Dra. Flora Guilhonm
Orientadora ocupacional e correspondente exclusiva da Plataforma Nacional do Facetubes na Inglaterra — England, United Kingdom.
Na Inglaterra, uma maneira de reconhecer uma atitude de consideração é dizer: “That’s very considerate of you” — “É muita consideração da sua parte”. A expressão cabe diante de alguém que cuida daquilo que recebeu ou pensa nas necessidades dos demais. A palavra considerate reúne esse sentido de atenção ao outro. E se isso também valesse para quem pede emprestado um bem valioso: o livro físico?
Preste atenção: quem recolhe os resíduos de onde está sentado e encaminha a bandeja ao local indicado, numa praça de alimentação, considera o trabalho dos funcionários; e a pessoa que ocupará aquele lugar depois. Devolver um livro exige, pelo menos, essa mesma atenção. A leitura pode ter terminado há semanas. O exemplar continua sobre a mesa de cabeceira, entre os objetos de quem o recebeu. Seu dono permanece esperando. Na biblioteca pública ou privada, outro leitor pode estar na fila para consultá-lo.
Livros são verdadeiros tesouros para quem os adquire. Anote: um livro pode carregar uma história que o preço de uma nova edição não restitui. Uma dedicatória, uma anotação do proprietário ou a lembrança de quem o presenteou fazem daquele exemplar um objeto pessoal. Conservá-lo inclui pedir autorização antes de escrever nas páginas, sublinhar passagens ou repassá-lo a outra pessoa. O empréstimo autoriza a leitura e estabelece uma responsabilidade com a devolução.
O psicólogo britânico daqui, David Halpern, fundador do Behavioural Insights Team, aborda a reciprocidade em texto publicado pelo governo do Reino Unido: “Quando alguém nos dá algo ou nos ajuda, temos forte inclinação a retribuir”, em tradução livre. Sua observação trata das relações de ajuda e cooperação. No empréstimo de livros, podemos aplicar essa reflexão ao reconhecimento da confiança recebida: devolver no prazo combinado, cuidar do exemplar e agradecer são formas de corresponder ao gesto de quem compartilhou.
O exemplo dos demais também participa das escolhas. Paul Dolan, professor de Ciência Comportamental da London School of Economics, assina com outros pesquisadores um artigo que observa: “Podemos fazer o que os outros fazem e ter receio de nos destacar”, em tradução livre. O texto examina a influência das normas sociais sobre o comportamento. Para a convivência entre leitores, a reflexão sugere valorizar práticas visíveis de cuidado: combinar a data de entrega, comunicar a necessidade de renovação e tratar a devolução como parte da rotina de leitura.
Há ainda as condições necessárias para cumprir um compromisso. Susan Michie, professora de Psicologia da Saúde da University College London, defendeu uma estratégia de “apoio e criação de condições”, em tradução livre para support and enablement. A observação nasceu em outro contexto e ajuda a formular uma orientação para o cotidiano. Isto é no empréstimo, deve ser obrigatoriamente informado o prazo, e as características pessoais que o livro contém, quando o empréstimo é pessoal.
Essas contribuições oferecem caminhos para compreender a cooperação. Assim, tanto nas bandejas das praças de alimentação como na devolução de livros - no ponto de vista da educação coletiva - a aproximação está no cuidado com o uso temporário de algo (que não é seu) e com suas consequências para outras pessoas. Um atraso merece ser compreendido em suas circunstâncias. Avisar, explicar e cumprir um novo acordo permite resolver a pendência sem deixar ao proprietário toda a tarefa de procurar, lembrar e cobrar.
Na praça de alimentação, a mesa disponível atende alguém que chega. Na biblioteca, o exemplar devolvido permite uma nova leitura. Entre amigos, a entrega poupa o constrangimento da cobrança e respeita a decisão de compartilhar. Devolver o livro por iniciativa própria, conforme o combinado, é uma forma de dizer que a confiança que o emprestador depositou em quem levou o livro.
Nas praças de alimentação, por sua vez, o ato de devolver a bandeja ao lugar especificado para sua alocação é respeitar o coletivo. em ambos os casos - mesmo que não pareçam tão iguais - tem um ponto fundamental: o respeito ao outro.
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Fontes: Cambridge Dictionary — verbete considerate; David Halpern — Giving, well-being, and behavioural science; Paul Dolan e coautores — Where behavioural biases STEM from, LSE Business Review, 8 de abril de 2024; Susan Michie — transcrição do episódio 43 de Coronavirus: The Whole Story, UCL. Citações traduzidas de publicações e entrevista disponíveis nas fontes indicadas.
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