
Nota do editor: Muito me orgulha estreia hoje essa página exclusiva sobre o Forró Brasileiro, gênero dos mais cultuados em vários rincões deste Brasil. Para ser titular desta coluna ninguém mais especialista do que IVA LIMA, que integra uma família de grandes músicos e compositores do Forró e da música do Maranhão e do Brasil.
Neste primeira entrevista, essa artista maranhense valoriza a ligação entre poesia, composição, forró de raiz e memória cultural. Ao falar da influência de João do Vale, seu entrevistado, o poeta Paul Getty, apresenta a arte como herança vivida, não apenas admirada: algo que nasce da convivência, da terra, da família, da comida, do afeto e do cotidiano. Sua fala revela um criador ligado à matriz popular maranhense, capaz de transformar lembranças simples, como o gesto da mãe passando a mão em seus cabelos, em versos e música.
IVA LIMA conduz, desta forma, a conversa com força objetiva, presença e domínio. Sem alongar o diálogo, ela faz perguntas diretas, abre espaço para o entrevistado revelar sua origem artística e mantém o foco na essência da entrevista: mostrar a grandeza cultural de Pedreiras (MA), terra marcada por João do Vale e por criadores que seguem sustentando poesia e canção como expressão de vida. Sua condução tem firmeza, sensibilidade e clareza, permitindo que Paul Getty apareça por inteiro: poeta, compositor, homem de raiz, herdeiro de uma tradição familiar e representante legítimo da arte maranhense.
A ENTREVISTA
IVA LIMA: Boa tarde, estou aqui com os grandes poetas, compositores de Pedreiras, Paul Getty. Pedreiras é a cidade do nosso querido mestre João do Vale. Por isso, vamos saber de Getty qual a relação da nossa linda e rica cultura — tanto do forró de raiz quanto das composições, que são grandes composições — com a poesia. E mais: Paul Getty, no teu ponto de vista, o que você acha dessa grande composição entre forró de raiz, composições e a poesia?
PAUL GETTY: Iva, boa tarde, legal, obrigado aqui pelo convite. Mas essa ligação, a gente tem raiz lá em Pedreiras, porque eu não bebi na fonte de João do Vale. Eu tomei café, almocei e jantei, foi muito mais do que só bebi. Então a gente cresceu ouvindo isso, aquela coisa raiz, própria de João do Vale, própria do Maranhão, do compositor que ele foi, e isso nos enriquece e nos enriqueceu. A nossa poesia vem nesse linear aí de João, e a gente faz só dando um segmento nela, falando das coisas da vida, do amor, da paixão, do caboclo-raiz lá de Pedreiras, de mocotó, sarapatel, tripa de porco, buchada de bode. E isso é o que cria uma raiz, uma verdadeira raiz.
IVA LIMA: Fale do episódio com sua mãe.
PAUL GETTY: Muito interessante: certo dia, perto do meu aniversário, a minha mãe passou a mão no meu cabelo e disse: “poxa, meu filho, seu cabelo está tão grande”. E quando ela fez isso, eu disse pra ela: “seu coração de borboleta pousou no meio dessa solidão, afagou meu cabelo acanhado com as asas coloridas da paixão”. Então é assim que surgem as coisas, sabe? No repente, no amor de uma mãe. Fiz essa música pra minha mãe, Coração de Borboleta. Quem pensa que fiz pra um amante? Não! Eu sou um homem muito apaixonado pela minha mulher. As coisas acontecem dessa maneira.
IVA LIMA: Então você encontrou sua paixão?
PAUL GETTY: Sim! Quando você encontra a sua paixão, o seu amor, você diz pra ela: “como é doce repartir-se a alma fatigada em ter contado outros livros e ao convívio de uma mulher bonita, inteligente, feito você, meu amor”. Essas coisas surgem do nada, da vida, do cotidiano. Agora mesmo eu posso fazer uma rima, um verso. Não que nós tenhamos alguma coisa, mas é pelo carinho de você estar me entrevistando aqui com meu confrade da Academia Pedreirense de Letras, o Edvaldo. Então, posso afirmar que a poesia é isso: é o momento, é o sentimento, é a razão. Tudo acontece naturalmente, ninguém força nada. É assim que nascem as coisas.
IVA LIMA: E eu já iria perguntar pra você de onde vêm essas inspirações. Você acabou de falar: sua mãe, seu grande amor, que é sua esposa. Gostaria que você falasse um pouco mais: a partir de quando começou?
PAUL GETTY: Na verdade, eu falei uma vez pro meu confrade Edvaldo que o maior poeta da minha família foi meu avô. Eu vi poesias lindas, lindas, lindas dele, em sétima, em decassílabo, e eu não sabia o que era aquilo. Hoje eu aprendi, porque sou um poeta nato — aprendi com o tempo; o inato já nasce consigo. Meu avô foi um grande poeta, e a inspiração veio daí. Fui escrevendo, fui vendo e convivendo com pessoas que sabem mais do que eu, pra poder colocar isso no dia a dia, expressar esse sentimento bonito que é a poesia.
IVA LIMA: Gente, olha só que espetáculo. Cabra quente, valente, grande compositor, grande poeta de Pedreiras, Maranhão. E a gente agradece, viu, Paul Getty. Muito obrigada por essa disponibilidade. A gente está aproveitando aqui o aniversário de Gabriel, para entrevistar esse grande mestre, porque Getty é mestre. Isso é uma honra pra mim.
PAUL GETTY: Valeu, Iva. Obrigado aí. Um abraço para o Mhario Lincoln que oportunizou em sua Plataforma Nacional do Facetubes, que você IVA passe a mostrar muitas coisas diferentes e interessantes que existem em nosso torrão. Estamos juntos!
IVA LIMA: Obrigada, obrigada. Então a gente fica aqui com essa linda e grande entrevista. Um abraço.
QUEM É PAUL GETTY?
Paul Getty, poeta e compositor nascido em Pedreiras, no Maranhão, carrega em sua trajetória a força de quem fez da palavra um destino. São 25 anos dedicados à arte — um caminho tecido com sensibilidade, persistência e um amor profundo pela música e pela escrita.
Em sua vasta produção, somam-se mais de 190 músicas gravadas, cerca de 600 poemas e 250 crônicas, além de inúmeras charges que revelam seu olhar crítico e criativo sobre o mundo. Sua obra transita entre o lirismo e a realidade, entre o sonho e a vivência, sempre marcada por uma identidade própria.
Suas composições ganharam voz através de grandes nomes da MPM — Música Popular Maranhense — e também da MPB, sendo interpretadas por artistas como Tom Cleber, Trimanos Brasil e Lucinha Bastos, levando sua essência a diferentes públicos e cenários.
Paul Getty é, acima de tudo, um artesão das emoções: alguém que transforma sentimentos em versos, melodias em memória e vivências em arte que ecoa no tempo.
Com canal no YouTube desde 2009.
VÍDEO-BÔNUS
"SOTAQUES DA SAUDADE". Compositores: Paul Getty, Tutuca e Nosly. Intérprete: Kosta Netto
Em tempo: a próxima entrevista já tem nome, hora e vez: Edivaldo Santos. Quando der, as entrevistas serão semanais.
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