Dino de Alcântara
Esse conto-anedota foi-me “ditado” pelo autor de A serpente de bronze. Apenas tive o “trabalho” (na verdade, diversão) de desfigurar suas personagens e reconfigurá-las no cenário maranhense, para dar mais cor local.
Naquela noite de 1951, em que a greve quase fecha a cidade de São Luís para a velha política, dois marinheiros do Liberal, barco do Cujupe, comandado com valentia pelo mestre Benedito, desembarcaram tarde da noite no Portinho. Não conseguiram, por conta do horário e da maré baixa, entregar a carga que haviam trazido.
Então Zezão, o mais velho e mais afoito dos dois, junto com Feliciano, foram, com autorização do mestre, vadiar pelas ruas da cidade.
Tinham endereço certo. O cabaré de Das Dores, no Portinho mesmo. Mas chegando lá, como era tarde, já estava fechado. Decepção. Subiram a rua Afonso Pena atrás de alguma zona aberta. Nada. Tudo fechado. Na quitanda de Zé Baiacu, nem sinal de que ali se bebia até tarde da noite. E não eram nem 11 horas da noite, já tudo quiriri. Dobraram na Jacinto Maia, entraram na Rua da Palma. Nada. Não tinha viva alma na rua.
Andaram mais um pouco. Devia haver alguma puta em algum desses casarões, pensava Zezão. Mas nada. Não viam nem vaga-lume nas ruas. Só as luzes de alguns postes é que deixavam a rua menos escura.
Cansados, sentaram os dois numa calçada de um sobrado. Se olhassem para cima, veriam a Madalena, amparada na sacada. Ela, sozinha, espiava a calmaria da rua. Até que dera com os dois homens, vindo na direção do sobrado. Já fazia mais 4 anos que não sabia o que era um homem. Um homem, a bem dizer, dentro de casa, na cama, lhe fazendo de mulher. Fazendo-lhe o corpo todo estremecer, assim como fizera o seu marido, tão precocemente arrebatado da vida. E nem tivera tempo de aproveitar. Foi só um ano de casada. Tentara várias vezes aproximar-se de algum homem para refazer a sua vida. Nada. Sem sexo não haveria completude na vida. Deus lhe fizera para amar, para ter homem dentro de si, varando-lhe a carne, fazendo-a gritar de prazer.
Não conseguira homem nenhum. Primeiro eram os novos. Não achou. Depois os mais velhos. Não os encontrou. Tentou os mais velhinhos. Sem êxito. Tentou os homens alheios. Em vão. Mas não se acostumaria nunca com a vida sem prazer, sem homem na sua cama.
Agora estava ali, observando aqueles dois. Se tivesse coragem, desceria e os convidaria para tomar uma xícara de café. Certamente eles não eram de São Luís. Iam aceitar. O duro era eles não aceitarem. Ficou quieta, olhando.
Na calçada, os dois em silêncio. Aí Zezão percebeu que não encontrariam nada na cidade.
– Rapaz, nem puta tem mais na cidade!
– É o que tá parecendo!
Olhando de um lado a outro da rua, para ver se encontrava alguma alma penada:
– Olha, vou te dizer uma coisa:
– Diz, Zezão.
– Se aparecesse uma cachorra por aqui agora, eu corria e pegava ela. Vadiava com ela na rua mesmo. Duvida?
Ao que, lá em cima, sem nenhum pudor, Madalena não se conteve. Soltando um latido cheio de desejos, desferiu:
– Au, au, au!
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