Vitória Duarte é convidada da Plataforma Nacional do Facetubes
Durante muito tempo, achei que nunca seria Macabéa.
Ela era a mulher invisível (fato). A mulher que pedia desculpas por existir antes mesmo de abrir a boca. A mulher que parecia aceitar um lugar pequeno no mundo porque nunca lhe ensinaram que poderia ocupar outro.
Eu a lia com compaixão. Mas sempre de longe...Até que um dia o espelho me chamou de Macabéa.
Não porque eu tivesse vivido sua história. Mas porque compreendi uma coisa que Clarice talvez soubesse desde o início: ninguém se torna Macabéa de repente.
Há dias em que somos lentamente convencidas de que ocupamos espaço demais.De que sonhamos alto demais.De que não somos bonitas o bastante, inteligentes o bastante, produtivas o bastante. E, pouco a pouco, vamos diminuindo. Não por humildade. Mas porque passamos a infância ouvindo que podemos ser tudo. Enquanto na vida adulta, passamos a maior parte do tempo tentando provar que merecemos ser alguma coisa.
Talvez seja por isso que tantas mulheres (assim como eu) reconheçam um pouco de Macabéa em si.
Não porque compartilham sua história, mas porque conhecem essa mulher que mede o próprio valor pelo olhar do outro. A mulher que acredita que precisa ser extraordinária para justificar a própria existência.
Durante anos, fiz da frase de Anaïs Nin um manifesto:
"Me nego a viver em um mundo ordinário como uma mulher ordinária.A estabelecer relações ordinárias. Necessito o êxtase."
Continuei admirando essa coragem. Mas, com o tempo, comecei a me perguntar: quando foi que o desejo de viver uma vida extraordinária deixou de ser liberdade e passou a ser cobrança?
Mas também me pergunto quanto peso colocamos sobre os ombros das mulheres quando transformamos o extraordinário em obrigação.
Quem cuida da mulher extraordinária quando ela cansa?
Quem diz a ela que descansar não é fracassar?
Quem a convence de que sua dignidade não depende da produtividade, da beleza, do sucesso ou do reconhecimento?
Talvez seja por isso que, aos vinte anos, os versos de Alejandra Pizarnik tenham me atravessado de uma forma bem brusca:
“Tengo veinte años.
También mis ojos tienen veinte años.
y sin embargo no dicen nada.”
Há um cansaço que não tem idade. Há mulheres muito jovens que já aprenderam a se olhar com dureza.E talvez essa seja uma das maiores tragédias do nosso tempo.
Passamos tanto tempo procurando ser extraordinárias que esquecemos de ser íntimas de nós mesmas.
Quem nunca passou tanto tempo procurando o profundo nos outros e acabou se esvaziando de si? Foi nesse vazio que encontrei Macabéa. Ela é um espelho. E o mais assustador dos espelhos não é aquele que nos mostra quem somos. É aquele que nos convence de que somos menos do que realmente aparentamos ser.
Mulheres, talvez a grande tarefa da vida não seja tornar-se “extraordinária”. Talvez seja impedir que o mundo nos faça esquecer quem somos. E o “êxtase” é poder escolher se deixar ser qualquer coisa que não precise necessariamente ser incrível, porque entre uma volta e meia, ser e não ser, sangrar o ano inteiro sem morrer já é muito.
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