Renata Barcellos (BarcellArtes)
As Literaturas Infanto-Juvenis desempenham um papel crucial no desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e jovens, promovendo a imaginação, a empatia e o amor pela leitura. Através de histórias envolventes, apresenta aos jovens leitores a riqueza da linguagem e os ajuda a compreender diferentes visões de mundo.
Vale destacar e esclarecer quais são os precursores das Literaturas Infanto-Juvenis no Brasil:
Julia Lopes de Almeida com ‘Contos Infantis’, de 1886, e ‘Era Uma Vez’, de 1917 e Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), romancista, cronista, jornalista, poeta e um dos primeiros autores a adaptar os contos europeus para circulação no Brasil: de Charles Perrault, dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen Em 1894, publica Contos da Carochinha, o primeiro livro infantil publicado no Brasil. Também foi o primeiro a publicar um livro infantil no Brasil, tendo traduzido e adaptado clássicos para a juventude como As mil e uma noites, Dom Quixote e Robinson Crusoé, além de vários contos dos Irmãos Grimm.
Carl Jansen (educador, militar, escritor e jornalista teuto-brasileiro) por traduzir clássicos como Robinson Crusoé, Viagens de Gulliver, As Aventuras do Celebérrimo Barão de Münchhausen e D. Quixote de La Mancha. Foi pioneiro ao traduzir, em português brasileiro, obras para a juventude, entre as quais romances de Swift, Defoe e Cervantes.
Em 1904, "Poesias Infantis", de Olavo Bilac (1865 a 1918 ) e “Através do Brasil”, editado em 1910, de autoria de Olavo Bilac e Manuel Bonfim. Thales Castanho de Andrade (1890-1977) redigiu “A Filha da Floresta” (1918) e ‘Saudade’ (1919).
Em 1920, “A menina do narizinho arrebitado", de Monteiro Lobato (1882 a 1948). A obra é constituída por personagens e cenários brasileiros. Além de abordar temas relevantes para a cultura nacional, como a valorização do campo e a crítica social. Para Zilberman foi reconhecido por ter modernizado a Literatura Infantil Brasileira. Lobato declarava que “gostaria de criar livros nos quais as crianças pudessem morar como ele havia morado no Robinson Crusoé e nos Filhos do Capitão Grant na sua infância”.
Em 1923, Cecília Meirelles editou o seu primeiro livro para crianças: Criança Meu Amor. Para divulgação da leitura e do livro infantil, Cecília Meirelles esteve à frente da primeira biblioteca pública infantil brasileira, localizada no Pavilhão ou Espaço Mourisco, inaugurada em 1934, na Praia de Botafogo, Rio de Janeiro. Em 1964, iniciou uma nova fase na literatura infantil brasileira ao lançar uma coletânea de poemas para crianças, chamada de Ou Isto Ou Aquilo. Fica a dica de leitura!!!
Em 1938, é publicado Cazuza, do maranhense Viriato Corrêa. Trata-se de um dos maiores sucessos das Literaturas Infanto-Juvenis Brasileiras. Estas relatam vivências do próprio autor. É a história de um menino cujo nome é Cazuza que, depois de adulto, resolve escrever suas memorias de infância. Este vive em um lugarejo do Maranhão, no final do século XIX, e realiza seu grande desejo de entrar na escola. Mas o primeiro dia de aula é uma grande decepção: depara-se com um ensino rígido, pois se usava a punição como principal ferramenta de controle dos alunos. A obra questiona o ensino da época, os preconceitos e, com descrições leves e bem-humoradas, traz informações do Brasil e da sua história para o público infanto-juvenil.
No Brasil, a Lei nº 8.069/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é o principal marco legal que trata da proteção integral à criança e ao adolescente. Esta incluiu o acesso às Literaturas Infanto-Juvenis como um direito fundamental. Além do ECA, outras leis como a nº 10.639/2003 e a nº 11.645/2008 abordam a importância da inclusão de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação e, nas literaturas, incluindo as Infanto-Juvenis.
Entrevista com Roseana Murray
“A poesia é um canal aberto para mim. Não espero que caia um raio de inspiração na minha cabeça” Roseana Murray
Roseana Murray é uma das autoras do Projeto Com a palavra o autor – volume 2 -
Fiz contato e prontamente aceitou participar do projeto com alunos do terceiro ano do Ensino Médio, do Colégio Estadual José Leite Lopes.
Segundo William Amorim (escritor, psicanalista, especialista em Saúde Mental membro e Diretor do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise...), Rosenana Murray, é “um dos maiores nomes da literatura brasileira, é a prova viva disso, de que a arte pode curar o trauma. O Brasil inteiro acompanhou, consternado e estarrecido, a tragédia que se abateu sobre ela no dia 05 de abril de 2024. Mas, graças à sua arte, a literatura, Roseana não sucumbiu. Fez da sua dor combustível para a criação e de sua arte uma segunda pele capaz de protegê-la do caos. Ela nos transmitiu lindamente como o fazer artístico pode nos permitir, enfim, voltar para casa depois de uma tempestade emocional”.
Minicurrículo: autora de livros de poesia e contos para crianças, jovens e adultos. Graduada em Língua e Literatura francesa pela Universidade de Nancy através da Aliança Francesa. Recebeu ao longo de sua carreira os Prêmios: A.P.C.A, O Melhor de Poesia da F.N.L.I.J ( ( por quatro vezes) , Prêmio A.B.L para livro infantil. Recebeu por diversas vezes a láurea “Altamente Recomendável da F.N.L.I.J. Faz parte da Lista de Honra do Organismo Internacional I.B.B.Y que abriga os melhores autores de literatura infanto-juvenil do mundo. Trabalha com o Projeto de Leitura Café, Pão e Texto, recebendo Escolas Públicas em sua casa para um café da manhã literário. Faz palestras sobre a Formação do Leitor. Tem cerca de cem livros publicados.
Site: https://roseanamurray.com/site/
Entrevista
1- Em entrevistas, a senhora declara que “As minhas escolhas são assim ao acaso. Um sopro”. Acredita ser o processo de escrita inspiração e não como disse Thomas Edison “O sucesso é constituído por 10% de inspiração e 90% de transpiração”?
Roseana Murray: Geralmente meus livros nascem de uma ideia, a escrita é fruto de muita leitura de grandes poetas, do meu olhar. Digamos que a ideia seja a inspiração e a escrita a expiração. Porque o poema carrega a respiração do poeta.
2- A historiografia das literaturas infanto-juvenis precisa ser revista urgentemente. Obras voltadas para este público foram escritas muito antes de Monteiro Lobato como Cazuza de Viriato Correa. Como vê o espaço para este tipo de literatura?
Roseana Murray: Não sou acadêmica nem pesquisadora. Escrevo poemas para todas as idades e os meus leitores geralmente amam o que escrevo. Não me preocupo com a historiografia da literatura infanto-juvenil.
3- Como foi o processo de criação de O braço mágico? Qual a importância de o leitor conhecer o escritor (a) para analisar um texto literário?
Roseana Murray: O Braço Mágico foi a ideia que nasceu quando soube que tive meu braço direito amputado. Emergiu de dentro de mim essa ideia de um braço com superpoderes. Assim, criei um braço simbólico e pude sair do trauma. O leitor ama conhecer o escritor que ama. Muitos escritores que amo eu não conheço, muitos estão mortos. Quando criança amava o Sitio do Pica-Pau Amarelo e nunca, naquela época, tive nenhuma curiosidade em conhecer o autor. Conhecer o autor é algo que começou recentemente, nos anos 70, talvez, com Feiras de livro, visitas à escola. Sinceramente, a fruição de um livro não requer conhecer o autor. Nem a compreensão de um texto. É como se fosse um presente, penso assim.
4- Conte-nos sobre estes projetos: Café, Pão e Texto e Clube de leitura da Casa Amarela.
Roseana Murray: O Café, Pão e Texto recebia Escolas Públicas em minha casa em Saquarema para um café da manhã comigo. Durou mais de 20 anos. Era maravilhoso! Líamos poemas e conversávamos sobre temas variados. Com a mudança para Visconde de Mauá em 2025, o Projeto não conseguiu decolar. Os encontros são muito esporádicos.
Mas o Clube de Leitura da Casa Amarela está cumprindo 16 anos e continua. São adultos lendo literatura para adultos muito variada. Eu sou a curadora.
Aqui em Visconde de Mauá criei o Clube de Leitura do Vale Criativo no Teatro. Lemos dramaturgia. É maravilhoso. Também sou a curadora. Penso que os Clubes de Leitura são a melhor maneira de formar um leitor.
5- Qual o espaço e as funções das literaturas contemporâneas?
Roseana Murray: Parece tão óbvio que precisamos ler o que se faz hoje e o que se fez no passado!!! Sempre levando em conta o contexto histórico. Em meus Clubes de Leitura misturo tudo: autores de hoje, autores de outros séculos. A boa literatura também nos ensina História. As questões do nosso tempo e as questões do passado.
6- Seus textos são utilizados em concursos públicos, a senhora acompanha? Como analisa as questões propostas?
Roseana Murray: Não acompanho.
7- Mensagem aos leitores
Roseana Murray: Leiam, leiam e leiam. Um livro nos dá tudo, é casa e comida. Ter um acervo de literatura por dentro, quer dizer acervo de vocabulário, de ideias, de sonhos e realidades, de curiosidades, de empatia. Os livros sempre me salvaram. Deixem um livro sempre ao alcance da mão. E a escrita é um transbordamento da leitura.
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