
O Clássico mais moderno do que nunca
*Mhario Lincoln
O soneto “Desilusão”, do amigo poeta Regis Furtado – um dos melhores da nova safra poética maranhense – tem estrutura clássica, fato esse que assegura a “volta” emocional entre a contemplação da ferida amorosa e a lição final.
Ao ler, a emoção me veio de forma a complementar, por exemplo, a apóstrofe ao próprio coração: “Não te entristeças assim meu coração”, onde se instala de imediato a voz lírica aconselhadora, recurso camoniano em sua sobriedade, que confere ao poema o timbre de “razão que fala ao afeto”.
Regis Furtado é classicamente exemplar quando mostra que a semântica de “ilusão”, “desesperança” e “lembranças” é que organiza o campo afetivo do soneto, preparando para a metáfora central: o amor que seduz com calor (“cálida ilusão”) apenas para fixar-se como marca dolorida na memória.
Vale destacar a maneira corretíssima de Regis na composição métrica e diccional para manter a sua lírica dentro dos parâmetros clássicos do soneto (fato raro hoje em dia), com tendência decassilábica, mesmo com pequenas licenças de elisão e hiato próprias da tradição portuguesa, o que dá ao poema um andamento natural, sem tropeços.
Lembrou-me a sobriedade emotiva de grandes sonetistas, inclusive um dos maiores do Maranhão, nascido em Pedreiras (membro da Academia Poética Brasileira: Kleber Lago). Mas também me chamou a atenção pela singularidade com algo que aproxima Regis Furtado da linhagem lírica que parece surfar com liberdade nas ondas brilhantes de Camões a Bilac. Ou seja, se há um risco de lugar-comum nas metáforas lunares e na rosa, ele é mitigado pelo desenho progressivo das imagens e pela boa administração da “volta”, que entrega conclusão moral sem perder o calor do lamento.
Se eu estivesse no júri do Concurso “Pedro Ivo”, promovido pela Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares, em ação elogiável, teria também votado pelo 1º lugar a essa peça organiza de alto teor lírico, porque a mim também convenceu não pelo tema clássico. Mas pelo equilíbrio entre forma e emoção e pela elegância, sem exageros conotativos, nem repetitivos, como em alguns sonetos que já li. O que poderia ser excessivo, nesse caso, acaba sustentando a tensão (e isso foi muito claro pra mim) entre memória e desengano e pousa, com precisão, naquela chave antiga e sempre nova da poesia amorosa: quando a ferida é exposta, o poeta aprende a falar baixo para não doer muito.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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SEGUNDA POÉTICA.
DESILUSÃO
Regis Furtado
Não te entristeças assim meu coração
Que aquele amor só me deu desesperança
Ora me envolvia de cálida ilusão
Para marcar em mim suas lembranças
Via-me como uma etérea miragem
A dissipar-se após os momentos de paixão
Como lua que brilha em quadro de paisagem
Como luz tênue de uma escuridão
Fez-se ausente sem despedida
Com sorriso na face desinibida
Como espinho ferino de uma rosa
Seu coração guardado no peito
Bate alegre a despeito
De minhas lágrimas que caíram copiosas
O POETA
Nascido em 28 de março de 1957, na cidade de Parnaíba, no Piauí, Luiz Regis Furtado é um artista múltiplo cuja trajetória pessoal reflete-se diretamente em sua produção literária. Aos quinze dias de vida, chegou ao Brejo, no Maranhão, terra de seus pais e local onde suas raízes familiares e afetivas fincaram base. Aos dezesseis anos, partiu para São Luís, capital maranhense, e, em 1977, seguiu para Belém, no Pará, onde se formou em Engenharia Agronômica. Retornou a São Luís, onde consolidou sua carreira como poeta, escritor e compositor. Seus deslocamentos parecem ecoar nas paisagens emocionais de sua obra, marcada por uma sensibilidade que transcende fronteiras literárias.
A produção de Furtado é um diálogo constante entre o íntimo e o coletivo, o particular e o universal. Em 2002, publicou seu primeiro livro, Elegia, uma obra poética que já anunciava a maturidade de um autor capaz de transformar sentimentos em versos que ressoam no leitor. Sua poesia é marcada por uma linguagem introspectiva, que dialoga com as tradições literárias brasileiras, mas também carrega uma voz única, enraizada nas paisagens e nas histórias do Nordeste. Em seus poemas, a memória é matéria-prima, e cada palavra parece escavada com cuidado, como se fosse possível extrair beleza até mesmo da dor.
Três anos depois, em 2005, Furtado lançou Vozes do Brejo, seu romance histórico que mergulha nas origens de sua terra adotiva. Nesta obra, ele explora narrativas que resgatam a cultura e a história local, tecendo uma trama cativante. O compromisso do autor com suas raízes é evidente, mas sua habilidade em transformar elementos reais em ficção é o que realmente impressiona. Vozes do Brejo é mais do que um romance; é um testemunho de amor à terra que o acolheu e um tributo às histórias que permanecem vivas através das gerações.
Em 2012, Furtado retomou a poesia com Canto da Manhã, seu terceiro livro, que revela uma abordagem renovada e madura. Aqui, o autor explora temas como o tempo, a existência e a beleza do cotidiano, sempre com uma linguagem que oscila entre o melancólico e o esperançoso. Uma reflexão sobre sua própria jornada, que toca pela delicadeza com que Furtado trata questões universais, transformando-as em algo profundamente pessoal.
Além de sua produção literária, Luiz Regis Furtado tem um papel ativo no cenário cultural brasileiro. Em 2003, foi empossado na Academia Brejense de Artes e Letras, tendo como patrono Sebastião Carvalho, uma homenagem que reforça sua ligação com o Brejo e sua contribuição para a cultura local. (*Informações colhidas no site AMBROSIA. https://ambrosia.com.br/literatura/a-voz-poetica-de-luiz-regis-furtado/
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