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​O ESPELHO DO INFINITO ​(O Enigma da Perfeição)

José Carlos Castro Sanches. Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.

14/06/2026 às 09h09
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Carlos Castro Sanches (Autor)
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Original do texto.
Original do texto.

​Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com


                                                     ​Em um diálogo descontraído com um amigo sobre os bastidores da produção literária — enquanto eu buscava informações sobre a diagramação e a impressão da mais recente antologia publicada pela academia, com o intuito de usá-las como referência para a biografia que escrevo —, a conversa fluiu naturalmente para um território mais filosófico: a busca incessante pela perfeição naquilo que criamos. Foi nesse momento de troca que a clareza me atingiu como uma revelação: a perfeição é, talvez, a mais sedutora das utopias. Instigado por esse pensamento, permiti que minha imaginação fosse além, buscando compreender o significado da excelência sob a perspectiva inusitada e primitiva de um primata. Convido você a mergulhar nesta crônica, na qual descrevo essa experiência reflexiva sobre a nossa natureza e o nosso fazer. Eis a lição que o exercício da escrita — e a própria vida — me deixou.


                                                      ​                                     "Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito." (Fernando Pessoa).

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                                                      ​                                            Senta aqui, bípede apressado. Desce desse pedestal de preocupações e observa comigo o movimento das copas das árvores. Você me traz essa ansiedade, esse suor frio de quem busca uma linha de chegada que não existe. Você quer saber o que é a perfeição? Deixa um velho primata, que observa sua espécie desde que vocês desceram das árvores, te contar um segredo: vocês estão olhando para o lado errado.


​A perfeição, meu caro, não é um destino; é o próprio trajeto, com todos os seus tropeços.
                                                      ​                                                  "A perfeição é uma estrada, não uma pousada." (Hermann Melville)


                                                      ​                                                Na sua busca, você olha para o alto e vê o divino. As religiões desenham a perfeição como a ausência de pecado, o retorno ao estado de pureza original, a paz absoluta de Buda ou o cumprimento das leis de Moisés. Para o crente, é o reflexo da luz do Criador; para o espiritualista, é a harmonia com o Todo. Mas veja: para mim, que vivo entre o instinto e a sobrevivência, a perfeição é apenas a plenitude de ser o que se é.
​Já a ciência, essa ferramenta maravilhosa, mede a perfeição na precisão dos cálculos e na ordem das leis da física. Contudo, a antropologia e a mitologia sempre criaram deuses falíveis, heróis que sangram, mitos que erram. Porque sabemos, lá no fundo, que a essência humana é a falibilidade. Sem o erro, não haveria a correção, não haveria o aprendizado, não haveria a evolução — a única forma de perfeição que a natureza realmente conhece.
                                                      ​                                              

  "O erro é o passo inicial para o aprendizado, e a falha é o mestre que nos ensina a ser humanos." (Carl Jung)


                                                      ​                                              Veja como o mundo interpreta esse conceito: para o rico, a perfeição é o controle e a posse; para o pobre, é a dignidade da mesa farta. Para o químico, é a pureza do elemento; para o historiador, é a compreensão das causas; para o filósofo, é a busca incessante pela verdade. Para o poeta e o escritor, a perfeição é a palavra que captura o inexprimível — aquele instante em que o verso corta o silêncio. Para o mendigo, talvez seja apenas o calor do sol sem o medo de amanhã.
​E você me pergunta: e a criança? Ah, a criança é o seu protótipo. Ela não busca a perfeição; ela a habita. Ela brinca com a lama e a lama é perfeita. Ela chora e o choro é perfeito. Ela não se julga, ela apenas é.


                                                      ​                                                  "A perfeição é o inimigo do bom." (Voltaire)

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                                                      ​                                              Você quer aplicar a perfeição na sua vida? Então pare de tentar ser uma estátua de mármore. A essência da perfeição humana é a autenticidade. É aceitar que o seu sistema químico, essa sopa de elementos que compõe o seu corpo, precisa de erros para encontrar novas reações. A perfeição, meu amigo, é o equilíbrio dinâmico entre o que você almeja e a sua humanidade latente. É o erro que permite que você seja flexível. Se você fosse perfeito, seria imutável — e tudo o que é imutável, na natureza, acaba morrendo.


                                                      ​                                              "Não busque a perfeição, busque a evolução. A natureza não é perfeita, ela é viva." (Charles Darwin)
                                                      ​                                          

 Então, levante-se. Deixe de lado essa ansiedade de ter todas as respostas. A perfeição que você procura é a coragem de ser um trabalho em progresso. A sua beleza não está em ser impecável, mas em ser exatamente essa mistura caótica, vibrante e imperfeita que insiste em sonhar, mesmo sabendo que o dia acaba. Vá viver. A perfeição é um detalhe que você só percebe quando para de olhar para o espelho e começa a olhar para o horizonte.
​O enigma da perfeição reside no paradoxo de que persegui-la é uma busca essencial para o crescimento, mas alcançá-la anula a própria essência humana.


                                                      ​                                                  "A perfeição não é, às vezes, senão uma doença, outras, é um choque interior que a faz brotar." (Joaquim Nabuco)
                                                      ​                                             

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