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Alguém teria coragem de negar a gramática como conhecimento, mas atacar a ilusão de que ela, sozinha, forme escritores?

Ou... quando dois professores, Dino Cavalcante e José Neres se dedicam a recuperar, ler, organizar, atualizar e devolver ao público obras e vozes fundamentais da literatura do Maranhão fora dos contextos acadêmicos....

16/06/2026 às 13h16 Atualizada em 16/06/2026 às 14h59
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
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Arte: MHL/GINAIFT: Dino, Lobo e Neres.
Arte: MHL/GINAIFT: Dino, Lobo e Neres.

Mhario Lincoln c/ editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Achei por demais interessante a "provocação" que o professor Dino Cavalcante, do Departamento de Letras (UFMA), fez ao distribuir um polêmico PDF de Antonio Lobo, entre alguns amigos. 

Com formação em Letras pela UFMA, mestrado e doutorado pela UNESP, e atuação em Literatura Brasileira, Literatura Maranhense, História da Literatura e Literatura e Sociedade, ele indicou para leitura e discussão, um texto polêmico escrito, na época, por Antonio Lobo e que repercutiu fortemente nas lides literárias não só daquele momento em que o texto foi publicado, mas ao longo do tempo, quando esse emerge no topo das águas da discussão gramatical. Mas, falemos, antes, de Antonio Lobo já que este texto será lido não só no Brasil, mas em outros países (traduzidos em inglês, francês e espanhol, simultaneamente através do sistema (Check out/GinaiFT).

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Bom, Antônio Francisco Leal Lobo nasceu em São Luís, em 1870, e morreu na mesma cidade, em 1916. Foi jornalista, professor, romancista, tradutor, publicista, polemista e um dos nomes que ajudaram a formar o ambiente intelectual da chamada “Casa de Antônio Lobo”, a Academia Maranhense de Letras. Publicou, entre outros títulos, A carteira de um neurastênico, Positivismo e micróbios, A doutrina transformista e a variação microbiana, Os novos atenienses, Pela rama e A política maranhense, obra póstuma. Em sua atuação pública, dirigiu a Biblioteca Pública, o antigo Liceu Maranhense e a Instrução Pública, além de ter militado na imprensa de São Luís com a energia de quem via a cultura como campo de combate.

Há, todavia, neste retorno a Antônio Lobo, uma responsabilidade que ultrapassa o gosto bibliográfico. Quando dois professores maranhenses como Dino Cavalcante e José Neres se dedicam a recuperar, ler, organizar, atualizar e devolver ao público obras e vozes fundamentais da literatura do Maranhão, não realizam apenas um serviço acadêmico. Eles assumem uma tarefa civilizatória: recolocar o Maranhão no centro da conversa sobre a língua, a leitura, a formação intelectual e o modo brasileiro de pensar pela palavra. A eles se pode atribuir essa persistência de quem sabe que a língua não fica parada no dicionário, nem a gramática se encerra na página fria do compêndio. A língua vive no atrito entre norma, uso, memória, invenção e necessidade expressiva.

Por isso o texto “A gramática e a estilística”, recolhido em "Pela rama", é uma peça de inteligência crítica e de ironia. Antônio Lobo parte de um artigo de Raoul de La Grasserie, publicado na Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, para discutir a distância entre gramática e estilo. O que o interessa não é negar a gramática como conhecimento, mas atacar a ilusão de que ela, sozinha, forme escritores. Lobo mira o professorismo estreito, a crença de que escrever bem seria apenas dominar classificações, caçar sujeitos, prender advérbios, reduzir Camões a mecanismo sintático e transformar a língua em exercício de obediência.

Aí está a grandeza de um bom estudioso: fazer uma separação necessária entre textualização e gramática. A textualização é o movimento pelo qual a linguagem ganha corpo, intenção, ritmo, destinatário, cenário e sentido. No meu caso, gosto muito de manter nessa linha da textualização. Mas confesso que me autossaboto vez por outra por pura ignorância gramatical minha. Porém, insisto em dizer que é o texto livre, com disciplina, meu gesto de comunicação e criação.

Isso porque, a gramática é o sistema, a ordem, a ferramenta de reconhecimento e controle da língua. Porém, nunca uma vai eliminar a outra. Na verdade, o que tenho visto ao longo de meu período neste Facetubes é que muitos textos a mim enviados começam com um erro crasso: impõe-se o rigor da gramática ao texto. E sabe o que acontece aos meus olhos bestuntos? A morte da beleza, da vida e da significância do próprio texto; mas, é necessário saber desconectar e conectar as ideias porque, ao contrário, também, quando o texto, em nome de um dogma libertário, 'revolucionário', regurgita indisciplina, surge um resultado de desprezo total da precisão, esta, que sustenta a escrita pública, literária, acadêmica e jornalística.

Contudo, há se se notar, que Antônio Lobo, de certa forma, exagera de propósito e ironia, quando afirma que "a gramática nunca aparelhou ninguém para escrever bem, assim como a retórica nunca ensinou alguém a fazer bons discursos". Claro que ele não está oferecendo uma receita pedagógica. Está ferindo uma vaidade antiga. E todos aqueles que acompanham a literatura maranhense sabem que - nesse item - seu alvo é o escritor que conhece a regra, mas não conhece o pensamento; que sabe a nomenclatura, mas não alcança a frase; que decora o esqueleto da língua, mas não percebe sua respiração.

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Exatamente aí, a força de sua imagem final, quando compara a gramática, junto dos ignorantes, à simpatia junto dos feios. A comparação é dura, datada em seu humor, mas preserva uma advertência: a regra pode servir de enfeite quando falta substância. Então, fiz questão de agregar a este texto uma opinião valorosa da professora Maria Regina Coelho Moraes que, em rápidas palavras (comentou o PDF), recoloca a discussão no lugar exato. Aliás, gostaria muito de conhecer os trabalhos de Maria Regina, espalhando aos ventos: seja bem-vinda!

Bom, o que me chamou a atenção em seu comentário foi a forma dela reconhecer a necessidade do estudo gramatical, mas lembrou que "a gramática sem contexto vira manual de decorar, sem uso real". (Simplesmente fantástica a colocação).  Ao mesmo tempo, Regina ainda afirma que, "quando escrevemos, torna-se indispensável um conhecimento normativo", fechando sua participação sine qua non. Assim, acho eu que essa interpretação de Regina me trouxe uma ideia de mais equilíbrio do que a provocação de Lobo (cheia de ironia, claro).

Mas há algo sério em tudo isso: essas ponderações de Maria Regina talvez sejam a ponte mais útil para o presente. A língua é viva, mas a escrita exige responsabilidade. A comunicação se move, mas o texto público precisa de domínio. A norma não deve sufocar o estilo; deve impedir que a liberdade se converta em descuido.

Destarte, louve-se a disponibilidade dos professores Dino e Neres em requerer de todos nós que nos autoimaginamos "escritores", refletir sobre o aqui exposto.

Ah, sim! Ia esquecendo. Escreve-se autoimaginamos (mesmo). Porque essa palavra é para se escrever junto e sem o uso do hífen. Ela é a conjugação do verbo autoimaginar (imaginar a si mesmo) na primeira pessoa do plural (nós) do tempo presente ou do pretérito perfeito do indicativo. É fruto do novo 'Acordo Ortográfico', que ensina que o prefixo "auto-" só deve ser separado por hífen em dois casos:

1 - Quando a segunda palavra começa com a letra "h" (ex: auto-hipnose).

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2 - Quando a segunda palavra começa com a vogal "o" (ex: auto-observação).

Olha a regrinha aí, gente!

 

Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira e editor-s^`enior da Plataforma Nacional do Facetubes./Curitiba-Paraná/2026.

 

*********************

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes. Dados conferidos: a Academia Maranhense de Letras registra Antônio Francisco Leal Lobo como nascido em São Luís em 4 de julho de 1870 e falecido em 24 de junho de 1916; informa também sua atuação como jornalista, professor, tradutor, publicista, diretor da Biblioteca Pública, do Liceu Maranhense e da Instrução Pública. A bibliografia de Lobo inclui A carteira de um neurastênico, Os novos atenienses, Pela rama e A política maranhense.

1 - A UFMA registra José Dino Costa Cavalcante como professor associado do Departamento de Letras, com formação em Letras pela UFMA, mestrado e doutorado pela UNESP, e atuação em Literatura Brasileira, Literatura Maranhense, História da Literatura e Literatura e Sociedade. A Academia Maranhense de Letras informa que José Neres desenvolve pesquisas ligadas à literatura, especialmente a maranhense, à educação e aos estudos linguísticos. A publicação A Literatura Maranhense, pela EDUFMA, traz José Neres e Dino Cavalcante como organizadores e responsáveis pela digitação, diagramação e atualização textual.

Conclusão acadêmica: O PDF anexado corresponde ao recorte de Pela rama, de Antônio Lobo, com a crônica “A gramática e a estilística”, em que o autor contrapõe gramática, estilística e criação textual a partir de referência a Raoul de La Grasserie.

 

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