Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
A memória das artes cênicas maranhenses passa pelos gestos transmitidos entre gerações, pelas experiências dos artistas e pelas instituições que formam atores. Dois livros ajudam a conhecer esses caminhos: Represas do Tempo, de Tiyê Macau, e Centro de Artes Cênicas do Maranhão (CACEM): Memórias e Resistência de uma Escola de Teatro, de Gilberto dos Santos Martins. O primeiro aproxima corpo, ancestralidade e criação. O segundo investiga a construção de uma escola e as condições do ensino teatral em São Luís.
Em Represas do Tempo, a escrita participa de uma pesquisa que atravessa dança, performance, história e transmissão de saberes. Segundo a apresentação do Festival Panorama, o livro resulta de mais de dez anos de investigação e combina ensaio com escrita ligada à experiência cênica. Seu campo de interesse envolve as relações entre criação e território e as maneiras de produzir conhecimento a partir de vivências tradicionais. A apresentação do projeto pelo Ceará Criativo também destaca a presença da oralidade e das perspectivas negras, indígenas e afro-indígenas.
Maranhense e graduado em Teatro pela Universidade Federal do Maranhão, Tiyê Macau realizou mestrado em História Social na Universidade Federal do Ceará. Seu percurso aproxima pesquisa acadêmica e prática artística. Entre os territórios mencionados na apresentação de seu trabalho estão a Ilha dos Lençóis, no Maranhão, e o Quilombo do Cumbe, no Ceará. Nesse contexto, lembrar envolve escutar, observar e reelaborar experiências que continuam presentes nas comunidades e nos corpos de quem cria.
A circulação do livro também incorpora a cena. No Festival Panorama, sua apresentação foi concebida como uma ação que reúne trechos da obra, filmes, objetos e sonoridades, com participação do autor, de artistas convidados e do público. Esse formato permite compreender a proposta de Tiyê: a palavra escrita integra um trabalho que também se realiza pela voz, pelo movimento e pelo encontro. A ficha divulgada pelo festival credita o prefácio a Leandro Bulhões, o posfácio a Amandyra e o projeto gráfico a Beatriz Matuck.
Gilberto dos Santos Martins concentra sua investigação nas pessoas e nas decisões que tornaram possível uma escola de teatro em São Luís. Publicado pela Paco Editorial, o livro sobre o CACEM nasceu de sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Uberlândia. O estudo acompanha o período de 1997 a 2007 e utiliza a história oral para reunir memórias de professores, alunos e colaboradores. A formação do ator aparece vinculada ao cotidiano escolar, às escolhas pedagógicas e às relações com o poder público.
A pesquisa recupera a origem do CACEM no Curso Livre de Formação de Atores promovido pela Companhia Oficina de Teatro, a COTEATRO, no início dos anos 1990. A regularização no Conselho Estadual de Educação, em 1997, marcou a transformação dessa experiência em escola técnica de nível médio. O recorte examina as gestões de Tácito Borralho, de 1997 a 2003, e Domingos Tourinho, de 2003 a 2007. Esses marcos ajudam a identificar quem participou da construção da escola e como a formação teatral ganhou estrutura institucional.
O trabalho de Martins inclui avaliações divergentes sobre a instituição e procura compreender as razões dessas diferenças. O autor explica que sua investigação considera o funcionamento da escola, sua relação com a classe artística e os desafios da profissionalização. O livro oferece, assim, elementos para discutir o ensino de teatro a partir de experiências documentadas. A história da instituição se torna também uma história de trabalho, aprendizagem e negociação das condições de fazer arte.
A aproximação entre as obras permite pensar a preservação da memória artística em duas frentes: o registro dos saberes que circulam nas práticas de criação e a investigação das estruturas que sustentam a formação. Para o Maranhão, esse debate interessa a artistas, professores, estudantes e leitores. Conhecer a trajetória de uma escola e acompanhar pesquisas sobre corpo e ancestralidade amplia as referências disponíveis para compreender quem produz arte, como aprende e de que maneira transmite sua experiência.
As obras em poucas linhas
Represas do Tempo — Tiyê Macau. Reúne ensaio, memória e escrita relacionada à performance para investigar corpo, ancestralidade e criação artística. Aproxima pesquisa histórica, oralidade e experiências territoriais. O resumo se baseia nas apresentações públicas do projeto; não foi possível consultar o livro integralmente.
Centro de Artes Cênicas do Maranhão (CACEM): Memórias e Resistência de uma Escola de Teatro — Gilberto dos Santos Martins. Examina a constituição do CACEM, a formação de atores e as relações entre escola, artistas e poder público. Tem origem em pesquisa sobre os anos de 1997 a 2007, construída com depoimentos e investigação histórica. O catálogo da Martins Fontes registra a edição da Paco Editorial com 344 páginas e ISBN 9788546217892.
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