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Brasil São João (MA)

Do historiador Carlos Furtado:“Moisaco de Cores, Ritmos e Tradições”

Carlos Furtado é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

27/06/2026 11h11 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Historiador Carlos Furtado (Autor)
Técnica “Espátula sobre tela”. (GinaiFT c/mhl.)
Técnica “Espátula sobre tela”. (GinaiFT c/mhl.)

Obs: a ilustração foi feita com GinaiFT (Facetubes' artificial intelligence), com arquitetura de prompts de mhl. Técnica: "Espátula sobre tela".

Cel. Carlos Furtado, Historiador

Há um momento do ano em que o Maranhão parece reencontrar sua própria alma. As primeiras chuvas já se despediram, o céu ganha novos tons, as ruas se enfeitam de bandeirinhas coloridas e, ao longe, começam a ecoar os sons das matracas, dos pandeirões, dos tambores e dos maracás. É o anúncio de que chegou o período junino, a época mais aguardada pelos maranhenses e uma das mais extraordinárias manifestações culturais do Brasil.
O Maranhão possui um dos mais ricos calendários culturais do país. Aqui, tradição e identidade caminham de mãos dadas, preservando expressões que atravessam gerações. Não por acaso, manifestações como o Bumba-meu-boi e o Tambor de Crioula receberam da UNESCO o reconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ao lado deles florescem outras preciosidades da cultura popular, como o Cacuriá, a Dança Portuguesa, a Dança do Caroço, as Quadrilhas Juninas e tantas outras brincadeiras que fazem do Estado um verdadeiro mosaico de cores, ritmos e emoções.

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Antigamente, os festejos começavam no dia de Santo Antônio, em 13 de junho, e se estendiam até o dia de São Marçal (santo não reconhecido pela igreja católica, mas, celebrado pelo povo maranhense em 30 de junho) com uma avenida em São Luís-MA, em sua homenagem. Eram dias intensos, aguardados durante todo o ano. As famílias preparavam suas roupas, os grupos ensaiavam suas apresentações e os arraiais tornavam-se pontos de encontro onde fé, alegria e convivência comunitária se misturavam harmoniosamente.
Com o passar do tempo, a festa cresceu. Primeiro ocupou todo o mês de junho. Depois, na década de 1990, com a criação dos chamados “Vivas”, promovidos em praças e logradouros públicos, os festejos avançaram também sobre o mês de julho. O que já era grandioso tornou-se ainda maior. A cultura popular ganhou novos espaços, mais visibilidade e passou a atrair visitantes de todas as regiões do Brasil e de diversas partes do mundo.

Mas a beleza dos festejos maranhenses não reside apenas na música ou na dança. Ela se revela também nos detalhes cuidadosamente preparados por mãos habilidosas e apaixonadas pela tradição. São os adereços que transformam os brincantes em personagens mágicos e fazem de cada apresentação um espetáculo visual inesquecível.

No Bumba-meu-boi, os bordados parecem contar histórias. Canutilhos, lantejoulas, pedrarias e miçangas são costurados pacientemente ao longo de meses, formando desenhos que brilham sob as luzes dos arraiais. O couro do boi, verdadeiro símbolo da manifestação, torna-se uma obra de arte, carregando a criatividade e a dedicação de artesãos que perpetuam um saber secular.

As índias e os índios exibem cocares majestosos, colares, braçadeiras e vestimentas coloridas que evocam a importante contribuição dos povos originários para a formação cultural maranhense. Os caboclos de pena e os caboclos de fita desfilam com impressionantes indumentárias, cuja exuberância parece competir com as cores do próprio arco-íris.

No Tambor de Crioula, as saias rodadas das coreiras giram ao compasso dos tambores, desenhando círculos de beleza e ancestralidade. Os turbantes, colares e adornos refletem a herança africana que ajudou a moldar a identidade cultural do Maranhão. Cada movimento carrega memórias, resistência e celebração da vida.

O Cacuriá, com sua irreverência contagiante, apresenta vestidos coloridos, flores e fitas que traduzem a alegria espontânea do povo. As Quadrilhas Juninas, cada vez mais sofisticadas, encantam com figurinos ricamente elaborados, chapéus ornamentados, vestidos bordados e cenários que transformam os arraiais em verdadeiros teatros a céu aberto.

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Já a Dança Portuguesa impressiona pelo requinte de suas vestes, coroas, mantos e joias cenográficas, revelando a forte influência lusitana na formação da cultura local.

Por trás de cada adereço existe uma história. Há mães, pais, avós, costureiras, bordadeiras, artesãos e mestres da cultura popular que dedicam incontáveis horas de trabalho para que a tradição continue viva. Muitas vezes, o brilho que encanta o público esconde noites inteiras de dedicação silenciosa, movida apenas pelo amor à cultura e pelo compromisso de preservar um legado recebido dos antepassados.
Talvez seja exatamente por isso que os festejos juninos do Maranhão emocionem tanto. Eles não são apenas apresentações folclóricas. São manifestações vivas da identidade de um povo. São a memória coletiva transformada em dança, música, cor e fé. São o testemunho de uma sociedade que soube preservar suas raízes sem abrir mão de se reinventar.

Quando chega junho, o Maranhão veste seu melhor traje. Não um traje de luxo comprado em vitrines, mas uma indumentária tecida pela história, bordada pela tradição e iluminada pelo orgulho de um povo que reconhece em sua cultura o seu maior patrimônio.

E enquanto houver uma matraca ressoando na noite, um pandeirão marcando o compasso, uma coreira girando sua saia ou um boi atravessando os arraiais sob o olhar encantado de crianças e adultos, permanecerá viva a certeza de que a maior riqueza do Maranhão não está apenas em seus monumentos ou paisagens, mas na alma de seu povo, que todos os anos se renova e floresce ao som das festas juninas.


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