
Orquídea Santos, editora da Plataforma Nacional do Facetubes
Abaixo o discurso de Mhario Lincoln, que, ao final, foi aplaudido de pé:
Flor de Lys Félix, a cadeira da memória viva
Mhario Lincoln*
Autoridades, acadêmicos, familiares, amigos da cultura maranhense, senhoras e senhores e todos aqueles que entendem que a memória é uma das formas mais dignas de justiça.
Neste ato aniversário solene, a Academia Maranhense de Ciência, Letras e Artes Militares inscreve em sua história um nome que não pertence apenas a uma família, nem apenas ao jornalismo, nem apenas ao colunismo social.
Pertence a São Luís. Pertence ao Maranhão. Pertence àquelas mulheres que atravessaram um tempo difícil sem pedir licença à timidez da época, sem se curvar ao preconceito, à soberba e, especialmente, sem aceitar que o destino feminino fosse escrito por mãos alheias.
Hoje, ao apor, na qualidade de patrona, o nome de Flor de Lys Felix em uma de suas cadeiras, a AMCLAM não faz apenas uma homenagem. Ela permite que o nome de Flor de Lys, minha mãe, seja transformado em lembrança imortal, fato indelével que transforma a nossa saudade e a saudade da cidade, em patrimônio imaterial.
Além disso, concede-me uma chance imensa de pertencer a seus quadros, na qualidade de membro-correspondente, fato que agradeço do fundo de minh’alma. Mas agradeço ainda mais essa atenção carinhosa para com Flor de Lys, aquela que em vida foi jornalista, colunista social, apresentadora, promotora de eventos, mulher de palco (sem querer palco), de jornal, de televisão e de rua.
Durante 55 anos eu acompanhei de perto sua atuação no Jornal Pequeno, em O Imparcial e na TV Difusora, veículos que ajudaram suas ações a se tornarem inesquecíveis. Tanto que foi uma das cronistas sociais de maior permanência jornalística (TV, rádio e Televisão), no Brasil.
Sua presença pública unia notícia, elegância simples, sensibilidade popular e compromisso com a cidade.
Esses aplausos públicos, entretanto, mostram e comprovam que minha mãe, nunca fez do colunismo apenas vitrine de autoelogios. Pelo contrário. O colunismo exercido por Flor de Lys deu forma à convivência humana, foi uma ponte entre pessoas, acontecimentos, festas, concursos, causas sociais e memórias urbanas e, principalmente, a filantropia, seu bem maior.
Flor de Lys compreendeu, antes de muitos, que a crônica social podia registrar mais do que salões. Podia registrar a alma de uma época. Por suas colunas passaram debutantes, noivas, artistas, misses, artesãos, famílias, anônimos e personagens que talvez nunca tivessem sido alcançados pelo jornalismo formal.
Porque ela não escrevia para ricos. Mas para todas as pessoas que tivessem aptidão para compor suas notícias e fatos. Ela escrevia com a simplicidade que lhe foi peculiar desde seu nascimento, em Rosário, neste Estado.
Isso a fez inteligente, perspicaz, independente e culta. Porque as pessoas realmente inteligentes e cultas não precisam falar publicamente que são inteligentes. São as ações, a maneira como se comportam, como se dirigirem às pessoas, como respeitam o outro, (mesmo que essas pessoas sejam desrespeitosas), é que qualificam e tipificam o grau de inteligência e cultura de um ser humano.
Cumprida essas regras básicas, Flor de Lys lutou, venceu e conseguiu ser pioneira em programa social na TV maranhense, cujo legado foi seguido à risca por minha irmã, a jornalista Orquídea Santos que durante anos, substituiu nossa mãe na TV Difusora.
Mas nenhuma biografia de Flor de Lys se sustentaria apenas por cargos, colunas ou programas; muito menos, por alguma demonstração de soberba. Sua força maior estava no temperamento humilde. Muito humilde. Mesmo sendo uma mulher de ruptura. Mulher que tomou atitudes muito polêmicas na época. Mas, além de tudo, pacificadoras, sempre defendendo uma grande causa coletiva, como ações pacificadoras maiores foram tomadas pelo honroso Brigadeiro Feliciano Antônio Falcão, sem nenhuma dúvida, o herói da pacificação da Balaiada. Não há parâmetros, aqui nesta citação, de comparação. Porém e somente - de ideias e objetivos.
Digo isso, porque era uma atitude inconcebível uma mulher dirigir automóvel em São Luís, naquela época. Mas Flor de Lys rompeu os laços proibitivos seguindo a mesma linha de Dona Eney Santana, essa, a primeira a pegar no volante de um carro e dirigir sozinha pelas cidade. A inclusão de Flor acabou pacificando as regras impostas pelos homens do poder na época e, a partir daí, a tropa feminina teve total liberdade de assumir a direção de seus carros.
Exatamente essa força e essa coragem que Flor de Lys repassou para seus filhos: Dalva Lima, Cristina Martins, Orquídea Santos e eu.
Essa foi a herança que recebemos. Uma herança que não cabe em inventário porque sua imagem para todos nós sempre foi a de fibra, da linguagem aberta, da coragem e do sentido profundo de não desistir, especialmente quando a humildade fosse a Medalha maior, na condecoração da vida.
Essa foi a razão exata de Flor de Lys ter recebido muitas homenagens na vida. Dentre algumas, dos Poderes Judiciário, Legislativo (Estadual e Municipal) e do Executivo. Contudo, esta homenagem da AMCLAM é diferente porque escreve com letras de ouro o nome de Flor de Lys em um de seus importantes assentos, como Patrona da Cadeira 47, fato que a imortalizará para sempre.
Assim, ao consignar seu nome, a AMCLAM dá forma institucional ao que São Luís já guardava no afeto. É, na verdade, não só uma cadeira acadêmica; não só, apenas um assento. É um símbolo. É um lugar de continuidade de reconhecimento. É convite para que alguém, ao ocupá-la em um futuro bem próximo, carregue a responsabilidade moral de lembrar quem abriu caminho para nossas grandes mulheres maranhenses que escrevem, apresentam, dirigem, decidem, sustentam famílias e trabalham até o limite do corpo e ainda encontram força para sorrir e se emocionar ao escrever um verso, expor uma ideia, construir um texto ou traduzir a alma em um quadro artístico. Essas, como Flor, pertencem a uma linhagem de mulheres que não esperaram o tempo melhorar. Elas mesmas melhoraram o tempo.
Por isso, ao comemorar o oitavo aniversário em glória, a AMCLAM não fala apenas de seus feitos. Fala de exemplo integrado à cidade e aos cidadãos do mesmo chão onde se enraizou este Sodalício. Vira coletivo, para falar de uma mulher que compreendeu a comunicação como serviço, a visibilidade como instrumento de pacificação e a presença pública como missão. E assim oportunizá-la, imortalizá-la através deste gesto humano, antes de, somente, solene.
A AMCLAM nos faz lembrar que há nomes que não é preciso gritar para aparecerem, que não é preciso de autoelogios para serem respeitados. Bastam que existam. E é a AMCLAM um exemplo vivo disso: era um fio de água nascida em fonte cristalina que, driblando cascalhos ao longo do caminho, chega ao caudaloso rio, trazendo o que há de melhor na maranhensidade, transformada em Ciência, Letras e Artes.
Muito obrigado.
Mhario Lincoln, Presidente da Academia Poética Brasileira.
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