Luiz Gama em retrato preservado pela Fundação Biblioteca Nacional. (Fotógrafo sem identificação). Foto recuperada e colorizada, integra o Acervo Digital da Academia Poética Brasileira.
Editoria de Pesquisa e Extensão da Platforma Nacional do Facetubes
Ex-escravizado que venceu o analfabetismo e entrou para a literatura brasileira pela porta da sátira. Fala-se muito em Carolina Maria de Jesus. Porém, lá atrás, um outro vencedor literário, negro, vendido pelo próprio pai e analfabeto até os 17 anos, Luiz Gama, o poeta, tornou-se autor, jornalista e intelectual reconhecido. Sua produção foi considerada sofisticada pela crítica, e um de seus poemas recebeu a classificação de obra-prima do Romantismo brasileiro. Foi com essa pauta que a editoria procurou por um escritor brasileiro cuja trajetória social possa ser comparada à de Carolina Maria de Jesus. Porém, isso exigiu muito cuidado. Isso porque – e mesmo com muito glamour - a pobreza, a negritude e a pouca escolarização não constituem, isoladamente, critérios de qualidade literária.
É bom lembrar (isso é dito pelos maiores críticos literários de Carolina) que ela não se tornou importante apenas porque viveu na favela e recolheu papel. Um deles é João Ximenes Neto, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro:
- Já é tempo de a crítica recusar esse epíteto ‘escritora-favelada’ [...] Carolina produz arte. Carolina Maria de Jesus é escritora. (Cunhou Ximenes, acertadamente).
Ximenes Neto critica justamente a redução de Carolina à condição de mulher pobre, negra, favelada e catadora de papel. Segundo o pesquisador, parte da imprensa e da chamada aristocracia intelectual tratou seus livros como documentos sociais, negando-lhes elaboração poética e literária.
Para ele, porém, “Carolina transforma a experiência vivida em linguagem artística, com metáforas, contrastes, ironia, observação psicológica e uma forma própria de organizar a narrativa. Por isso, tornou-se fundamental porque produziu, em Quarto de Despejo, uma linguagem capaz de transformar fome, exclusão e observação cotidiana em literatura”, completa.
Dentro desse rigor, o nome que mais consistentemente responde à pesquisa é Luiz Gama, embora não se trate de uma equivalência perfeita.
Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 1830. Filho de uma africana livre com um homem branco de origem portuguesa, foi vendido ilegalmente pelo próprio pai aos dez anos e enviado para São Paulo, onde permaneceu escravizado. Não sabia ler nem escrever até os 17 anos. Depois de aprender as primeiras letras, tornou-se autodidata, comprovou que nascera livre e reconquistou a própria liberdade. Foi poeta, jornalista, funcionário público e um dos raros intelectuais negros do Brasil oitocentista que haviam vivido pessoalmente a escravidão.
É necessário, portanto, fazer uma correção conceitual: Luiz Gama não permaneceu semianalfabeto. Ele partiu do analfabetismo imposto pela escravização e alcançou uma formação intelectual construída fora das instituições acadêmicas. Aos 29 anos, publicou em São Paulo Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de 1859, com uma segunda edição lançada em 1861.
Pesquisa da professora Lígia Fonseca Ferreira demonstra que Gama não foi apenas alguém que espontaneamente escreveu versos: participou da organização, da composição editorial e da preparação de seus próprios livros, utilizando epígrafes, referências literárias e modelos poéticos portugueses. Era autor, leitor e, em certo sentido, editor de si mesmo.
A principal força de Luiz Gama está na sátira. Sob o nome literário de Getulino, ele empregou humor, paródia, ironia e agressividade verbal para desmontar a hipocrisia racial de uma sociedade escravista. Em “Quem sou eu?”, poema conhecido como “A Bodarrada”, as classificações raciais aparecem submetidas a uma corrosiva operação literária: o poeta expõe uma sociedade que fingia pureza branca enquanto era profundamente miscigenada e sustentada pelo trabalho de pessoas negras.
Manuel Bandeira e Péricles Eugênio da Silva Ramos consideraram o poema - “A Bodarrada”, - uma obra-prima do Romantismo Brasileiro, conforme registro preservado pela Academia Brasileira de Letras. No Maranhão, um dos que o estudam com maior acuidade é o professor José Neres, tendo publicado textos revelantes sobre ele.
A verdade é que, durante muito tempo, uma parcela da crítica valorizou Luiz Gama principalmente como personagem histórico, abolicionista e advogado dos escravizados, deixando sua elaboração estética em segundo plano. Estudos contemporâneos contestam essa leitura limitada.
Pesquisadores passaram a observar como sua sátira racial altera os códigos da poesia romântica, introduz uma voz negra consciente de sua posição social e transforma o riso em instrumento de transgressão. Sua poesia não deve ser lida como simples documento contra a escravidão: possui construção formal, domínio da caricatura, ritmo argumentativo e uma capacidade incomum de fazer a linguagem atacar as estruturas que pretendiam silenciá-lo.
A avaliação crítica mais justa talvez seja esta: Luiz Gama não foi um poeta apesar de sua origem; foi um grande escritor porque soube converter experiência, leitura, inteligência e indignação em forma literária. Sua obra não pede compaixão ao leitor. Ela confronta, ridiculariza e acusa.
Nesse ponto surge a aproximação mais profunda com Carolina Maria de Jesus. Ambos recusaram o lugar de objeto descrito pelos outros e assumiram o lugar de autores. Carolina escreveu a fome, a favela, o trabalho precário e a violência urbana a partir do diário e do testemunho. Luiz Gama escreveu a escravidão, o racismo, a corrupção e a desigualdade jurídica por meio da sátira, do jornalismo e da poesia política.
Também há uma diferença decisiva. Carolina alcançou circulação internacional e grandes números de venda com Quarto de Despejo. Luiz Gama não foi um best-seller nos moldes do mercado editorial moderno. Seu reconhecimento ocorreu inicialmente nos círculos literários, jornalísticos, jurídicos e abolicionistas, sofreu posterior apagamento e foi recuperado por pesquisadores, universidades e movimentos negros. Em 2021, tornou-se o primeiro brasileiro negro a receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de São Paulo, homenagem aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário.
Luiz Gama é, assim, a resposta historicamente mais segura para quando buscamos um precursor masculino, nas mesmas condições (similares) de Carolina Maria de Jesus. Da mesma forma, sua biografia não deve alimentar a romantização da miséria, mas demonstrar como o acesso à palavra pode modificar o destino individual e, ao mesmo tempo, desafiar uma sociedade inteira. Gama não apenas aprendeu a escrever: fez da escrita uma forma de liberdade e transformou a literatura em tribunal contra o Brasil escravista.
---------------------
Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes./ Fontes consultadas: Fundação Biblioteca Nacional; Revista Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo; Escola de Comunicações e Artes da USP; Academia Brasileira de Letras; periódicos científicos disponíveis na plataforma SciELO.
Colunistas FT Texto Especial de Joizacawpy Costa: O AÇÚCAR (Ferreira Gullar)
RELEMBRANÇAS Replay: Emilio Ayoub transformou os Muros Caiados de São Luís em Alma Poética
Textos escolhidos CONVIDADO ESPECIAL: Professor José Neres, “O (Re)Nascer de um livro e de uma escritora
TROVAS MARANHENSES Carlos Cunha: o mestre que fez da trova uma escola de pensamento
SEGUNDA POÉTICA Esta edição da SEGUNDA POÉTICA ultrapassa 3 mil acessos. Parabéns a todas as participantes.
EXCLUSIVO Leonardo Magalhaens fala sobre Lao She. Jung Chang. Literatura chinesa. Modernismo. Mín. 9° Máx. 21°
Mín. 9° Máx. 21°
Tempo nubladoMín. 12° Máx. 25°
Tempo limpo
Esmeralda Costa Literatura de Cordel: A Tradição Que Aprendeu a Dialogar Com o Futuro
EDITORIAL DE HOJE Será que somos machistas ao falar “todos”, para uma plateia visivelmente mista?
Colunista Socorro Guterres Socorro Guterres: “O retorno de Ulisses”. exclusivo para o Facetubes
Academias Brasil/Exterior Coirmãs De Carlos Nina, especial para a Plataforma Nacional do Facetubes: “A erosão do discernimento”.