Editoria Carnavalesca de Literatura e Arte c/ Fontes utilizadas(*)
A Favela do Samba definiu a música que carregará a história do Grupo de Arte Maria José Aragão, o GAMAR, no Carnaval de São Luís de 2027. Carlos Boniek e Josiel Costa venceram o concurso realizado na quadra da escola, no Sacavém, depois de uma seleção que começou com cinco composições e chegou à etapa final com três concorrentes. O resultado foi decidido por nove jurados ligados à escola. O samba passa agora para a fase de preparação musical, gravação e adaptação à identidade rítmica da Bateria Carcará.
O enredo “GAMAR: O Mágico Semear de Artes, Sonhos e Transformações”, criado pelo carnavalesco Pedro Padilha, oferece ao desfile uma estrutura que se aproxima da dramaturgia. Existe um personagem central, o próprio GAMAR. Existem origem, percurso, conflito social, formação artística e consequência. A avenida recebe uma história que nasceu dentro da escola pública e se ampliou para o teatro, a dança, a poesia, a música e outras formas de criação.
A composição de Boniek e Josiel entendeu esse princípio. A letra não trabalha apenas com uma sucessão de nomes. Ela organiza referências como quem monta cenas. “A arte que transforma entra em cena” funciona como abertura. Em seguida aparecem POEMAR, poesia, liras, musas, Dom Quixote, Lampião, Catirina, carcará, moinhos, pajé, mar e Vodum. Cada imagem conduz à seguinte e forma uma sequência de memória cultural.
Essa construção tem valor particular quando observada sob a lógica narrativa do cinema. Uma obra audiovisual depende de montagem para transformar fragmentos em continuidade. O samba escolhido segue caminho semelhante. As referências entram como planos curtos de uma história maior. Shakespeare aparece pela memória de “Sonho de uma noite de verão”. A literatura de cordel surge na referência a Lampião. Catirina leva o texto ao universo do bumba meu boi. O Vodum amplia a narrativa para matrizes africanas. O carcará aproxima a letra da própria identidade rítmica da Favela do Samba.
O GAMAR possui história suficiente para sustentar esse roteiro. A Secretaria de Estado da Educação do Maranhão registrou, em outubro de 2019, que o grupo havia surgido como desdobramento do projeto de leitura e escrita “Palavras ao Vento”, desenvolvido no Centro de Ensino Maria José Aragão, na Cidade Operária. Segundo a mesma fonte, cerca de 4.500 crianças, adolescentes e jovens já haviam tido contato com as atividades do projeto em aproximadamente 18 anos de atuação. O repertório incluía dezenas de espetáculos de teatro, dança e cultura popular.
Entre essas montagens está “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, trabalho que rendeu ao grupo o primeiro lugar no Festival de Teatro Estudantil em 2002. Outro espetáculo, “O Desejo de Catirina”, venceu o mesmo festival em 2015. Também aparecem no histórico do grupo montagens como “Um Roubo no Olimpo”, “Baião de Seis”, “O Livro Mágico”, “Tonico e Florzinha” e “Três Gotas de Poesia”. O registro oficial ajuda a compreender por que a letra vencedora se apoia em tantas imagens. Elas não surgem como decoração. Fazem parte do repertório construído pelo GAMAR ao longo dos anos.
A relação com a Favela do Samba também antecede o Carnaval de 2027. Segundo informações divulgadas durante o processo de escolha do enredo, o grupo participa de trabalhos relacionados à agremiação desde 2001. O tema dedicado ao GAMAR já havia aparecido entre os cinco mais indicados em uma consulta pública que reuniu 42 sugestões. Para a disputa musical de 2027, cinco sambas foram inscritos inicialmente, quatro originários da Região Metropolitana de São Luís e um de Belém, no Pará.
A seleção reduziu esse conjunto a três finalistas. Carlos Boniek e Josiel Costa disputaram a decisão com Dominguinhos Lopes, Vilmar de Oliveira e Quirino Santos, além de Claudio Patriarca e Ademar Carneiro. Antes da escolha, as obras passaram por ensaios com a Bateria Carcará, comandada por Mestre Júlio. O processo mostra uma etapa essencial de qualquer samba-enredo: a letra precisa funcionar fora do papel. Precisa respirar com bateria, intérprete, harmonia e comunidade.
O critério é semelhante ao que separa um roteiro escrito de um filme realizado. No papel, existe projeto. Na execução, entram tempo, corpo, voz, movimento e reação coletiva. O samba vencedor agora atravessa exatamente essa passagem. A direção da escola informou que a música será trabalhada pelos intérpretes, pela harmonia e pela Bateria Carcará antes da gravação definitiva.
A escola apresentou também o figurino concebido por Remy Andrade a partir do roteiro de Pedro Padilha. Esse dado amplia o alcance do projeto. Carnaval é linguagem visual. A letra apresenta personagens, ambientes e símbolos. Figurino e alegoria terão a tarefa de converter essas palavras em imagem. Música, corpo, cor, movimento e espaço formarão a unidade final do desfile.
O trecho final da composição resume o caminho proposto pelos autores. A narrativa deixa as referências individuais e chega ao sentido de continuidade. A semente lançada pelo GAMAR aparece como criação transmitida entre gerações. O samba encerra esse percurso dentro da própria escola de samba, fazendo a memória do grupo desembocar na comunidade que a levará para a avenida.
Esse talvez seja o ponto de maior força narrativa do enredo. A Favela do Samba não recebeu apenas uma biografia para transformar em carnaval. Recebeu um acervo de personagens, peças, poemas, danças, experiências escolares e histórias humanas. Boniek e Josiel organizaram parte desse material em forma de canto. Pedro Padilha construiu o eixo do enredo. Remy Andrade começa a converter o roteiro em figurino. Mestre Júlio e a Bateria Carcará assumem agora o ritmo dessa história.
Em 2027, o julgamento acontecerá na avenida. Até lá, existe um trabalho de montagem pela frente. Como ocorre no cinema, cada elemento precisará encontrar o seu lugar dentro da narrativa. O GAMAR forneceu a história. A Favela do Samba começou a transformá-la em espetáculo.
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(*) Fontes utilizadas: documentos oficiais encaminhados à Plataforma Nacional do Facetubes sobre o resultado do concurso e a composição vencedora; Secretaria de Estado da Educação do Maranhão, reportagem “Gestor de escola estadual oportuniza a estudantes transformar suas vidas por meio das artes”, de 20 de outubro de 2019; O Imparcial, cobertura do concurso de samba-enredo da Favela do Samba, setembro de 2026; Imirante, “Favela do Samba faz concurso para samba enredo de 2027”, de 17 de setembro de 2026; Jornal Pequeno, “Favela do Samba escolhe samba-enredo e apresenta figurino para 2027”, de 25 de setembro de 2026; Plataforma Nacional do Facetubes, cobertura do processo de escolha do samba-enredo para o Carnaval de 2027.
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