Dino de Alcântara
Quando a Lucinha chegou com as suas coisas (uma mala grande, um baú com apetrechos, um espelho de parede, etc.) à casa do Coronel Serqueira, na Fonte do Ribeirão, depois de um casamento no civil, bem simples, celebrado pelo juiz Dr. Bentivi, ele achou por bem dar uns conselhos a sua esposa.
18 anos, filha de gente de Alcântara, Lucinha não era propriamente uma mulher de muitas exigências. Isso o coronel percebeu logo que tratou com os pais dela sobre o casamento. Mas ouviu da mãe uma questão preocupante: a filha era muito possessiva. Não ia admitir as saídas do marido, que, as más línguas falavam, tinha um defeito: era dado às saídas noturnas.
O coronel, 50 anos bem vividos, no terceiro casamento, depois que acomodou a esposa, chamou-a para a varanda da casa para uma conversa, isto é, uns conselhos. A conversa foi longa, enveredou por diversos assuntos, como filhos, asseios, limpeza das partes íntimas, etc. Aí de mansinho, como um pai, entrou no assunto:
– Tu vês uma plantinha. O casamento é como uma plantinha. Se tu pegas uma plantinha e cuida dela como um brinquedo, botando no colo todos os dias, tirando a liberdade dela, ela vai murchar e morrer. É preciso dar boa terra, boa água e deixá-la livre, no sol, para que possa crescer livre. Assim é o casamento. Tua mãe me falou que és uma pouco possessiva. Olha, benzinho, isso só estraga os casamentos.
Ela balançou a cabeça, como se concordasse.
– Então, o que eu quero dizer é que, algumas vezes, eu, como sou coronel, como bem tu sabes, preciso sair à noite, sozinho, porque é assunto de homem, e tu vais ficar em casa me esperando.
Ela baixou a cabeça, como se estivesse atônica. Finalmente assentiu. Disse que ia pensar.
Pensou. Concordou com o esposo. Deixaria que ele saísse duas vezes na semana. Só queria ser avisada com antecedência, para não programar nada nessa noite.
Serqueira, tentando controlar um risinho malicioso, abraçou a mulher e a beijou na testa.
***
Algum tempo depois, o coronel Serqueira era todo alegria. Nas noites de quarta e sexta, as pândegas noturnas, ora no Cabaré da Lola, ora na Boate Sexus, o faziam um dos homens mais felizes da cidade. Dizia aos amigos de farra, que sempre soubera dar bons conselhos às esposas. Essa tinha sido a mais fácil de dobrar. Não precisou nem argumentar muito. E ria como se fosse um sheik rodeado de mulheres.
***
Numa noite de sexta, com ventos fortes soprando das bandas do Anil, uma rede com varandas grandes fazia ranger as escarpas já um tanto gastas pelo tempo. Dentro dela, dois corpos viajavam pelas ilhas do prazer. Lucinha se sentia como uma plantinha tomando o seu sol.
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