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“O TEJO BAR E EU, UMA RELAÇÃO DE ALÉM-MAR”, por Gracilene Pinto

Convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

06/02/2026 às 07h48 Atualizada em 06/02/2026 às 07h57
Por: Mhario Lincoln Fonte: Gracilene Pinto (autora)
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Gracilene Pinto.
Gracilene Pinto.

Gracilene Pinto (Grace do Maranhão)
 
Para falar da minha relação com o Tejo Bar preciso explicar primeiro como cheguei até lá, considerando que entre nós se interpõe todo o Oceano Atlântico.
Foi este o caso que, estando eu cadastrada em um desses sites de relações profissionais um dia recebi uma mensagem no mínimo singular de um português que usava o pseudônimo Joa de Arievilo, o qual pedia minha amizade com estas cativantes palavras: “- QUE COISINHA MAIS LINDA! TU QUERES SER MINHA AMIGA?”.
Achei muito engraçado. Além de envaidecedor, é claro. Afinal, o portuga deu uma tremenda soprada na bola do meu ego. Por isso, respondi no mesmo tom: “PEDINDO DESSE JEITO, COMO POSSO EU NEGAR? QUERO SIM.”
A partir dessa data, ficamos amigos e terminamos por descobrir outras afinidades além da origem lusitana, tais como a literatura, a poesia, a música... e até o sobrenome, já que minha bisavó Lavínia era uma Sousa, patronímico também da família dele.
O contato se tornou diário e, no período das festas juninas, decidimos “passar fogueira” virtual de compadrio. A partir daí era compadre pra lá, comadre pra cá, e “tale e coisa”!


Mais tarde, quando namorei um algarvio que morava nos Açores, Joa com sua fenomenal criatividade batizou o cidadão de “algarçoreano”. E, quando soube que o namoro havia se transformado em noivado, propôs assumirmos de uma vez por todas o laço familiar que nos unia em razão do sobrenome Sousa. Então, viramos primos. Joa parecia temer que o noivo implicasse com nossa amizade, pois falou: “Primo é parente, marido nenhum nos poderá afastar”.
E tinha muita razão, porque o noivado que chegou ao casamento, pouco tempo depois findou em divórcio. Porém, a amizade do primo Joa permaneceu.
E o Tejo Bar, onde entra nessa história?
Calma! Tenhamos muita calma nesta hora, para que possamos entender o desenrolar dos fatos. Bem, um dia o primo Joa falou-me que conhecia um brasuguês (aglutinação de brasileiro com português) apelidado de Mané do Café, que morava em Lisboa há mais de vinte anos e que tinha muito a ver comigo, pois era escritor, poeta, compositor, dramaturgo, pintor, etc. e tal. Polivalente, o cara. Jogava nas onze posições.
Logo o primo Joa tratou de apresentar-me ao Mané do Café, que de verdade se chama Jorge Carlos, e daí, nascia mais uma amizade virtual que viria a se tornar muito real. Então, o Mané do Café me enviou livros de sua autoria e gravuras a café, e fotos, e vídeos do seu Tejo Bar, que era um ponto de reunião de boêmios e artistas de todos os naipes, inclusive músicos. Local muito fixe situado no bairro da Alfama, um dos mais antigos e típicos de Lisboa.


Trocamos textos em prosa e verso. Jorge Carlos, mesmo à distância me ensinou a pintar com café. E todo ano a Folhinha Poética editada por ele e por sua esposa Eliana Castela traz um poeminha da minha autoria. A amiga Eliana até dedicou a mim um capítulo inteiro do seu livro PELOS RIOS AO SABOR DA FRUTA, impresso na Editora Chiado. Eu, por minha vez, lancei um livro intitulado SERÕES NA BAIXADA DO MARANHÃO cuja capa traz uma gravura à café com assinatura do amigo Mané.
O fato é que, Jorge Carlos retornou ao Brasil e a amizade continuou. Porém, um episódio envolvendo minha pessoa e o TEJO BAR, ainda em seu período “manuelino”, ficou na história. Aconteceu de um amigo saxofonista maranhense, que costumava fazer suas temporadas artísticas no verão do Algarves, dizer-me que iria apresentar-se durante três dias em um teatro de Lisboa. Com a recomendação para que visitasse o Tejo Bar passei-lhe o endereço, tendo o cuidado de avisar também ao Jorge Carlos de sua provável visita.

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Alguns dias depois recebi uma mensagem do músico contando da sua visita ao Mané. Dizia ele, que inicialmente não dera muita importância à minha sugestão. Por isso, somente na segunda noite, por estar de bobeira após o recital, teve a ideia de convidar seu parceiro para a recomendada visita.
Na chegada, decepcionado com o pequeno e simples Tejo Bar, pensara: “É do tamanho da sala da minha mãe em São Luís do Maranhão. Que ideia da Gracilene a de mandar-me para cá!”.
Porém, se o bar era pequeno, o coração do Mané do Café é muito grande. Daí, que o modo caloroso como foi recebido nosso músico pelo conterrâneo Jorge Carlos, a quem eu o havia sobejamente recomendado, foi grandioso. Um verdadeiro contrassenso ao tamanho e a falta de sofisticação do bar. A pompa material que faltava, sobejou em carinho e aconchego, e isto muito cedo já dava para perceber, e rapidamente a má impressão inicial evoluiu para uma agradável camaradagem.
Então, após umas duas doses, o maranhense puxou do seu sax de ouro e começou a tocar. Não sei dizer se iniciou com um blue, uma valsa ou um fado. Só sei que, com o chamado envolvente do saxofone o bar encheu-se dos noctívagos transeuntes de Alfama, Mouraria e circunvizinhanças, que para ali voejaram pressurosos como os pássaros que na mata se sentem atraídos pelo cantar do uirapuru.
A onda musical que se espraiou pelos arredores e adentrou os ouvidos, encantava a alma clamando pelo espírito do vinho, e os fregueses esvaziavam rapidamente as garrafas do Tejo Bar.


Quem sabe até se a própria Amália Rodrigues, em espírito, não esteve também ali de braços dados com o seu fadista de cor morena, boca pequena e olhar trocista, Fernando Maurício, recepcionando o músico maranhense e justificando a boa hospitalidade da casa portuguesa?
Quanto a isso, não posso afirmar nada. Mas, o que eu soube foi que nunca antes o Tejo Bar estivera tão lotado pela boemia lisboeta, que se espalhou pelas calçadas, tanto que não houve meios de memorizar todos os que ali contracenaram.
 A festa se estendeu madrugada afora até as cinco da manhã. E, quando os embriagados clientes deixaram o Tejo Bar, já estavam todos devidamente convidados para o recital do músico maranhense que se realizaria horas mais tarde no teatro.
Necessário registrar que nos dias anteriores a frequência ao recital ficara na esfera do razoável. Mas, no terceiro dia o teatro lotou, para espanto do artista. E ao final, uma grande fila de espectadores veio cumprimentá-lo pela magistral performance. Só então, pelos comentários, o músico teve a certeza de que o sucesso dessa noite fora alavancado no pequenino Tejo Bar.
A mensagem do músico maranhense no dia seguinte à exitosa apresentação, dizia: “Minha querida e luminosa amiga, Gracilene Pinto, todo dia a vida nos ensina uma nova lição. Você, aí do outro lado do oceano, influenciou diretamente o sucesso do meu último recital no teatro em Lisboa, proporcionando-me bons lucros e satisfação pessoal. Se eu tivesse ido ao Tejo Bar desde o primeiro dia, certamente teria sido muito melhor a temporada. Obrigada por seres minha amiga!”
No mesmo dia, um outro e-mail expressava a gratidão do Mané do Café: “Obrigada, minha querida, pela visita do seu amigo! Ontem o Tejo Bar teve o maior faturamento do ano”.


A amizade verdadeira é assim: vale mais do que dinheiro em caixa e, como o ouro de lei, não oxida, não deteriora, nem cria azinhavre. Vence o espaço e o tempo, atravessa fronteiras, transpõe montanhas e oceanos sem problemas, usando apenas o passaporte do amor.
Hoje o Jorge Carlos não está mais no Tejo Bar. Voltou ao Brasil. Mas, eu não consigo pensar em Tejo Bar sem associá-lo ao Mané do Café, este amigo que continua presente em minha vida e que me trouxe uma nova amiga, Eliana Castela, sua nova esposa e nossa colega de escritos e poesia, por quem já desenvolvi uma sincera afeição.

 

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jaime aranhaHá 1 mês BSB/DFParabéns! Precisamos de mais artigos, como esse acima.
GilmarHá 1 mês MA Um belíssimo texto! Comovente.
Jorge Carlos Amaral de OliveiraHá 1 mês Rio Branco,ACBravo!
Gracilene Pinto Há 1 mês São Luís/Maranhão Gente, eu sou apaixonada por Portugal desde muito pequena. Creio seja em razão do sangue dos bisavós portugueses que corre forte em minhas veias. Daí a emoção que toma conta de mim quando falo sobre nossa terrinha e nosso povo. ABS carinhosos. Gracilene Pinto
Juracy FilgueirasHá 1 mês Porto PT"Estou a admirar e a ler. A ler e a admirar este texto tão poderoso em relação à minha a minha terra, Portugal tão querida. Gratíssimo por estas letras, adorável escritora.
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