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Crônica de Eloy Melonio, exclusivo para o Facetubes: “CÉU DE BRIGADEIRO”

Eloy Melonio é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

07/07/2026 11h25
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio (autor)
Arte: ginaiFT
Arte: ginaiFT

Eloy Melonio

            Ouso dizer que não olhar para o céu é coisa de cego ou de gente ruim da cabeça. Especialmente à noite, quando, por lá, passeiam estrelas, planetas, a Lua, e até constelações.

            Essa ideia abriu-me os olhos da alma às 5h10 de uma segunda-feira, quando precisei ir ao quintal. Antes de chegar à lavanderia, olhei para cima e me deslumbrei com um bando de seis aves. Em reverência, as estrelas reduziram sua luminosidade e o céu ficou mais azul do que nunca. Por causa da iluminação artificial da cidade, pareciam branquinhas de dar inveja aos cabelos da Maria Betânia.

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            Alinhadas horizontalmente, trocavam de lugar como se executassem um bailado no palco do Teatro Arthur Azevedo, aqui em São Luís. Confesso que senti vontade de gritar: Para onde vão, suas loucas! A cena não demorou cinco minutos. Sumiram na imensidão do firmamento, dispostas a cruzar a Baía de São Marcos em direção à baixada maranhense.

            Essa fixação por contemplar o céu nasceu na minha infância. Entre 1962 e 1967, moramos numa comunidade sem luz elétrica. À noite, Seu Manoel curtia as belezas do céu noturno e conhecia muitos de seus mistérios. “Amanhã é lua cheia!”, avisava. E a gente se preparava para vê-la surgir exuberante junto com a noite. Ou gritava deslumbrado: “Olhem! Aquele é o planeta Vênus!”. O certo é que ele era um ávido leitor do Almanaque do Pensamento, publicação anual com informações sobre as fases da Lua, trânsitos planetários etc., lançado em 1912.

            A poesia aproveita-se dessa minha paixão e esse tema passeia em vários dos meus poemas. Em “A lua do meu quintal” (Dentro de mim/2015), uma revelação: “À noite sempre vou ao quintal/ ver as coisas e coisas e tal”. Quanta coincidência, não? E mais adiante, sobre a lua cheia que vinha nascendo, o êxtase: “Rendi-me encantado/ ao seu manto prateado/ E ela, timidamente nua,/ se escondia do clarão da rua”.

            Em sua plenitude, a natureza nos chama a admirá-la. Ao passar por áreas verdes (praças, parques, reservas) onde vejo árvores, sinto-me arrebatado. Entre tantas, as mangueiras e as amendoeiras se destacam. Porque são gigantes e dão sombra à transeuntes e motoqueiros que precisam de sombra fresca. Também me arrasto de amores pelas plantinhas rasteiras, geralmente impercebidas, que sobrevivem nos meios-fios das ruas e avenidas.

            Se o céu era fonte de inspiração para meu pai, hoje, sempre que oportuno, eu e meu filho também conversamos sobre fenômenos celestes. E aí, uma inevitável troca de fotos, vídeos e informações. Numa quarta-feira de junho, tirei duas fotos: às 9h10, a Lua, indiferente à agitação da cidade, exibia-se no céu limpo daquela manhã. À noite, lado a lado, dois planetas deslizavam elegantemente no céu festivo do São João. Para essa foto, um comentário no WhatsApp: “Desde ontem acompanho o passeio de Júpiter e Vênus no nosso céu. E não vão demorar muito por aqui. Aproveite para apreciá-los enquanto o céu está limpo. Nuvens invejosas estão por aí mesmo para estender sua cortina cinzenta entre eles e nós”.

            Nas duas últimas crônicas do seu livro “De Peixes & Solidão” (Edições AML/2025), Ceres Fernandes, acadêmica da AML, destaca o mês de junho (São João antes do pecado original e O mês mais bonito). Numa conversa no WhatsApp, ela diz: “Limpo mesmo!”, confirmando o que eu dissera sobre o céu naquela noite. E sobre sua “discordância” (termo usado por mim) com Aluísio Azevedo, autor de “O Mulato” refuta minha observação: “Não era briga, apenas a constatação que o clima muda ao correr dos anos”. Também falou dos fins de semana na praia da Ponta d’Areia quando ainda não havia luz elétrica: “Eu também ficava, à noite, com meu pai, por horas. Olhando e comentando o céu”.

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            Não à toa, Luiz Gonzaga exalta tanta beleza que sorri no céu: “Olha pro céu, meu amor/ Veja como ele está lindo”. Nordestino que gosta de forró, segui seu exemplo e consegui identificar o Cruzeiro do Sul na última sexta-feira de junho, às 19h25. Depois de fracassadas tentativas por causa de algumas nuvens e da luz artificial, consegui fotografá-lo inteirinho.

            Diante de tanto azul, quase deixava as nuvens passar em branco! Com algumas exceções, adoro vê-las, especialmente quando se agrupam à frente de Alcântara, cidade histórica no outro lado da Baía de São Marcos, encobrindo o sol caboclo que já quer se “arretirar”. Essa cena no horizonte mostra a “vermelhidão do pôr-do-sol” tomando conta do céu. E aí, outra exclamação. Mas, desta feita, imitando um sambista carioca: “Oh sorte!

            O título desta crônica não tem nada a ver com o São João nem com algum tipo de guloseima. "Céu de brigadeiro" é uma expressão do universo aeronáutico, referindo-se a um espaço aéreo tranquilo no qual pilotos e passageiros esperam voar.

            Se você quiser dirigir seus olhos para o que vale a pena ver, sugiro-lhe apreciar o céu, especialmente à noite. Quem sabe de lá não caiam estrelas bailarinas e docinhos de chocolate! E aí, “pago-me da tarefa”, com a devida vênia de Machado de Assis.


(*) Eloy Melonio (São Luís-MA, 28 junho 2026)

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Sobre Crônicas de Eloy Melonio
Eloy Melonio é colaborador da Plataforma Nacional do Facetubes. Poeta, professor, letrista e escritor, com vários livros publicados e CDs editados.
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