Carlos Furtado
Há dez anos, venho experimentando uma travessia fascinante: viajar pelo mundo da literatura de forma mais enfática, participativa e presente. É um espaço que, em verdade, habita-me desde a puberdade. Ainda são latentes as lembranças do tempo em que, menino ainda, fazia a pé o trajeto de ida e volta, junto com meus irmãos, desde as proximidades da Avenida Kennedy, no bairro da Vila Passos — bem no finalzinho da Rua Catulo da Paixão Cearense (atual General Osório) —, até o Colégio Municipal Luís Viana, no bairro da Alemanha, em São Luís-MA.
É interessante salientar duas circunstâncias daquele tempo. Meu pai, na época, não dispunha de veículo e, no mesmo horário, tinha de seguir para o seu trabalho: como policial militar, deslocava-se muito cedo para o quartel na antiga Rua da Palma. Por outro lado, o serviço de táxi na década de 1970 era caro para as nossas condições familiares, e o transporte público exigia dois trechos para completar a jornada, pesando também no orçamento para manter três filhos ao longo dos trinta dias do mês, além de poucas compensações em sua utilização.
Assim, o percurso a pé era o mais indicado, e o realizávamos alegremente. Sempre havia novidades na ida e na volta: ora um cão ladrando, às vezes um tanto agressivo; ora uma fruta que despencava de algum galho debruçado sobre a rua; ora o encontro com algum "doido" pois em geral, o encontrávamos vez que passávamos por detrás do muro do hospício no bairro Monte Castelo, ou ainda outra curiosidade qualquer da cidade. Mas uma coisa, em especial, chamava-me profundamente a atenção: os muros pintados com frases, quadras e pensamentos do saudoso poeta Emílio Ayoub.
Emílio Ayoub era fantástico; embalou minha infância. Próximo de minha casa, na Rua Catulo da Paixão Cearense — entre o Anel Viário e a Avenida Kennedy —, a família Ayoub possuía propriedades com longos muros, e creio que ali era o reduto com o maior número de mensagens. Gostava de caminhar vagarosamente para ler aquelas obras-primas ao ar livre, como bem eternizava em versos inesquecíveis:
"Quando os lábios não se tocam
no momento da partida,
são sempre os olhos que trocam
o beijo da despedida".(E.AYOUB)
Ou ainda aquela outra verdade profunda:
“Não se faz amor, sem antes tocar a alma.” (E.AYOUB)
Ah, aqueles muros... Eles eternizavam e embalavam meu coração de menino e adolescente, quando eu já ensaiava os meus primeiros escritos.
Quantas mocinhas fiz dar "gritinhos" ao receber pequenas quadras românticas da minha autoria! Era um mundo diferente do de hoje; evidentemente, ainda se lia, viajava-se no mundo da imaginação e a literatura possuía um outro peso, um outro significado na alma da gente.
Mas, como bem disse Luiz Thadeu em sua crônica “Não há nada que resista ao tempo”, um texto sensível publicado no Portal Único de Manaus que costura literatura, filosofia, história e experiência pessoal — dele, que é um cronista espetacular da atualidade maranhense —, o tempo passa inexorável.
Contudo, as marcas que a poesia deixa na infância nunca se apagam. Os muros se foram ou mudaram de face, mas o menino da Vila Passos continua a caminhar, agora de lápis e pena em punho, descobrindo que a verdadeira literatura é aquela que a gente aprende a ler com os passos da vida.
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