VICEVERSA
Mhario Lincoln pergunta para Bioque Mesito.
Bioque Mesito é poeta, de 3 de fevereiro de 1972. Colaborador em diversos jornais de São Luís e, em especial, do Suplemento Literário Guesa Errante (no qual integrou a equipe de redatores durante seis anos). Participante do cenário poético/literário da Ilha de São Luís, desde os anos de 1990, em que integrou o Grupo Curare, um grupo de amigos e de literatura, que demarcou seu espaço na literatura maranhense com exposições, performances, prêmios e livros, em meados da década de 1990. Possui vários prêmios em concursos de poesia em âmbito local, regional e nacional. É autor dos livros de poesia A inconstante órbita dos extremos (Editora Cone Sul-SP, 2001), A anticópia dos placebos existenciais (Edfunc-MA, 2008) e A desordem das coisas naturais (Editora Penalux, 2018). Outros importantes livros também já foram publicados. (Os mais recentes, agora em 2026).
1 MHL - Sua obra atravessa quatro décadas e passa por diferentes fases estéticas. O que mudou de forma mais profunda no seu modo de escrever desde a Geração 90 até os livros mais recentes?
BIOQUE MESITO - Mhario, desde o início de minha obra literária, sempre busquei um projeto existencial e pragmático de me inscrever na literatura. A gente começa, como sempre ou como deveria ser, lendo e relendo bastante. E aí, aos poucos, a gente vai começando a escrever alguns versos até se transformarem em poema. Não é fácil a gente fugir das referências, mas quem quer ser e ter uma obra de relevância tem que sair de suas influências e começar a dar um rosto em suas produções; senão, a gente vai continuar reproduzindo pseudoborges, pseudonauros, pseudocecílias, pseudogullares... Observo muito esse fenômeno até entre companheiros de trajetória literária que não possuem sua voz, mas a voz de escritores renomados. Ai, meu amigo, é um tiro no pé.
Então, desde o meu começo, com o meu primeiro livro "A Inconstante Órbita dos Extremos " (2001), tentei fugir de minhas referências e colocar minhas pegadas autorais. Sei que isso, Mhario, não é fácil, mas devemos colocar coisas novas no mundo e não somente reproduzir como a de outros autores, achando que se está fazendo a melhor literatura.
Então, o que se modificou em meu trabalho ao longo desses quase 40 anos dentro da poesia foi apenas a forma de viver existencialmente falando e as modificações que se operaram no mundo com suas engenharias, transformando-nos em seres caminhantes com as novidades. E isso, é claro, afeta nossa maneira de caminhar no poema. Mas, como falei anteriormente, desde o meu primeiro livro, sempre tive uma forma pragmática do que iria escrever e escrevo desde então.
Existe um fato curioso que vou tentar resumir para que entendas. Meus editores, Tonho França e Wilson Gorj, da Editora Penalux-SP, ficaram admirados (principalmente o Tonho França) com um livro que enviei dois meses após eles terem lançado um inédito meu. Aí, o Tonho disse: "Bioque, cara, como tu, em tão pouco tempo, já fizeste um livro tão bom quanto o que lançamos há tão pouco tempo?". Então, respondi: "Tonho, esse livro é aquele que falei para vocês que gostaria de relançar em comemoração aos 20 anos de lançamento dele, pois pouca gente tinha e me cobravam." O que quero dizer é que o Tonho França ficou assustado achando que era um livro novo, mas esse livro já havia sido lançado há 20 anos. Ou seja, como meu projeto desde o início segue uma coerência poético-textual, ele achou que se tratava de um novo livro. Coisa que prezo desde o início é uma forma de me posicionar no mundo da poesia. Sempre que vou lançar um novo livro, já tenho um prospecto dele em meus neurônios, Mhario.
2 - MHL Você costuma afirmar que a poesia é um modo de caminhar entre as palavras. Como essa visão se transforma quando você observa o cenário literário maranhense atual, que você mesmo descreve como fértil e diverso? Ainda: quando você usa termos líricos explícitos e há uma certa divergência de olhares, como é a sua reação, diante desse solo fértil - mas ainda carente de amadurecimento ou de liberdade poética?
BIOQUE MESITO - Mhario, tu és "phoda". Coloca-me em regências não muito fáceis de "meandrar". Mas vamos lá. Escrever é caminhar, caminhar com o pé no chão. Não sou muito de me promover apenas por promover. Holofotes demais queimam nossas têmporas. Sempre acho que um escritor, e no meu caso que só escrevo poemas, um poeta não deve achar que é um deus ou um semideus ou um caso excepcional de labor divino. Não. Um poeta é um ser comum que apenas difere de quem não escreve poemas pela sua forma de "caminhar", de ser dentro dessa cápsula existencial. Quem quer ser coerente com sua obra não deve forçar, exibindo títulos disso ou daquilo, medalhas, diplomas, ou se espantar com conquistas. O que quero afirmar é que quem tem o compromisso com sua obra, isso vem de forma natural; não precisa estar toda hora ou a todo custo promovendo que foi antologizado na quinta edição de um prêmio internacional de poesia no sul do Afeganistão ou na safra de novos poetas da edição de luxo de uma editora italiana. Faça sua obra sem se importar com essas quinquilharias.
Ai, quando falamos do cenário de São Luís/Maranhão contemporâneo, é uma forquilha, pois há muito a se falar. Vejo muita gente bem equilibrada escrevendo poesia atualmente, o que não é novidade, pois nossa cidade/estado é conhecida por bons escritores ao longo dos séculos.
Agora, há um fenômeno que é interessante e difere da década de 1990, pois àquela época era mais difícil lançar livros, pois as editoras eram mais voltadas a publicar quem já tivesse uma trilha e não respondiam de forma positiva a novos escritores ou escritores que não fossem "chancelados" por algum escritor(a) conhecido(a). Nesse momento, e já há algum tempo, vejo que têm surgido muitos escritores vigorosos, mas com uma certa idade madura iniciando na literatura. E isso é bom, pelo menos a meu ver. Temos o exemplo de Paulo Rodrigues, que já tem uma idade e uma bagagem cultural, começando a lançar livros entre a primeira década dos anos 2000 e com reconhecimento de seu trabalho, fenômeno que não era tão comum anteriormente. Como ele, somam-se Luiza Cantanhêde, Adriana Gama, Rafael Oliveira, Daniel Blume, Anna Liz, Samuel Marinho, entre outros.
Nesse campo da linguagem erótico-artística, que é um ponto, ou um dos pontos de minha poética, alguns poetas vêm trilhando como é o caso de Neurivan Sousa (que lançou um livro sobre esse gênero, "Flor de Malagueta", vencedor na categoria poesia no I Concurso da Academia Ludovicense de Letras). Um bom livro que mergulha nesse mundo mágico da linguagem sensual/erótica. Outro que tem uma sacada muito boa nesse mesmo aspecto é o poeta Antonio Aílton, que se sai muito bem nos poucos poemas que possui em sua obra e sabe como navegar no erótico. Mas como perguntaste, Mhario, há muita gente (quando digo muita, é muito mesmo) que apenas percebe de forma pejorativa esses poemas como pornográficos, quando na verdade, a pornografia está na forma de perceber e vivenciar a arte e o texto literário.
Uma coisa que detesto é ver poetas com preconceito com palavras ou que têm receio ou timidez do que vão achar sobre o que escrevem, e não estou me dirigindo apenas ao erótico, mas a uma série de posicionamentos dentro de sua obra. Mhario, se colocar "cu", "xoxota", "cacete" é algo novo ou que causa espanto, então, essa pessoa não estudou ou não acompanhou a arte desde seu princípio. Colocar esses termos ou outros tidos como "picantes" é uma forma de escrever. Não se deve ter preconceito com palavras ou não se deveria, mas muitos escritores têm. Aí, trocam os termos por exemplos como "flor de pelos", "caverna de desejos", "espada de delírios" (esses termos estou só exemplificando) e ficam envergonhados de falar o que verdadeiramente é o termo. Existe uma escritora que, no ano passado, ganhou o Prêmio em Romance da Academia Maranhense de Letras, Seane Melo, que escreve muito bem sobre a temática erótica. Em seu livro "Digo te amo pra todos que me fodem bem", Seane capricha no uso das palavras eróticas, sem se tornar chata ou repetitiva. Um romance muito interessante e contemporâneo sobre relacionamentos. Mas entendo quem queira ser conservador, não há nenhum mal nisso, porém, que não seja pensando no que as pessoas ou a sociedade vão achar; aí, é "phoda".
Já vi papos de escritores que não colocam termos eróticos por medo de seus livros não serem adotados em escolas de São Luís, como se isso fosse importante. O importante é que essa pessoa entenda que ela escreve não para que seu livro seja adotado por escolas, mas sim porque há um comprometimento artístico com sua obra, e colocar "xoxota", "caralho", "buceta" em seus poemas não é nada demais, mas sim uma forma de expressar sua poética. Claro que esses termos não devem ser jogados, mas que tenham um propósito e funcionem muito bem no poema. A liberdade poética é necessária, Mhario, para quem sabe escrever e tem compromisso com sua literatura. Um poeta não deve ser um alienado; deve se posicionar, sem ser panfletário sobre os temas que surgem em sua convivência com o mundo.
3 - MHL É certo que o existencialismo atinge seu ápice justamente na obra de Sartre, ao lado de Heidegger. Destarte, ao ler sua poesia despertou-me em muitos momentos essa corrente existencialista, além de ser explícita com pertinência a questões da condição humana. Em que medida Sartre e Heidegger foram essenciais em suas construções poéticas? Então, qual influência maior: sartreanas ou as inquietações pessoais e intransferíveis que continuam a orientar seus livros, como, por exemplo "Revoada de interrogações", premiado pela Academia Maranhense de Letras, ano passado?
BIOQUE MESITO - Mhario, Sartre, de certa forma, é um dos existencialistas que gosto. Heidegger, menos. O meu grande existencialista é Søren Kierkegaard. Ainda nos bancos da Escola Técnica Federal do Maranhão (atual IFMA), nos anos 1980, já no final dessa década, na verdade, tinha quinze anos, e lá surgiu o meu poeta. Foi nessa idade que comecei a escrever poemas. E, por meio do professor Marcos, de Filosofia, fui apresentado a Kierkegaard, para trabalhos escolares. Foi paixão. Já lia poesia russa, poesia inglesa e brasileira (modernista), mas a aproximação com a filosofia me fez olhar de forma diferente para a pragmática da minha poesia.
Mas há um ponto importante, meu amigo Mhario: não misturo Filosofia com literatura, com poesia. Poesia é poesia, Filosofia é filosofia. O que faço é compreender a realidade da existência, a condição humana (se é que há) para a construção da minha obra. Mas não se escreve, ou escrevo, apenas a partir do acúmulo filosófico; há várias nuances nas quais o poeta pode se ater.
Meu livro "Revoada de Interrogações " é um livro que poderia caminhar nessa direção da pergunta filosófica, do indagar filosófico, mas não. A revoada de interrogações é, na verdade, a vida, a existência sendo e acontecendo com poesia. É um livro que gosto muito, dedicado ao meu pai José de Ribamar Brito, que faleceu quando estava escrevendo-o. Não tem nada a ver com o tema morte ou com a morte de meu pai, mas, por agradecer a esse homem que foi muito importante para eu ser o que sou, resolvi dedicar-lhe. Então, Mhario, esses ou outros autores da filosofia não me servem de bússola, mas, sim, como forma de me compreender no mundo.
4 - MHL Você cita outras influências, estas, incluem poetas regionais do Maranhão, como Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Porém, com boa pitada de Prévert, Maiakovski e Borges. Como você consegue navegar em mares tão indispostas e revoltos e, ainda assim, mantém sua própria dicção poética?
BIOQUE MESITO - Como disse na primeira resposta, desta instigante prosa entre mim e você, é complicado estar com esses escritores e fugir de suas influências. Cassas, Bandeira, Gullar, Nauro e Chagas foram as minhas primeiras influências literárias e, por si só, já poderiam bastar-me. Principalmente Cassas, que foi o primeiro desses que conheci poeticamente falando e depois de forma de amizade literária. Cassas, de certa forma, com o seu "Rosebud", me abriu muito os olhos para a produção poética dos anos 1990, pois já escrevia usando termos próprios daquele tempo, do nosso tempo. E isso eu já buscava. Mas um cara, um poeta que tenho a maior estima, Hagamenon de Jesus (com quem me tornei amigo em 1992 e até hoje permanecemos juntos), fez esse laço e fechou o círculo. Hagamenon já buscava e busca até hoje termos contemporâneos em seus poemas e livros, o que, de certa forma, acelerou a minha busca, conjuntamente com Luis Augusto Cassas, para essa poesia do cotidiano, do contemporâneo. Aí, meu amigo Mhario, foi só se encaixando; daí vieram Borges, Prévert, Maiakovski, Gullar, Nauro, Chagas, Bandeira...
Navegar por esses mares revoltos é um prazer, pois se tratam de referenciais que todo poeta maranhense e/ou brasileiro, pelo menos, deveria conhecer. Não posso deixar de dizer aqui uma coisa que sempre foi uma marca de minha poética e de minha personalidade, que é ser verdadeiro. No início, não era muito "chegado" ao Nauro Machado, não com a pessoa, mas com a poética dele. Via todos os meus pares aplaudindo-o e dizia comigo: "não vejo ou não consigo enxergar isso tudo nesse poeta. " Aí, Mhario, aos poucos fui conhecendo Nauro como pessoa e como poeta, fui recebendo o carinho dele e consegui compreender sua obra, e quão importante ela era para mim. E Nauro se transformou em um poeta que estimo demais. Então, uma das coisas para quem me conhece é que eu sei reconhecer e pedir desculpas quando estou equivocado sobre alguma coisa. E isso me ajuda a crescer, independentemente de minha poesia, mas como humano que tento ser. Logo, Mhario, esses poetas, somando-se a Cecílias, Wisława Szymborska, Drummond, Borges, são alguns de meus alentos.
5 -MHL Nos anos 1990, sua participação em grupos como o "Curare" e em coletâneas como "Safra 90" ajudou a consolidar uma nova geração poética. Será que essa geração pode ser considerada pertinente à geração dos "Antroponautas", hoje com representantes de peso como Raimundo Fontenele e Luis Augusto Cassas? Desta forma, que papel você acredita que os coletivos literários realmente (ou ainda) desempenham na formação de novos autores no Maranhão ou no Brasil?
BIOQUE MESITO - Porra, Mhario , tu és phoda mesmo! Rapaz, tu me colocas em polvorosa. De forma sincera, sem entremeios. Uma turma, grupo ou geração (termo cada vez mais em desuso) tem sua importância e contribuição nesse aspecto a que estamos relacionando, que é o da Literatura. Não existe um maior ou melhor. O que posso mensurar é que em todos houve seu eixo ou espinha dorsal que apresentou um desenvolvimento entre os que fizeram ou fazem parte deles. Aqui, colocaria a poesia de Chagas Val, que talvez seja pouco comentada, mas de muita elegância e sentido, como um dos grandes "antroponautas", com quem tive certa vez, na porta do Jornal Pequeno (quando trabalhei lá), antes de sua morte, uma menção de respeito, na qual Chagas Val disse possuir meus dois livros que, à época, eram os que eu tinha (A inconstante órbita dos extremos e A anticópia dos placebos existenciais). E disse a ele que possuía um livro dele apenas, "Floração das águas", mas que o estimava como um dos poetas de que gostava. Outro grande nome que não deve ser esquecido é o do grande poeta, mas grande mesmo: Viriato Gaspar.
Viriato foi um amigo nos últimos anos. Fez parte de nosso coletivo de poesia "Os Integrantes da Noite", grupo que é composto por escritores, poetas, músicos, atores, artistas visuais, professores, amantes da arte etc., que se integram em prol da arte. Sim, como dizia, Mhario, Viriato era muito participativo em nosso grupo, com poemas novos, mas muitos poemas novos, que, sempre em sua maioria, dedicava a amigos, entre eles Arlete Nogueira da Cruz, a qual tinha a maior amizade e, de certa forma, eu servia de mensageiro para que esses poemas chegassem a Arlete, que, por não possuir WhatsApp, Viriato me passava e eu passava e/ou lia na íntegra para ela. Viriato foi um dos grandes antroponautas ; apesar de se anunciar em sonetos, sua poética era muito contemporânea. Sinto muita falta desse amigo que nos deixou no ano passado.
Então, Mhario, os coletivos, os grupos, as turmas servem e colaboram muito para que a gente pense e faça literatura. O nosso grupo Curare, que foi o primeiro ao qual fiz parte, está fazendo 30 anos. Desse grupo saíram poetas como César William, Antonio Aílton, eu, Hagameon de Jesus, Ricardo Leão, Dyl Pires, Natan Campos, e Rosemary Rêgo (falecida em 2017), que continuam produzindo e colaborando com os debates e com a poesia contemporânea do Maranhão e do Brasil, seja em livros ou em livros acadêmicos sobre a Literatura. Mhario, com certeza, os coletivos possuem, para quem gosta de caminhar com outras pessoas, um ponto central em corroboração à literatura e aos escritores que vêm surgindo.
6 MHL Você tem dito que busca uma poesia menos experimental e mais comprometida com questões humanas contemporâneas. Que temas hoje lhe parecem urgentes o bastante para atravessar sua escrita?
Mhario, na verdade, eu nunca busquei experimentalismos em poesia. Talvez o que tenha dito é que, com o passar do tempo, não me é mais permitido experimentar alguns modelos que eu costumava utilizar, mas sem ter isso como proposta para a minha poética. Como afirmei anteriormente, sempre tive uma proposta muito bem definida sobre o processo da minha escrita desde o meu primeiro livro. Quanto à escrita relacionada à humanidade, isso sim. Sigo aquele preceito de Walt Whitman que disse que escreve porque existe o outro, o próximo. Então, escrevo porque existe a humanidade. Escrevo sobre formigas, sobre animais domésticos e seres que nem existem, mas meu foco é no humano. Admiro quem desfruta seus versos com um gato de estimação, como fez Gullar, Neruda, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, Szymborska ... mas meu foco é no humano, em seus destemperos, fúrias, paixões, acasalamentos, complexos, perdas, perdões. Em tudo que possa corroborar com o entendimento e o processo de humanização do Ser.
Então, meu foco central é no humano, no cotidiano, nesse esfacelamento do humano, em sua condição humana. Tenho um viés também voltado para a tecnologia, não só com os termos, mas também como esses novos formatos de "inteligências" vêm modificando a estrutura neurológica e social de vivermos e convivermos. Há um grande poeta, Samuel Marinho, que sabe muito bem dosar esse mundo com a poesia. Um dos melhores livros que li no ano passado foi dele: "O Livro das Nuvens ". Esse livro me fez perder o sono e quase agir de forma irresponsável. Conto para vocês.
Mhario, estava em um encontro de Letras em Bacabal-MA, a convite da Uema/Ufma de lá, juntamente com Laura Amélia Damous (grande poeta), Antonio Aílton, Fernando Abreu e Adriana Gama. Após nossas micropalestras e saídas para comes e bebes, voltamos ao hotel. Na volta, com o poeta Antonio Aílton, pedi que usasse seu notebook, pois não tinha levado o meu na viagem. Ele me cedeu. Ao abrir a tela, estava estampado um texto que seria o prefácio de "O Livro das Nuvens " de Samuel Marinho. Cara, fiquei maluco quando li o livro; a paixão foi tanta que, ao pegar o notebook de Aílton para escrever um texto de trabalho, não consegui tirar os olhos do livro de Samuel. Já ia quase para as 2 da madrugada e estava lendo o livro. Tive que parar por aconselhamento de Aílton, pois tinha que entregar meu texto de trabalho pela manhã cedo. Só que tinha um detalhe: eu viajaria de volta para São Luís às 8h30 e não haveria tempo hábil para escrever, pois estaria em trânsito entre Bacabal e São Luís.
Logo, Mhario, busco na literatura o que me deixe atento a novas formas de escrever. Quem busca os memos retóricos e monótonos temas, já bastante batidos em poesia, isso não me agrada. Gosto de livros que me deixem entusiasmado, como foi esse de Samuel Marinho, que me leve a repensar meu centro de gravidade permanente. Outro viés que possuo é o do distópico, muito pouco presente em minha obra, mas que consigo trilhar. O tema do esoterismo também se faz presente em meu trabalho, mas de forma bem sutil, sem exagerar, pois não escrevo livros de autoajuda, mas, sim, de poemas.
*****
Bioque Mesito pergunta a Mhario Lincoln
Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes, jornalista e poeta maranhense.
BIOQUE MESITO 1- Sua obra parece nascer de um projeto muito consciente de autoria, como se desde o primeiro livro houvesse uma recusa em apenas repetir vozes consagradas. Em que momento você percebeu que já não caminhava sob a sombra de suas influências, mas havia encontrado uma dicção própria dentro da poesia brasileira e maranhense?
MHARIO LINCOLN – Acho que assim deveriam ser as entrevistas (VICEVERSA), a partir desta, porque você inova em fazer suas perguntas com base nas que eu fiz para você. Não será esse, enfim, o espírito maior de um VICEVERSA? Vou pensar seriamente nesse formato, amigo. Mas, vamos à resposta: no meu caso específico, essa dicção própria não nasceu no dia em que eu rejeitei minhas influências. Confesso que ela nasceu quando passei a chamá-las para andar junto comigo. Durante muito tempo, recebia, algo parecido com “mensagens akáshicas”, no cochilo pós-almoço ou nas madrugadas vazias e frias de Curitiba (PR). Após algum tempo notei que essas vozes deixaram de mandar e começaram, apenas, a cuidar, a dar consistência, alicerce, amparo aquela minha ideia central. E notei isso exatamente quando comecei a estudar de forma demasiadamente “desumana”: manhã, tarde e noite. Precisava conhecer melhor meu instrumento de trabalho, isto é, a palavra! Foi aí que percebi meu rito de passagem. Com isso, meu vocabulário e minhas loucas elucubrações passaram a fluir melhor. Assim, banhei em óleo ungido essas armas poderosas contra minha pusilanimidade etária e preguiçosa. Enfim, a mim me parece que cheguei a (quase) voz própria quando decidi assumir meus erros, baixar meu voo e voltar para minha aldeia, esquecer minhas perdas, minhas decepções. Assim, tudo que escrevo, atualmente, vem desse ponto: a palavra como tentativa de permanência diante do meu próprio desaparecimento, enquanto projeto de “escritor e poeta”.
B.MESITO 2-Entre seus livros e suas obras mais recentes, quais você considera mais representativos de sua travessia poética? Há algum livro que, para você, sintetize melhor esse encontro entre existência, cotidiano, inquietação humana e linguagem contemporânea?
MLincoln - Entre os livros e textos que marcam minha travessia, reconheço alguns como pontos de inflexão: A Bula dos Sete Pecados é o início de um projeto poético devidamente planejado - amiúde -para o que virá ainda este ano. O SEXTO SEXO. Esse livro de poesias adultas deve ser o ‘start’ para que eu venha a produzir algo muito mais profissional, porém coadjuvado com meus mais profundos sentimentos e decepções humanas. Isso porque eu nasci -acho eu - apenas com um leve dom poético. Tive que aprender, ler, reler, me esforçar muito para diluir a lírica. Mesmo porque, minhas poesias são, em sua grande maioria, assimétricas, portanto, sem escola definida, nem pensamento lírico nenhum. Contudo, após estudar poetas chineses, como Li Bai ou Du Fu, poetas festejados da Dinastia Tang; ou ainda, o japonês Matsuo Bashō, na minha opinião, o maior mestre do haicai japonês, comecei a enxergar uma linha tênue entre minha ignorância hiperbólica ao rimar “lua” com “tua” e o “Cactus spinosus” da construção poética autoejetada. Tenho que estudar ainda mais. Ler mais. Talvez criar uma forja e uma dinâmica, próprias, a fim de que tenha segurança para terminar e lançar O SEXTO SEXO, essa, como obra-mãe do que pode ser parido dali em diante.
B.MESITO 3 - Você fala da poesia maranhense como um território fértil, mas também atravessado por conservadorismos, receios e disputas de amadurecimento estético. Na sua leitura, quais poetas da atualidade maranhense têm conseguido construir uma obra realmente vigorosa, livre e necessária para o nosso tempo?
MLincoln - Realmente li muitos bons poetas nos últimos 10 anos. Todavia a minha tese é uma só: entendo que seria muito perigoso escolher alguém em detrimento de outrem. Isso porque a matéria prima que os poetas trabalham sempre será capaz de revelar “o extraordinário” e permitir que de uma forma mais simples ou mais rebuscada, aquele espectro linguístico criado faça o leitor descobrir a sua própria profundidade simbólica; e não, simplesmente a qualidade criativa do poeta/autor. Essa é a razão de José Tolentino de Mendonça, cardeal, poeta e teólogo português afirmar que toda matéria poética é uma “revelação do invisível”. Ou seja, hierarquizar o invisível é, na verdade, inventar critérios ilógicos. Uma prova exemplar disso: chegou as minhas mãos para publicar no Facetubes uma micropoesia do filho de uma amiga. Ele tem 8 anos. Nunca havia escrito absolutamente nada. Mas a mãe, ao folhear o caderno da escola para ajudar no "dever de casa", leu o seguinte: "Olha a folha de ontem no chão/nem sentiu a força invisível que derrubou ela". Então, como hierarquizar algo dessa natureza inventiva diante de milhares de poetas adultos por aí?
B.MESITO 4 - O Maranhão carrega uma tradição literária forte, marcada por nomes como Nauro Machado, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Luis Augusto Cassas, Chagas Val, Viriato Gaspar e tantos outros. Como você enxerga a responsabilidade de escrever depois desses nomes, sem ficar preso a eles, mas também sem romper com a memória literária que eles ajudaram a construir?
MLINCOLN - Não me vejo envolvido nessa preocupação, nem de ser "um deles" ou de ser "mais um". Isso porque tenho certeza de que também estou tentando encontrar a minha digital poética. Minha forma de criar – única - como todo ser humano. Assim, a literatura não é um campo de competição ou de limitação criativa quando um ultrapassa a linha imaginária do outros criador lírico. Essa tese, inclusive pode ser provada com exemplos cristalinos. Pablo Neruda, cuja poesia funde amor e natureza com a força de um olhar latino-americano; Patativa do Assaré, que transforma a oralidade e a simplicidade do sertão em sofisticação poética; e Carolina Maria de Jesus, cuja escrita crua e visceral nasce da fome, da exclusão e da sobrevivência, convertendo sua experiência única em literatura de impacto mundial. Ora, o que seriam deles se pensassem na concorrência avassaladora de monstros consagrados, contemporâneos, ou na dependência de seguir protocolos criados por escolas? O que posso concluir é que essa digital (orgânica) poética a qual busco de forma avassaladora, é uma forma de resistência: ela impede que eu possa me paralisar diante desses “gigantes” citados na pergunta. Porque para mim, escrever não é disputar um trono, mas registrar uma verdade que só eu mesmo posso narrar.
B.MESITO 5 - Tua trajetória passa por São Luís, mas também por Curitiba e pelo Paraná. Que saudade São Luís ainda provoca em tua poesia? E, ao mesmo tempo, de que maneira Curitiba e o Paraná modificaram teu olhar, tua escrita, tua percepção de mundo e tua relação com a literatura?
MLINCOLN – Não foi fácil, confesso, ultrapassar a poderosa barreira da Ponte do Estreito dos Mosquitos. Mas consegui. E só fora de minha origem, consegui tirar certos delírios psicóticos de concorrência, me livrar da grandeza da “Athenas Brasileira” e do olhar sempre desconfiado do outro – pensando que, em algum momento, alguém poderia tirar o lugar de alguém. Hoje entendo que essas coisas são banais e que nunca vão superar e nem apagar o amor que tenho por cada momento que existi na Ilha. Nem esses choques coronários vão desaparecer. Contudo, a visão tem que ser maior de Mundo. Veja, Mesito: o grande Aristóteles. Embora não fale diretamente de hierarquia artística, descreve a polis como um espaço onde os indivíduos inevitavelmente competem por reconhecimento, prestígio e influência, porque o ser humano é “um animal político” cuja vida só se realiza plenamente na comunidade. Por outro lado, contudo, não posso esconder que Curitiba me abriu horizontes dantes nunca alcançados; não por oportunidades que cidade de São Luís não me ofereceu; mas, por eu mesmo ter “tapa-olhos” inconscientes de algumas realidades muito poderosas e aterradoras, vista enquanto comunidade. E para superar isso, tive que me abarrotar de outras ideias, como a de Albert Camus, mesmo que ele não trate diretamente sobre esses casos específicos, ou seja, da melhoria “in side” do humano, em obras como O Mito de Sísifo, pode se deslumbrar uma alegação interessante: o indivíduo muitas vezes precisa se afastar das estruturas que o limitam para afirmar sua própria voz. Já para Milton Santos, geógrafo, “o território condiciona oportunidades e a visibilidade”. Olha só! Então, completa: “a necessidade de sair da aldeia, mesmo não sendo universal, parece frequente”. Ele tem toda a razão nessa coisa de limitação e visibilidade. Basta atentar para nomes como os de Alcione Nazareth, Zeca Baleiro, Claudio Fontana, na música, do jogador Wesley França (ex-seleção Brasileira, nascido em São Luís), ou mesmo dos imensuráveis maranhenses clássicos que integraram a Academia Brasileira de Letras? Nomes como o de Aluísio Azevedo (Cadeira 4), Coelho Netto (Cadeira 2), Raimundo Correia (Cadeira 5), Artur Azevedo (Cadeira 29), Graça Aranha (Cadeira 38), Humberto de Campos (Cadeira 20), Viriato Correia (Cadeira 32), Josué Montello (Cadeira 29), Odilo Costa Filho (Cadeira 15), Ferreira Gullar (Cadeira 37)? Todos saíram do Maranhão, infelizmente. Mas isso, por conseguinte, não se torna condição sine qua non para quaisquer que sejam os sucessos almejados. Aliás, há um esforço extraordinário de alguns grupos literários para garantir maior visibilidade aos talentos que borbulham na terra de Upaon-Açu. Lá mesmo, “in loco”. Como se buscasse uma força regional vital, ou, em bantu, (kintu ou ntu). Será que vamos conseguir?
B.MESITO 6 - Além da criação poética, você também atua como alguém que articula escritores, leitores e obras por meio de um site que conecta autores de várias partes do Brasil e do mundo. O que significa, para você, assumir essa responsabilidade de ser uma ponte literária entre vozes tão diversas? Esse trabalho de circulação e escuta também transforma sua própria maneira de escrever?
MLINCOLN – Confesso amigo Bioque Mesito que tal fato foi gerado muito antes ainda em São Luís quando, durante 55 anos tive colunas diárias em jornais na capital e comandei alguns programa de TV, na Difusora e no rádio, na Timbira. Foi exatamente esse aprendizado que me gabaritou para, anos depois, procurar a região sul. Sem essa experiência jamais alcançaria, por exemplo, as boas-novas da Plataforma Nacional do Facetubes (www.facetubes.com.br). Isso porque a internet hoje é altamente exigente. Sufocante. Impiedosa. Ou você faz ou não faz. Ou se doa, ou cheira a fracasso. Confesso que esse trabalho para mim só é realmente saudável porque é através dele que muitos poetas, escritores, artistas em geral, vêm tendo oportunidades de mostrar seus talentos ao redor das regiões brasileiras. O poeta Angelo Urias, de Fortaleza-Ceará foi divulgado nas páginas do Facetubes publicando trabalhos maravilhosos. Algum tempo depois recebeu convite para participar de importante concurso literário em Portugal. Participou. Ganhou e mudou com a família para Lisboa, onde recebeu bolsa completa para estudar literatura em uma faculdade portuguesa. Então, quando um trabalho faz isso, não é o editor que deve levar as glórias. Jamais! É o orgasmo satisfatória de uma luta coletiva (a pro) ampliar esse palco; e não, lustrar o espelho egóico de quem ajuda. Acho que esse trabalho, após mais de 5 anos no ar, está sendo o começo dos objetivos que ainda serão atingidos, antes de entrar na inexorável barca de Caronte.
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