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Psiquiatra Ruy Palhano: “Todos se casam com seus pais em qualquer idade da vida”

A grande tarefa do amadurecimento humano consiste em reconhecer essas heranças sem permanecer aprisionado a elas. Tornar se adulto não significa negar os pais, mas compreender o que se recebeu, o que faltou, o que feriu, o que foi bom, o que merece ser preservado e o que precisa ser superado.

03/07/2026 15h19 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dr. RUY PALHANO
Arte: ginaiFT
Arte: ginaiFT

PROF. DR. RUY PALHANO   

A afirmação de que “todos se casam com seus pais em algum momento da vida” não deve ser tomada em sentido literal, absoluto ou reducionista. Ela traduz, antes, uma verdade profunda da vida psíquica: os primeiros vínculos afetivos deixam marcas silenciosas, mas duradouras, na maneira como cada pessoa aprende a amar, confiar, temer, escolher, depender, esperar e permanecer nas relações.

Ninguém chega ao amor adulto inteiramente livre de sua história. Cada ser humano traz consigo uma memória emocional anterior, feita de presenças e ausências, ternuras e friezas, proteções e abandonos, admirações e medos. Assim, quando alguém escolhe um parceiro ou uma parceira, não escolhe apenas a pessoa concreta que está diante de si. Muitas vezes, escolhe também uma atmosfera antiga, uma cena familiar inconsciente, uma tentativa de cura ou a repetição de um padrão afetivo aprendido muito antes da vida conjugal.

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A família é o primeiro território psicológico do ser humano. Antes da escola, da religião, da cultura formal e das instituições sociais, a criança conhece o mundo pelo olhar, pela voz, pelo corpo e pela disponibilidade emocional daqueles que a recebem. É nesse espaço inaugural que ela aprende, mesmo sem palavras, se o mundo é acolhedor ou ameaçador, se o amor é seguro ou instável, se a autoridade protege ou humilha, se a proximidade conforta ou fere. John Bowlby, ao formular a teoria do apego, demonstrou que a qualidade dos vínculos iniciais participa decisivamente da formação da segurança emocional.

Mary Ainsworth, ao estudar os padrões de apego, mostrou que a criança desenvolve modos relativamente estáveis de buscar proteção, aproximar se, afastar se ou reagir à ausência. Esses modelos internos não desaparecem com a idade adulta. Podem ser transformados, mas frequentemente retornam nas relações amorosas, nas amizades, na conjugalidade e nas formas de dependência afetiva.

 É nesse sentido que muitos se casam, simbolicamente, com seus pais. Alguns procuram no companheiro a ternura que receberam da mãe, a firmeza que admiraram no pai, a proteção que lhes faltou, a aprovação que nunca alcançaram ou a segurança que perderam cedo. Outros, de modo paradoxal, escolhem pessoas semelhantes justamente àquelas que mais os feriram.

Quem cresceu em ambiente de frieza pode se ligar a alguém emocionalmente indisponível. Quem viveu sob autoridade rígida pode unir se a alguém controlador. Quem experimentou abandono pode insistir em relações instáveis, revivendo a angústia da espera. A psicanálise, desde Freud, mostrou que a vida amorosa adulta não está separada da vida infantil.

Melanie Klein, Donald Winnicott e Fairbairn aprofundaram essa compreensão ao demonstrarem que os primeiros objetos de amor tornam-se referências internas que influenciam as escolhas futuras, seja como fonte de segurança, seja como núcleo de repetição e sofrimento. Entretanto, nem toda repetição é sinal de adoecimento. Muitas pessoas buscam no casamento características positivas vividas na família de origem, como respeito, cuidado, diálogo, estabilidade, responsabilidade e confiança.

Nesse caso, casar se simbolicamente com aspectos dos pais não significa prisão ao passado, mas continuidade de uma matriz afetiva saudável. O problema começa quando o sujeito confunde o parceiro real com as imagens internas que carrega, ou quando exige do outro a reparação impossível de uma falta antiga.

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Nenhum cônjuge pode devolver plenamente uma infância perdida, substituir integralmente uma figura parental ausente ou apagar feridas profundas da história emocional. Quando isso acontece, a relação deixa de ser encontro entre dois adultos e passa a funcionar como cenário de cobrança, dependência, ressentimento e frustração.

Na sociedade contemporânea, marcada por vínculos frágeis, famílias fragmentadas, excesso de telas, pressa, instabilidade conjugal e empobrecimento das relações presenciais, essa reflexão torna se ainda mais necessária. Muitos jovens chegam à vida adulta com enorme carência de referências afetivas consistentes.

Alguns cresceram em lares fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes. Outros receberam cuidados materiais, mas foram privados de escuta, limite, presença e afeto estruturante. Há também os que viveram separações traumáticas, conflitos permanentes, negligência, superproteção ou inversão de papéis, tornando se filhos obrigados a sustentar emocionalmente os próprios pais.

Quando essas experiências não são elaboradas, podem reaparecer no amor adulto como ciúme excessivo, insegurança, medo de intimidade, dependência afetiva, desconfiança ou repetição de vínculos dolorosos.

A grande tarefa do amadurecimento humano consiste em reconhecer essas heranças sem permanecer aprisionado a elas. Tornar se adulto não significa negar os pais, mas compreender o que se recebeu, o que faltou, o que feriu, o que foi bom, o que merece ser preservado e o que precisa ser superado.

A história familiar influencia profundamente, mas não determina de modo fatal. O ser humano também é elaboração, liberdade, cultura, escolha, encontro e responsabilidade. Por isso, a frase “todos se casam com seus pais em algum momento da vida” deve ser compreendida como metáfora clínica, psicológica e antropológica, não como sentença definitiva. Ela recorda que o amor adulto é atravessado pela memória dos primeiros vínculos, mas também ensina que, ao compreender os pais dentro de si, o sujeito pode deixar de repeti-los cegamente e passar a amar com mais lucidez, liberdade e maturidade.

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Sobre Coluna de RUY PALHANO
Um dos mais aplaudidos médicos psiquiatras do Brasil, nascido no Maranhão.
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