DINO DE ALCÂNTARA
Andam geralmente errados os compêndios de História Pátria: o Brasil não foi descoberto em 1500.
Passaram por aqui, é certo, nessa época, uns portugueses, em demanda das Índias. Pisaram um trecho do nosso litoral e aí mandaram um frade cantar missa e derramar água benta. Em seguida, recambiaram para a terra um do troço, a contar ao seu rei a grande novidade. O rei, mais contente do que um bode cheio de facadas, aparelhou expedições para explorar os novos territórios da sua coroa.
Os que depois dele vieram, pelo mesmo conseguinte continuaram. Fomos governados por donatários de capitanias, governadores-gerais e vice-reis. Um belo dia, de comum acordo com a metrópole amada, fizemos a nossa independência, por processos aperfeiçoadíssimos: um grito que ninguém ouviu, à margem de um riozito do sul, que ninguém conhecia, festanças em teatros, aluguel de um inglês para vir dar patriotismo a quem não tivesse (por sinal que o dito inglês até nos deixou, como lembrança, a sua âncora) e etc. e etc.
Passamos então a ser governados por um imperador. Decorreram os tempos, e noutro belo dia, como não estivéssemos mais para massadas, mandamos passear o dito imperador e fizemo-nos república, com muita patuscada, muito foguetório, muita retórica, etc., etc. Felizmente, desta vez, não sentimos necessidade de apelar para o inglês de aluguel, pois que toda a gente, mal que ouviu falar em republica, aderiu logo.
Mas, a despeito de todas essas contradanças e reviravoltas, de todos esses feitos gloriosos que brilham nas páginas douradas da nossa história, como para aí conclamam, enfunados, os oradores, sempre lhes estou a dizer que continuamos encobertos. No velho mundo civilizado, ignora-se a nossa existência. Sabe-se apenas, e isto mesmo numa roda muito restrita, que, para estas bandas da América, se acha situado um país quase selvagem, com uma população, na sua maioria, ainda no primeiro período do estado teológico...
(A partir desse ponto, o cronista passa a falar de um projeto de Rio Branco para apresentar o Brasil ao mundo científico, trazendo muitos cientistas para estudarem o país e escreverem para o mundo nos conhecer melhor...) In Antônio Lobo. Pela Rama (Crônicas). São Luís, Imprensa Oficial, 1911.
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