
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
A provocação feita pelo poeta João Batista do Lago na TVFacetubes, recentemente, não deve ser vista como um ataque aos clássicos, nem como uma tentativa de empurrar a tradição para fora da sala. O que está em jogo é outra coisa: "a dificuldade de parte do ambiente literário maranhense em reconhecer que a literatura não se organiza apenas pelo passado. Ela também se move no presente, nos autores que ainda estão escrevendo, errando, publicando, enfrentando silêncio, ironia, desconfiança e, muitas vezes, a indiferença das instituições que deveriam ampliar o campo de leitura", como disse Lago.
A pergunta então sai da sala de entrevista e vai para as lides literárias do Maranhão: há ou não excesso de conservadorismo na literatura do Maranhão? Essa resposta "não pode ser simplista", aleta João Batista do Lago.
Na verdade, com a discussão na mesa, logo se descobre que há conservadorismo quando a tradição vira mural e deixa de ser passagem. Há conservadorismo quando os mesmos nomes são repetidos por segurança, enquanto autores contemporâneos permanecem fora das bibliografias, dos debates, das mesas, das antologias, das resenhas e das programações culturais.
"Não se trata de retirar Machado de Assis, Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Sousândrade, Nascimento Moraes ou Maria Firmina dos Reis do lugar que ocupam. Trata-se de impedir que o culto aos consagrados seja usado como barreira contra quem ainda não recebeu a bênção do tempo", complementa o poeta Lago.
Assim, João Batista do Lago toca num ponto sensível: no Maranhão, como em outras partes intelectuais do Brasil, a crítica ainda prefere trabalhar com autores já pacificados. Nesse ponto, na opinião de JB do Lago, José Chagas aparece como exemplo incômodo. Paraibano de nascimento, maranhense por destino literário, Chagas fez de São Luís uma matéria poética de memória, ruína, telhado, mangue e palafita.
Isso fica claro em "Maré/memória", publicado em 1973. Chagas mostra que não escreveu apenas sobre paisagem. Escreveu sobre gente. O mangue, a palafita, a lama e a maré deixaram de ser cenário para se tornar denúncia. A obra atravessou a literatura e chegou ao teatro, na experiência do Laborarte, em 1974, no Teatro Arthur Azevedo. Esse trânsito da palavra para a cena mostra que o poema não nasceu para ficar preso à biblioteca. Ele exigia corpo, voz, chão, imagem, suor. Era literatura em estado de conflito com a cidade que a produzia.
A singularidade de Chagas coube - em outra ocasião - em versos que parecem responder ao debate de hoje:
"Minha roça no ar produz estrelas, / mas eu não tenho mãos para colhê-las, / nesta safra de azul que é nova e antiga. / Sou lavrador do quanto não se lavra / e preciso que eu ceife na palavra / o maduro do azul e a sua espiga."
Esses versos retirados de "Lavoura Azul", servem como chave para entender o impasse da literatura maranhense. O poeta trabalhou justamente onde a colheita ainda não foi autorizada. Lavra o invisível. Insiste onde o reconhecimento não chegou. Faz da palavra uma roça suspensa, muitas vezes sem chão institucional, mas com força suficiente para atravessar décadas. "Muito podem não concordar, mas esse é meu pensamento", diz Lago.
Já Nascimento Morais Filho também entra nesse debate por outra via. Sua importância não está apenas na poesia, mas na capacidade de recuperar aquilo que o cânone havia deixado nas margens. Ao contribuir para a reedição das obras de Maria Firmina dos Reis, ajudou a recolocar no centro uma autora que o próprio Brasil literário demorou a reconhecer.
Esse gesto é pedagógico, pois é uma tradição que se pretende séria, e assim, não pode ser apenas repetidora de nomes. Mas é de grande importancia pois conserta omissões. "Desta forma, dá para entender que o conservadorismo literário, quando existe, não se declara conservador", repete JB do Lago. "Ele se apresenta como cautela, bom gosto, critério e prudência acadêmica. Muitas vezes, porém, é apenas medo do presente", induz Lago.
E diz mais: "Medo de admitir que há autores fora dos salões escrevendo com força. Medo de reconhecer que a literatura não espera autorização de conselhos, cadeiras, prêmios ou departamentos. A obra nasce antes da consagração. O erro das instituições é só enxergá-la depois que ela já foi domesticada", complementa Batista do Lago.
Essa crítica vale, sobretudo, como um chamado de responsabilidade. O Maranhão não precisa escolher entre tradição e renovação. Precisa fazer as duas coisas com seriedade e serenidade acima de tudo. "Preservar os grandes nomes é dever. Ler os vivos é obrigação. Sem isso, a literatura vira inventário, não movimento", afirma o poeta Lago. Aliás, "uma cultura que só celebra o passado corre o risco de transformar seus novos escritores em zumbis, antes mesmo de lhes conceder presença", complementa João Batista do Lago.
Entrevistando, assim, o renomado e aplaudido poeta João Batista do Lago, a TVFacetubes deixa o debate em aberto para que a pergunta mais dura possa ser feita: quantos autores ainda precisarão esperar a morte, o esquecimento ou a estátua para serem finalmente lidos?
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