Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, editor-sênior.
A poesia começa quando a experiência deixa de ser somente de quem escreve e passa a fazer parte da vida de quem lê. Assim, ser poeta é escrever para que alguma coisa da experiência humana continue existindo depois de nós.
A intenção neste texto é sair 'rapidinho' do que é normal se falar, em dias como o de hoje. Especialmente porque "ser poeta", não é só escrever com rimas. Mas sim, dar sentido àquilo que a vida coloca diante dos olhos. A poesia nasce da memória, da observação, da dor, do desejo e da necessidade de transformar experiências em palavras. Pode estar numa pedra, numa criança com fome, no corpo de quem ama ou no silêncio de quem perdeu alguém. Não depende de sofrimento para existir. Depende da maneira como o poeta trabalha a linguagem e estabelece uma relação com o leitor. O poema deixa de pertencer somente a quem o escreveu quando passa a fazer parte da experiência de outras pessoas.
A história registra escritores que enfrentaram as convenções de seu tempo. Em 1884, Paul Verlaine publicou Les Poètes maudits, reunindo estudos sobre Tristan Corbière, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé. Os chamados Poetas Malditos romperam padrões de linguagem e comportamento. Baudelaire, com As Flores do Mal, de 1857, já havia colocado o desejo, a decadência e a vida urbana no centro da poesia. Em outro caminho, o brasileiro Manoel de Barros encontrou valor naquilo que a sociedade desprezava. Pedras, insetos, latas e objetos abandonados passaram a ocupar seus versos. Em Matéria de poesia, escreveu: “As coisas sem importância são bens da poesia”. Sua obra mostrou que a simplicidade também exige elaboração e que nenhum assunto é pequeno quando encontra sua expressão.
A poesia também participa da história social. Solano Trindade por exemplo, escreveu sobre racismo, escravidão, desigualdade e resistência negra. Em Cantares ao meu povo, de 1961, deu voz a experiências que a sociedade brasileira insistia em deixar à margem. Ferreira Gullar, durante o exílio em Buenos Aires, escreveu Poema Sujo, superconhecido, publicado em 1976, recuperando a infância em São Luís, a memória do corpo e as marcas da ditadura. Na América Latina, Pablo Neruda, com Canto General, de 1950, reuniu episódios da exploração, do trabalho e das lutas dos povos do continente. São poetas com sede social nos olhos e que transformaram acontecimentos de seu tempo em literatura e fizeram da palavra uma forma de testemunho.
Claro que o erotismo também ocupa outro território: da liberdade poética. E por que, não; já que a poesia erótica investiga o corpo, o desejo, a intimidade e as convenções que procuram controlar a sexualidade. No Brasil, Hilda Hilst, em obras como Do Desejo e Poemas Malditos, Gozosos e Devotos, aproximou o amor, a morte, o prazer e a procura por Deus. Em Portugal, Natália Correia enfrentou a censura ao organizar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, publicada em novembro de 1965 pelas Edições Afrodite. A coletânea reunia textos de diferentes períodos da literatura portuguesa, incluindo Camões, Bocage e Fernando Pessoa. Em dezembro daquele ano, o regime de Salazar proibiu a circulação do livro. O caso chegou à Justiça e, em 21 de março de 1970, Natália Correia e o editor Fernando Ribeiro de Mello foram condenados a penas de prisão convertíveis em multa. Em 2026, completam-se 56 anos da sentença que transformou uma pesquisa literária em questão criminal. (Veja matéria FACETUBES, in https://sl1nk.com/L6rVX6G)
O episódio português expôs o alcance da censura sobre a produção intelectual e o direito das mulheres de tratar da sexualidade. Em 1972, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa publicaram Novas Cartas Portuguesas, obra também apreendida pelas autoridades. As três escritoras responderam a processo judicial. Natália Correia participou da publicação do livro. Esses acontecimentos demonstram como a literatura foi submetida à vigilância política e moral durante o Estado Novo português. A repressão pretendia determinar quais experiências poderiam ser escritas e quais palavras poderiam chegar ao público. A história preservou as obras e os nomes de suas autoras. Ser poeta, portanto, é exercer a liberdade da linguagem com consciência do mundo.
Vale destacar, entre os citados - nesse apanhado factual, apenas, explicitado acima - um poeta maranhense dos mais importantes entre as revelações do século XXI: Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior (1985–2021), nascido em Caxias, Maranhão, e que construiu uma obra em que a dor, a morte, a solidão e os conflitos humanos aparecem por meio de imagens que provocam o leitor. Exemplo rápido, sem mudar de página: em "Chorar-te", Carvalho Junior concentra a experiência do sofrimento em dois versos:
“lágrima é eufemismo da dor, / caco de vidro é chorar pra dentro.”
A construção parte de uma inversão: a lágrima, expressão reconhecida do sofrimento, torna-se insuficiente para representar aquilo que se passa no interior do indivíduo. O caco de vidro introduz a imagem de uma ferida que não se mostra. Chorar para dentro significa experimentar uma dor que corta sem encontrar saída. Simplesmente...
Assim, tanto Carvalho Junior como Rimbaud romperam suas próprias entranhas e mostram todas as suas angústias - um harakiri lírico de alta voltagem. Já Manoel de Barros encontrou poesia no que parecia não ter valor. Solano Trindade enfrentou o racismo. Gullar transformou a memória em resistência. Neruda escreveu sobre a história dos povos. Hilda Hilst investigou os limites do desejo. Natália Correia enfrentou a censura. entre muitos outros, cada um dos escolhidos aqui pela editoria, construiu sua maneira de compreender a existência.
Portanto, a poesia bem construída e com resposta pública imediata, não exige (só) sofrimento, erotismo ou transgressão. Mas exige, antes de tudo, trabalho com a palavra e compromisso com aquilo que se escreve. O poeta observa o que muitos deixam passar, encontra sentido onde parece não existir nenhum e entrega essa descoberta ao leitor. "Ser poeta é impedir que o medo determine os limites da palavra", como pautou o editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln. Vale complementar: ser poeta é escrever para que alguma coisa da experiência humana continue existindo depois de nós.
Fontes documentais e acadêmicas. As referências abaixo sustentam os registros históricos, as obras mencionadas e as interpretações literárias desenvolvidas no ensaio.
1. Bibliothèque nationale de France (BnF) — Les Poètes maudits, Paul Verlaine, 1884. Registro bibliográfico oficial.
2. Universidade Federal do Ceará (UFC) — Entrelaces, volume 1, nº 8: 100 anos de Manoel de Barros: poesia da simplicidade. Dossiê acadêmico.
3. Universidade Estadual de Londrina (UEL) — Serafina Ferreira Machado, A imagem do negro na poesia de Solano Trindade. Artigo acadêmico.
4. Universidade de São Paulo (USP) — Vinícius de Melo Justo, Do mito à política: um estudo de Canto general de Pablo Neruda. Dissertação de mestrado.
5. Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) — O corpo feminino erótico na poesia de Hilda Hilst, Revista do SELL. Pesquisa acadêmica.
6. Assembleia da República Portuguesa — Natália Correia: trajetória literária, antologia, censura e processo judicial. Biografia institucional.
7. Hemeroteca Municipal de Lisboa — Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, documentação sobre a censura e o julgamento. Arquivo histórico e imprensa da época.
8. Universidade do Porto / Revista Historiæ (FURG) — Francisco Topa, A sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício, estudo publicado em 2015. Artigo sobre o processo judicial.
9. University of London — Centre for the Study of Contemporary Women's Writing — Natália Correia, análise de sua produção e atuação editorial. Estudo biográfico e literário.
10. Revista Blimunda — Fundação José Saramago — Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, setembro de 2026, registro da nova edição. Publicação editorial.
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