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DANIEL BLUME: O JARDIM COMO LUGAR DE ENCONTRO ENTRE O AMOR E A LIBERDADE DE SER

Em “Cartas ao Jardim”, o poeta trabalha a relação entre afeto, identidade e natureza. Seus versos encontram no amor uma forma de aproximação que preserva a individualidade.

20/10/2026 13h11 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Daniel Blume
Arte: MHL/GinaiFT (Daniel Blume)
Arte: MHL/GinaiFT (Daniel Blume)

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln*.

A mim me trouxe muita felicidade ver a artista Susana Pinheiro, da Academia Poética Brasileira (APB-RIO), declamando a poesia "Cartas ao Jardim", do amigo Daniel Blume, da Academia Maranhense de Letras. Susana foi muito acuidosa ao escolher esse poema para mostrar em suas redes sociais. Não foi à toa essa escolha.

Encanta ler quem trata de uma questão que atravessa a existência humana: a necessidade de conviver com o outro sem perder a própria identidade, de forma tão real. Essa é a chave onde o poeta encontra sua síntese ao escrever: 
“descobri que o outro / pode até complementar-te, / jamais completar-te.” 

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A afirmação desloca o amor da ideia de dependência para a experiência de convivência. Ninguém nasce como metade de outra pessoa porque eu acredito que amar é, antes de tudo, reconhecer a existência de alguém que possui história, vontades e caminhos próprios. 

Livro Bilingue

Essa compreensão também alcança a vida em sociedade, onde as relações frequentemente são submetidas à posse, à expectativa de obediência e ao desejo de transformar o outro numa extensão de nós mesmos. Blume apresenta uma alternativa pela linguagem do afeto, excepcionalmente bem construída; coisas de bons pensadores.

Destarte, o poema avança quando o autor escreve que a relação é “a conciliação / do eu comigo”. Mais uma vez, Blume mostra a presença da pessoa amada provocando um encontro do indivíduo com sua própria consciência. O recurso à linguagem — hiato, número ímpar, interjeição — amplia o sentido dessa descoberta. 

Como um relojoeiro exímio, ele coloca cada palavra em sua função; até mais que uma simples definição gramatical. O hiato sugere a preservação das diferenças; a construção reafirma a singularidade do verso; a interjeição introduz a força da emoção. O resultado é uma linguagem em que o pensamento não interrompe a poesia. Participa dela. E isso é sensacional e bem difícil no fazer poético.

 

Fiquei mais encantado ainda quando li em Blume essa sequência lírica, onde a paisagem é uma expressão da experiência afetiva. Sua Flor também é sol, lua, estrela, cachoeira, maré, rio. A natureza assume as dimensões de uma relação humana. 

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Contudo, o que mais me alertou foi: “é sinal de que existe / um jardim / na minha natureza.” Isso é grandioso porque o jardim - deixa de ser um simples jardim poético - e passa a representar aquilo que o indivíduo conseguiu cultivar dentro de si. Há uma consequência dessa escolha poética. 

Especialmente numa sociedade que frequentemente associa felicidade à conquista, ao acúmulo e ao reconhecimento público, Blume procura sua medida na capacidade de sentir e conviver, mostrando que seu trabalho merece reconhecimento plural pela construção de uma reflexão sobre o amor sem recorrer àqueles discursos chatos da submissão sentimental. 

Parabéns, nobre amigo. Seja sempre bem-vindo.

*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

 

O LIVRO. "A poesia de Blume atenta para a contemporaneidade, um ser antenado com os referenciais e as rotas do seu tempo, sem esquecer dos que bateu à porta quando caminhava no seu Inicial, livro de estreia e, posteriormente, penal, onde o poeta já evidencia a autoridade do discurso poético, em querer permanecer nas ruas de agonia de Sousândrade. Nesta edição bilíngue de Resposta ao terno / An answer to the suit é uma bela amostragem de seu estro poético. Os poemas são apresentados em português e inglês, ampliando o alcance da obra e permitindo que a poesia de Daniel Blume dialogue com leitores de diferentes línguas e contextos." (AMEI).

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Abaixo, texto original de Daniel Blume. Integra seu livro “Resposta ao Terno”.

CARTAS AO JARDIM

Minha Flor,
descobri que o outro
pode até complementar-te,
jamais completar-te.

Assim Flor,
nossa intercessão
é meu hiato,
meu número ímpar,
minha interjeição.

É a conciliação
do eu comigo,
na singularidade
do ser poeta,
como uma forma transversa
de ver e de sentir
o mundo no anverso
de seu caleidoscópio.

Planta gentil que se alonga
três mil quilômetros
para me alcançar.

Não é apenas Flor,
é sol, lua, estrela,
cachoeira, maré gorda,
rio e barra grande.

Flor,
descobri que,
enquanto os pássaros cantarem,
é sinal de que existe
um jardim
na minha natureza.

 

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