Eloy Melonio
Ouso dizer que não olhar para o céu é coisa de cego ou de gente ruim da cabeça. Especialmente à noite, quando, por lá, passeiam estrelas, planetas, a Lua, e até constelações.
Essa ideia abriu-me os olhos da alma às 5h10 de uma segunda-feira, quando precisei ir ao quintal. Antes de chegar à lavanderia, olhei para cima e me deslumbrei com um bando de seis aves. Em reverência, as estrelas reduziram sua luminosidade e o céu ficou mais azul do que nunca. Por causa da iluminação artificial da cidade, pareciam branquinhas de dar inveja aos cabelos da Maria Betânia.
Alinhadas horizontalmente, trocavam de lugar como se executassem um bailado no palco do Teatro Arthur Azevedo, aqui em São Luís. Confesso que senti vontade de gritar: Para onde vão, suas loucas! A cena não demorou cinco minutos. Sumiram na imensidão do firmamento, dispostas a cruzar a Baía de São Marcos em direção à baixada maranhense.
Essa fixação por contemplar o céu nasceu na minha infância. Entre 1962 e 1967, moramos numa comunidade sem luz elétrica. À noite, Seu Manoel curtia as belezas do céu noturno e conhecia muitos de seus mistérios. “Amanhã é lua cheia!”, avisava. E a gente se preparava para vê-la surgir exuberante junto com a noite. Ou gritava deslumbrado: “Olhem! Aquele é o planeta Vênus!”. O certo é que ele era um ávido leitor do Almanaque do Pensamento, publicação anual com informações sobre as fases da Lua, trânsitos planetários etc., lançado em 1912.
A poesia aproveita-se dessa minha paixão e esse tema passeia em vários dos meus poemas. Em “A lua do meu quintal” (Dentro de mim/2015), uma revelação: “À noite sempre vou ao quintal/ ver as coisas e coisas e tal”. Quanta coincidência, não? E mais adiante, sobre a lua cheia que vinha nascendo, o êxtase: “Rendi-me encantado/ ao seu manto prateado/ E ela, timidamente nua,/ se escondia do clarão da rua”.
Em sua plenitude, a natureza nos chama a admirá-la. Ao passar por áreas verdes (praças, parques, reservas) onde vejo árvores, sinto-me arrebatado. Entre tantas, as mangueiras e as amendoeiras se destacam. Porque são gigantes e dão sombra à transeuntes e motoqueiros que precisam de sombra fresca. Também me arrasto de amores pelas plantinhas rasteiras, geralmente impercebidas, que sobrevivem nos meios-fios das ruas e avenidas.
Se o céu era fonte de inspiração para meu pai, hoje, sempre que oportuno, eu e meu filho também conversamos sobre fenômenos celestes. E aí, uma inevitável troca de fotos, vídeos e informações. Numa quarta-feira de junho, tirei duas fotos: às 9h10, a Lua, indiferente à agitação da cidade, exibia-se no céu limpo daquela manhã. À noite, lado a lado, dois planetas deslizavam elegantemente no céu festivo do São João. Para essa foto, um comentário no WhatsApp: “Desde ontem acompanho o passeio de Júpiter e Vênus no nosso céu. E não vão demorar muito por aqui. Aproveite para apreciá-los enquanto o céu está limpo. Nuvens invejosas estão por aí mesmo para estender sua cortina cinzenta entre eles e nós”.
Nas duas últimas crônicas do seu livro “De Peixes & Solidão” (Edições AML/2025), Ceres Fernandes, acadêmica da AML, destaca o mês de junho (São João antes do pecado original e O mês mais bonito). Numa conversa no WhatsApp, ela diz: “Limpo mesmo!”, confirmando o que eu dissera sobre o céu naquela noite. E sobre sua “discordância” (termo usado por mim) com Aluísio Azevedo, autor de “O Mulato” refuta minha observação: “Não era briga, apenas a constatação que o clima muda ao correr dos anos”. Também falou dos fins de semana na praia da Ponta d’Areia quando ainda não havia luz elétrica: “Eu também ficava, à noite, com meu pai, por horas. Olhando e comentando o céu”.
Não à toa, Luiz Gonzaga exalta tanta beleza que sorri no céu: “Olha pro céu, meu amor/ Veja como ele está lindo”. Nordestino que gosta de forró, segui seu exemplo e consegui identificar o Cruzeiro do Sul na última sexta-feira de junho, às 19h25. Depois de fracassadas tentativas por causa de algumas nuvens e da luz artificial, consegui fotografá-lo inteirinho.
Diante de tanto azul, quase deixava as nuvens passar em branco! Com algumas exceções, adoro vê-las, especialmente quando se agrupam à frente de Alcântara, cidade histórica no outro lado da Baía de São Marcos, encobrindo o sol caboclo que já quer se “arretirar”. Essa cena no horizonte mostra a “vermelhidão do pôr-do-sol” tomando conta do céu. E aí, outra exclamação. Mas, desta feita, imitando um sambista carioca: “Oh sorte!”
O título desta crônica não tem nada a ver com o São João nem com algum tipo de guloseima. "Céu de brigadeiro" é uma expressão do universo aeronáutico, referindo-se a um espaço aéreo tranquilo no qual pilotos e passageiros esperam voar.
Se você quiser dirigir seus olhos para o que vale a pena ver, sugiro-lhe apreciar o céu, especialmente à noite. Quem sabe de lá não caiam estrelas bailarinas e docinhos de chocolate! E aí, “pago-me da tarefa”, com a devida vênia de Machado de Assis.
(*) Eloy Melonio (São Luís-MA, 28 junho 2026)
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