Socorro Guterres
A seca no sertão foi descrita por grandes escritores, como exemplificam Euclides da Cunha ( Os sertões ); José Américo de Almeida ( A Bagaceira ); Graciliano Ramos ( Vidas Secas ) e uma jovem voz feminina que expôs também literariamente a aridez da terra sertaneja, Rachel de Queiroz ( O Quinze ), que aos 20 anos de idade nos concedeu a seca sob um olhar inovador. Primeira mulher a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a autora retrata nesse romance, com alma e concisão, o ano de 1915, da histórica e devastadora seca no Ceará, cujas condições climáticas impulsionaram o êxodo sertanejo. O livro é "magro e ligeiro", conforme analisa o crítico literário Davi Arrigucci Jr., porém tem "o viço de uma verdadeira obra de arte".
A seca na literatura nordestina expõe mais que um fenômeno climático, pois mostra a desigualdade social, a resiliência do povo sertanejo e a realidade das migrações. O Quinze revela o drama dos retirantes Chico Bento, sua esposa Cordulina e seus cinco filhos; assim como Vidas Secas relata a via sacra de Fabiano, Sinhá Vitória e seus dois filhos em busca de água e dignidade. Já A Bagaceira explana sobre a grande estiagem do sertão paraibano de 1898, e Os Sertões apresenta como um dos focos centrais o ambiente inóspito distanciado do litoral. Em todos está marcada a presença poderosa e indiferente do sol.
E as águas? E as altas montanhas que se apartam do solo lastimoso da seca? Eu queria conhecê-las e enveredei por esse percurso no Maciço de Baturité, região de mata úmida do Ceará, a cerca de 100 quilômetros de Fortaleza, com clima ameno e espessas neblinas, especialmente nas cidades de Guaramiranga e Pacoti. No Ceará sempre apreciei o aracati, vento que vem do mar e refresca as noites quentes. Então, nessa minha busca pelas alturas, quis ir além. Ao contrário do clima semiárido do sertão cearense, o Maciço funciona como um brejo de altitude que retém a umidade dos ventos, proporcionando vegetação atlântica exuberante. Ademais, as cachoeiras e a rica herança cultural, que inclui o cultivo do café, geram outros atrativos. É interessante destacar que os primeiros a desbravarem essas serranias foram os silvícolas, sobretudo os kanindés , mas pelo clima frio só adentravam ali para a prática da caça. Contudo, no século XIX, colonizadores fundaram um povoado com a denominação original de Conceição, que somente em 1890 passou a se chamar Guaramiranga; na língua tupi, pássaro vermelho.
Em Baturité, maior município da região, encontra-se o Mosteiro dos Jesuítas, fundado em 1922, como Escola Apostólica da Companhia de Jesus, construído em pedras toscas da região e localizado a 415 metros de altitude, voltado para a educação religiosa dos jovens, sob a disciplina inaciana. Atualmente funciona como hospedagem e atração turística. Mas voltando a questão introdutória: as áreas do sertão semiárido foram priorizadas devido a pecuária, polo econômico principal; e as serras úmidas, de encostas íngremes e mata densa, dificultavam o manejo dos rebanhos. Assim, penso que se concentrou o penar do sertanejo, o qual se viu limitado à combinação de fatores climáticos e de ações humanas, históricas e políticas. Voltando ainda ao início dessa conversa, as críticas sociais que vemos, sobretudo, em Graciliano e em Rachel de Queiroz, não se reduz à opressão dos poderosos sobre os desvalidos, que como o clima inóspito, subjuga o personagem Fabiano em Vidas Secas , e o vaqueiro Chico Bento, em O Quinze .
Por muito tempo me dediquei ao estudo da obra de Guimarães Rosa, que também aborda o contexto social de vivências no meio agreste, mas no autor mineiro não há uma visão pessimista, na verdade realista, do mundo rural, que expõe o homem como produto do meio em que vive, onde chuva e seca alternam sonho e realidade, prevalecendo, porém, a consciência da impossibilidade desse homem sertanejo em mudar o próprio destino. Os personagens de Guimarães Rosa, igualmente de extrema carência, confiam no destino, por força tanto de uma religiosidade popular quanto de uma vontade própria. Assim, a marcha de Fabiano, ou de Chico Bento, é árdua e improfícua, enquanto nos personagens de Rosa, como em Grande sertão : veredas , a travessia não é menos dura, contudo o desejo de cada um pode concretizar as aspirações buscadas. Nas vidas secas há privação da esperança. Em Rosa, o céu expõe-se como âncora dos sonhos. Nessa transcendência busquei a altitude de Guaramiranga, pássaro vermelho em densas neblinas, numa rota turística de fé em contemplação e conexão com a essência da existência. Afinal, como ensinou Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, "A vitória mais bela que se pode alcançar é vencer a si mesmo".
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