Eloy Melonio é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
Dos momentos mágicos do cinema não posso esquecer os faroestes, tão bem conhecidos como filmes de “bangue-bangue”. Já falei sobre isso na crônica “Um Mundo de Gente e Memórias” (29-9), quando trouxe à cena o Cine Éden (1919-1984), o mais famoso cinema de nossa cidade, especialmente nas décadas de 60 e 70, época em que eu era assíduo frequentador. Esse gênero era tão popular que as crianças brincavam nas ruas de “bandido e mocinho”. Entre seus brinquedos, revólveres de plástico.
Nesses filmes, as cenas espetaculares eram os duelos entre dois caubóis, geralmente vaqueiros que se desentendiam no saloon da cidade. No cenário selvagem, os caçadores de recompensa e os matadores por encomenda. Duelos faziam parte da cultura do velho oeste americano, quando dois homens precisavam resolver um problema de foro íntimo (mulher, dívida, vingança). A lei lhes facultava essa possibilidade de resolver suas pendengas. O morto nem sempre era o “bad guy” (bandido), mas o menos rápido no gatilho.
Os duelos aconteciam na rua principal da cidade e os curiosos se protegiam nos prédios comerciais, no mais profundo silêncio e expectativa. Ou em qualquer lugar até que uma bala decidisse quem iria para “a cidade dos pés juntos”, expressão com a qual meu pai se referia ao cemitério. O vencedor era o “mais rápido no gatilho”, fama que era rapidamente propagada na região. Quanto mais nomes na sua lista, mais respeitado o matador. O vencedor assoprava a fumaça na ponta do cano do revólver e devolvia-o ao coldre. De volta ao saloon, a vida continuava com mulheres, uísque e a fumaça dos charutos.
Entre muitos, destaco “O Bom, o Mau e o Feio” (1966), cujo trio do elenco ainda lembro: Clint Eastwood, Lee Van Cleef (O Mestre, 1984) e Eli Wallach. O mocinho era “Blondie” (Lourinho), interpretado pelo galã Eastwood. Também não posso deixar de destacar a trilha sonora, especialmente nas cenas que aconteciam nas montanhas. Essa obra prima da história dos “faroestes”, com melodia ecoante, foi criada pelo maestro italiano Ennio Morricone. Tenho um amigo que conseguia assobiar esse instrumental como quem assobia um jingle de cerveja, com uma perfeição de dar inveja a qualquer “rouxinol” bom de bico.
Deixando de lado a ficção, vamos para a realidade crua da campanha eleitoral para presidente, neste segundo turno da eleição. E qual a razão para isso? Não sei se você concorda, mas acho que há uma inequívoca semelhança com os bangue-bangues do cinema.
O duelo é uma delas, pois são dois candidatos para uma vaga. Nessa condição, um tem de “eliminar” o outro, ou seja, derrotá-lo nas urnas com a maioria dos votos. Eliminar parece exagerado, mas, se considerarmos que o embate é decisivo, admite-se que o pleito seja ferrenho. O inadmissível, no entanto, é que essa disputa não precisaria ser destituída de ética, civilidade, coerência... e, sobretudo, “verdade”. Tal realidade invade a nossa casa, o nosso carro, os nossos relacionamentos. E como dizem candidatos e apoiadores vorazes, “agora é pra valer”. E nós, eleitores, somos reféns de um palavreado agressivo e indecente.
Nesse “vale-tudo”, não vale usar a música de Tim Maia como exemplo. Porque na música existe uma restrição: “só não vale dançar homem com homem/Nem mulher com mulher”. Pelo que já vi, parece que restrição é o que não se pensa e não se fala quando o assunto é campanha eleitoral. O que importa é “ganhar e ganhar”. Logo nas primeiras cenas desse bangue-bangue político, já deu pra sentir o clima de “o bicho vai pegar”. E o pior é que esse “bicho” está solto nas ruas, nas repartições, nas universidades, nas redes sociais.
Um fato que precisa ser avaliado tem a ver com situações e revelações que, algumas vezes, são manipuladas ou descontextualizadas para atender ao enredo do “vale tudo”. Nesse filme da vida real vale descobrir e revelar se o BYD de um foi comprado ou foi parte de alguma negociata. Se o jatinho do outro é ou não é dele. Se o diploma na sua sala de estar foi resultado de esforço acadêmico ou de muito “samba, suor e cerveja”. Essas situações são hipotéticas e não se referem a nenhum dos candidatos, mas a concepção é literalmente real.
Não quero estender esta conversa além deste ponto, mesmo sabendo que existem situações inomináveis. Não sou juiz eleitoral, mas sou um “cidadão” que preza o seu título de eleitor. Por enquanto, só gols contra. Contra o bom-senso, contra o respeito, contra a ética político-partidária, contra o Brasil.
O vale-tudo da disputa já começou. Quem puder fechar os olhos ou tapar os ouvidos, a saúde da nossa “pátria-amada” agradece.
NOTA: O que foi dito sobre os duelos nos segundo e terceiro parágrafos é mito, pura “invenção” do cinema. Na verdade, as cidades do velho oeste americano (segunda metade do século XIX) tinham leis rígidas sobre uso de armas e duelos de sacada rápida.

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