Por Esmeralda Costa, titular da Coluna do Cordel Brasileiro, exclusivo da Plataforma Nacional do Facetubes
Tem gente que nasce para cantar.
Tem gente que nasce para escrever.
E tem gente que, de tão grande naquilo que faz, acaba virando verso, história e memória do povo. Belchior é assim.
No dia 26 de outubro de 2026, o menino de Sobral, Antônio Carlos Belchior Fontenelle Fernandes, completaria 80 anos de vida. O tempo levou o homem, mas não levou sua voz. Pelo contrário: quanto mais os anos passam, mais Belchior parece encontrar novos ouvidos, novas gerações e novas formas de continuar existindo. E quando um artista chega ao cordel, podemos dizer que ele entrou definitivamente na casa do povo.
Belchior nasceu no Ceará, terra de grandes cantadores, repentistas, poetas e cordelistas. Aprendeu cedo os caminhos da palavra, da música e da reflexão. Estudou com padres, conheceu filosofia, latim e canto gregoriano, chegou a cursar Medicina, mas abandonou a universidade para seguir aquilo que parecia ser seu destino: a música. Foi encontrar outros jovens artistas no chamado Pessoal do Ceará, movimento que revelou nomes fundamentais da música brasileira. Vieram os festivais, a projeção nacional e, depois, uma obra que ajudaria a mudar a própria maneira de ouvir e compreender a MPB.
Em 1976, Alucinação chegou como um daqueles discos que não envelhecem. Belchior cantava a juventude, a estrada, o amor, a desilusão, a cidade, a América Latina, o Nordeste e as transformações de uma geração. Cantava aquilo que muita gente sentia, mas ainda não sabia como dizer. E talvez esteja aí uma das razões pelas quais suas canções continuam tão atuais. Belchior sabia transformar sentimento em palavra. Quem nunca ouviu “Como Nossos Pais” e se reconheceu em algum verso? Quem nunca acompanhou “Apenas um Rapaz Latino-Americano” como se estivesse ouvindo a história de alguém que poderia ser um irmão, um amigo, um vizinho ou nós mesmos?
Sua poesia não ficava distante do povo, ela conversava com o povo.
DO PALCO PARA O FOLHETO
Mas há uma coisa especialmente bonita quando falamos de Belchior nesta Coluna Cordel Brasileiro. É perceber que o cantor e compositor, depois de deixar os palcos, encontrou outro palco: o papel do folheto de cordel. O homem que cantou a inquietação de uma geração tornou-se personagem dos poetas populares. E isso diz muito. O cordel sempre teve a coragem de contar histórias de reis e rainhas, santos e pecadores, políticos e heróis, tragédias e acontecimentos do cotidiano. Quando escolhe um artista para transformar em versos, também está dizendo: esta história merece ser guardada. Belchior mereceu. E os cordelistas entenderam isso.
Surgiram folhetos que narraram sua vida, sua carreira, seu desaparecimento e até sua chegada ao paraíso. Entre eles estão: Batendo à Porta do Céu – A Chegada de Belchior ao Paraíso, de Caio César Muniz; Belchior Não Morreu!, de Rouxinol do Rinaré; e Comentário a Respeito de John? — É Não Sinhô... É Cordel a Respeito de Belchior!, de Pedro Sampaio.
Cada poeta encontrou seu próprio caminho para contar Belchior. E cada verso acrescentou uma nova camada ao mito. Porque é assim que funciona a cultura popular: a história sai da biografia e entra na imaginação do povo.
BELCHIOR VIROU CORDEL
Talvez um dos maiores sinais da permanência de Belchior esteja justamente nesse encontro entre sua música e a literatura de cordel.
O pesquisador cearense Alberto Perdigão mergulhou nesse universo e reuniu uma pesquisa sobre 28 biografias de Belchior, entre livros e folhetos de cordel. O resultado é o livro Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel.
A pesquisa mostra que existem diferentes maneiras de contar Belchior. Há o homem biografado, o compositor estudado, o artista lembrado e, principalmente, o personagem que ganhou nova vida na literatura popular.
No cordel, Belchior já não pertence somente aos palcos, ele pertence à memória. E a memória do povo não se guarda em silêncio. A memória do povo se conta, se canta, se rima e se passa de boca em boca.
O RAPAZ LATINO-AMERICANO E O POETA DO NORDESTE
Há também uma curiosidade bonita nessa história. Belchior tornou-se conhecido nacionalmente como o “rapaz latino-americano”, mas o cordel devolveu a ele algo de sua origem, de Sobral para o Brasil, do Brasil para a poesia, da poesia para o cordel e do cordel novamente para o povo.
Assim, o artista que conquistou a MPB retorna simbolicamente às suas raízes nordestinas pelas mãos dos poetas populares. E isso não é pouca coisa. É o reconhecimento de que Belchior não foi apenas um cantor de sucesso. Foi um artista que colocou pensamento dentro da canção e poesia dentro da música popular. Foi filósofo sem perder a conversa com a rua. Foi poeta sem abandonar a simplicidade. Foi universal sem deixar de ser cearense.
OITO DÉCADAS DE UMA PRESENÇA
Belchior faria 80 anos. E talvez esta seja a melhor maneira de celebrar essa data sem jamais tratá-la como efeméride. Porque as datas passam, mas os versos ficam. O aniversário de 80 anos de Belchior é uma oportunidade para apresentar sua obra aos jovens que ainda não a conhecem, revisitar as canções que marcaram gerações e compreender por que esse artista continua despertando tanto interesse. É também uma oportunidade para olhar para o cordel e reconhecer sua força como instrumento de preservação da memória cultural. Quando um cordelista pega a história de Belchior e a transforma em sextilha ou septilha, ele não está simplesmente contando novamente aquilo que já foi contado. Ele está fazendo o que o povo nordestino sempre soube fazer: transformando a vida em poesia. E talvez seja por isso que Belchior tenha encontrado no cordel uma espécie de segunda eternidade. A primeira está nas suas músicas. A segunda está nos versos daqueles que continuam contando sua história.
BELCHIOR NÃO MORREU
Morreu o homem, em 30 de abril de 2017, mas não morreu o artista, não morreu o compositor, não morreu o poeta e sobretudo, não morreu o personagem que o povo adotou. Belchior continua nas rádios, nos discos, nos palcos, nos livros, nas pesquisas, nas redes sociais, na voz de novos intérpretes e, para nossa alegria, nas páginas do cordel.
Por isso, nesta edição da Coluna Cordel Brasileiro, quando lembramos que Belchior completaria 80 anos, lembramos muito mais que uma data. Celebramos uma vida dedicada à palavra, celebramos a música brasileira, celebramos o Ceará, celebramos a poesia popular e celebramos os cordelistas que entenderam que certas histórias não podem ser deixadas para trás. Porque, quando o poeta escreve, quando o cantador canta, quando o povo memoriza, o tempo não consegue apagar.
Belchior partiu, mas deixou seus versos na estrada. E o cordel, com sua velha e sábia arte de guardar histórias, tratou de recolhê-los. Hoje, esses versos continuam caminhando, passando de mão em mão, de boca em boca, de geração em geração.
Belchior não morreu, virou memória! Virou poesia! Virou cordel! E enquanto houver um poeta disposto a rimar sua história, o rapaz de Sobral continuará, de algum modo, cantando entre nós.
Esmeralda Costa*
Coluna Cordel Brasileiro
*Esmeralda Costa é uma conhecida professora, escritora e poetisa cordelista do estado do Ceará (CE). Natural ou residente na cidade de Campos Sales, no interior cearense, ela possui um papel ativo na preservação e difusão da literatura de cordel no Nordeste brasileiro.
SOBRE A OBRA BELCHIOR NA LITERATURA DE CORDEL
O livro
Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel (RDS, 304 páginas) é resultado de uma pesquisa sobre 28 biografias de Belchior – nove publicadas em livros e 19 em folhetos de cordel. De acordo com Perdigão, as duas formas de narrativa apresentam três níveis de diferença: aproximação, em relação à vida, afastamento, sobre a obra, e ruptura, quando tratam da morte. “Diferentemente dos livros, os folhetos eternizam Belchior, mandando-o para o Céu”, adianta o autor.
O autor
Alberto Perdigão é jornalista, professor e autor independente com sete obras publicadas. Mestre em Políticas Públicas e Sociedade, desenvolve pesquisas sobre o folheto informativo da literatura de cordel e sobre as representações do cantor e compositor Belchior na literatura. Integra a Rede Folkcom de pesquisadores brasileiros da folkcomunicação e o Grupo de Estudo Cordelista Arievaldo Viana da Universidade Federal do Ceará. Perdigão é cearense e mora em Fortaleza.
COMO ADQUIRIR
Contatos:
(85) 99989-8639 ou @falaperdigao.
CORDEL BRASILEIRO ACLC: CINCO ANOS DE HISTÓRIA, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA DO CORDEL CEARENSE
CORDEL BRASILEIRO ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
CORDEL BRASILEIRO BÁRBARA DE ALENCAR: UMA HISTÓRIA QUE CAMINHA ENTRE VERSOS E MEMÓRIAS
Cordel Brasileiro Literatura de Cordel: A Tradição Que Aprendeu a Dialogar Com o Futuro
Conciência Negra A NEGRITUDE NA LITERATURA DE CORDEL
Esmeralda Costa “Ressuscitou Jesus”, de Esmeralda Costa
Mín. 14° Máx. 24°
Mín. 14° Máx. 21°
ChuvaMín. 13° Máx. 18°
Chuvas esparsas
Convidados & Parceiros A Permanente Luta das Mulheres pela Quebra de Tabus na Política Brasileira
Esmeralda Costa Belchior, 80 anos: quando a música vira verso e o verso vira memória.
Antonio Guimarães de Oliveira Dia Mundial do Escritor. Por ANTONIO GUIMARÃES DE OLIVEIRA
Desembargador Lourival Serejo ATÉ ONDE CHEGA A DESTRUIÇÃO DAS GUERRAS