Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Literatura e Arte c/ Mhario Lincoln
A literatura transformou a relação entre pais e filhos em um de seus territórios mais complexos porque a família, antes de ser refúgio, também pode ser espaço de expectativas, rupturas, autoridade, medo e transformação. Em obras de Cristovão Tezza, Raduan Nassar, Ivan Turguêniev, Kenzaburo Oe e Andrew Solomon, surge uma questão comum: até onde um pai consegue aceitar que o filho não veio ao mundo para realizar o projeto que havia sido construído para ele? Ou, ainda, amor parental pretende adaptar o filho às expectativas dos pais ou consegue modificar as próprias expectativas para acolher quem o filho demonstra ser?
Na literatura brasileira, O filho eterno, de Cristovão Tezza, ocupa posição central nessa discussão. O romance parte do nascimento de Felipe, uma criança com síndrome de Down. Isso gera um impacto dessa realidade sobre um pai que não estava preparado para recebê-la. Tezza recusa a representação confortável da paternidade imediata e incondicional. Seu personagem sente medo, frustração, vergonha e resistência antes de conseguir compreender o filho para além do diagnóstico. É justamente nessa imperfeição que o romance alcança sua força. O pai precisa abandonar progressivamente a criança imaginada para reconhecer a criança existente. Felipe deixa de representar uma ruptura nos planos do adulto e adquire sua própria dimensão humana. Vencedor do Prêmio Jabuti de Romance em 2008 e de outras importantes distinções, O filho eterno estabelece uma pergunta que ultrapassa sua história particular: um pai ama aquilo que esperava receber ou é capaz de aprender a amar aquilo que a realidade lhe entregou?
Em Lavoura arcaica, publicado por Raduan Nassar em 1975, a perspectiva se inverte. Não é o pai que precisa aprender a aceitar o filho, mas o filho que procura escapar de uma estrutura familiar organizada pela palavra paterna. André abandona a casa onde o pai representa disciplina, trabalho, religião, tradição e continuidade. A família possui sua própria ordem e o pai acredita conhecer o lugar que cabe a cada um de seus integrantes. O conflito de Nassar não pode ser reduzido à oposição entre autoridade e rebeldia. Há uma disputa mais profunda entre duas maneiras de existir. O pai procura preservar a herança familiar; André exige o direito à diferença. A pergunta passa a ser outra: quando a transmissão de valores deixa de formar uma pessoa e começa a impedir que ela se transforme em alguém diferente de quem a família desejava?
Na Rússia do século XIX, Ivan Turguêniev já havia colocado esse conflito no centro de Pais e filhos. Publicado em 1862, o romance acompanha o retorno de Arkádi à propriedade paterna na companhia de Bazárov, jovem que rejeita autoridades, tradições e boa parte dos valores defendidos pela geração anterior. O choque doméstico torna-se representação de uma mudança histórica: pais e filhos já não discutem apenas dentro de casa, mas representam épocas que começam a falar linguagens diferentes. Turguêniev evita conceder vitória definitiva a qualquer dos lados. Os mais velhos descobrem que não podem determinar intelectualmente os filhos; os jovens percebem que romper com o passado não os torna imunes ao amor, à família, ao sofrimento e à morte. A modernidade do romance está justamente nisso: educar alguém significa também prepará-lo para contestar aquilo que lhe foi ensinado. No Brasil, Pais e filhos possui, entre outras edições, tradução direta do russo publicada pela Antofágica.
A literatura japonesa leva o problema a uma região ainda mais extrema em Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe. Bird, seu protagonista, tem o primeiro filho com uma grave anomalia cerebral. Diante da notícia, não surge imediatamente um pai exemplar. Aparece um homem assustado, frustrado, desejoso de fugir da responsabilidade e da vida que repentinamente se impõe diante dele. Oe transforma a paternidade em decisão moral. Há uma proximidade evidente entre Oe e Tezza, embora os caminhos literários sejam distintos. Em O filho eterno, acompanhamos lentamente a construção de um pai. Em Uma questão pessoal, assistimos ao instante em que um homem precisa decidir se aceitará ser pai. Em ambos, o nascimento de uma criança considerada diferente desmonta projetos anteriores e obriga o adulto a reconsiderar a própria ideia de felicidade. A obra de Oe está disponível em português pela Companhia das Letras.
É nesse ponto que Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, de Andrew Solomon, altera a natureza da discussão. Não se trata de romance, mas de extensa investigação jornalística sobre famílias reais. Durante anos, Solomon ouviu pais e filhos marcados por diferenças profundas, envolvendo surdez, nanismo, síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, deficiência, transexualidade, crianças prodígio, filhos concebidos por estupro e jovens envolvidos em crimes graves. A edição brasileira foi publicada pela Companhia das Letras.
Entre os relatos está o de Jason Kingsley, nascido com síndrome de Down, cuja família recusou previsões que praticamente anulavam suas possibilidades futuras. Está também a trajetória de Clinton Brown III, diagnosticado com nanismo diastrófico e submetido a dezenas de procedimentos médicos antes de alcançar uma vida universitária com autonomia. Em outra região muito mais perturbadora do livro, Solomon entrevista Tom e Sue Klebold, pais de Dylan Klebold, um dos autores do massacre de Columbine, para investigar uma pergunta quase insuportável: o que acontece com o amor dos pais quando o filho pratica um ato moralmente indefensável?
Ainda em Longe da árvore, Andrew Solomon há uma história de Hailey Krueger e Jane Ritter, duas mulheres que formaram uma família em condições econômicas difíceis e criavam, entre outras crianças, Jayden. Desde muito pequeno, Jayden afirmava ser menina e, aos cinco anos, passou a se chamar Hannah, nome inspirado na personagem Hannah Montana. Quando a escola sugeriu encaminhá-la a um terapeuta por comportamentos considerados incompatíveis com o gênero que lhe havia sido atribuído ao nascer, as mães recusaram a ideia de que a criança precisasse ser “corrigida”. Elas sequer conheciam, naquele momento, o conceito de identidade trans; segundo o relato recuperado por Solomon, a aceitação veio antes da terminologia. Os nomes apresentados nesse episódio são pseudônimos, conforme as notas documentais do próprio autor.
O caso é particularmente importante para a tese de Solomon porque desloca a discussão do diagnóstico para a identidade. Não se trata de pais aprendendo a conviver com uma limitação física ou intelectual, mas de reconhecer que o filho pode construir uma compreensão de si completamente diferente daquela imaginada pela família ao seu nascimento. Hannah obriga os adultos ao redor a enfrentar uma pergunta semelhante à que atravessa todo o livro: o amor parental pretende adaptar o filho às expectativas dos pais ou consegue modificar as próprias expectativas para acolher quem o filho demonstra ser? É nesse ponto que Longe da árvore alcança sua dimensão mais ampla: a diferença entre pais e filhos não precisa destruir o relacionamento; pode, ao contrário, obrigar a família a substituir controle por reconhecimento.
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