1981; Chuva Fina (Antologia), org. Leila Míccolis/Tanussi Cardoso-Trotte, Rio de Janeiro, 1982; Folguedos (Poesia/Folclore), c/Xilogravuras de Marcelo Soares-Ed.dos AA, Rio de Janeiro, 1983; Erótica (Poesia), c/Xilogravuras de Marcelo Soares-Ed. dos AA, Rio de Janeiro, 1984; Livro das Sete Canções (Poesia)-Ed. do Autor, Rio de Janeiro, 1987. e-books: Porca elegia, poesia (1987), 7 canções, poesia (1987), Ilha, novela (2000), A apaixonada de Beethoven, (2001), Sentimental demais, poesia (2002), Amaricanto, poesia (2003, Arte de criar periquitos, contos (2006, bluesia, poesia (2006), Mel, poesia (2006), Meu caderno de Sylvia Plath, fotos&rascunhos (2006, O sonhador, contos (2006), Sonja Sonrisal, contos (2006), Cervantes, Quixote, etc, artigos (2006, Gardência ou..., romance (2006), Outras coisinhas: publiquei folhetos de cordel com o pseudo de Sá de João Pessoa; editei o jornalzinho de poesia Poe/r/ta; colaborei esparsamente em: Poema Convidado(USA), La Bicicleta(Chile), Poetica(Uruguai), Alén(Espanha), Jaque(Espanha), Ajedrez 2000(Espanha), O Imparcial(MA), Jornal do Dia(MA), Jornal do Povo(MA), A Toca do (Meu) Poeta (PB), Jornal de Debates(RJ), Opinião(RJ), O Galo(RN), Jornal do País(RJ), DO Leitura(SP), Diário de Corumbá(MS) – e outras ovelhas desgarradas, principalmente pela Internet. "
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