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A História Conta Povos Originários

Povos originários cobram do Brasil o direito de existir com suas terras, línguas e memórias

Dezenove anos após a declaração da ONU, a leitura de Davi Kopenawa, Bruce Albert e Ailton Krenak ajuda a compreender a diversidade dos povos originários e as responsabilidades brasileiras na proteção de seus territórios, conhecimentos, culturas e modos de vida.

20/09/2026 19h52 Atualizada há 1 hora atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Etnias do Facetubes — Plataforma Nacional do Facetubes
“Esse livro é muito forte e traz verdades até então escondidas debaixo dos tapetes.” MHL
“Esse livro é muito forte e traz verdades até então escondidas debaixo dos tapetes.” MHL

Editoria de Etnias do Facetubes — Plataforma Nacional do Facetubes

Neste mês de setembro de 2026 há a marca dos 19 anos da adoção, pela Assembleia Geral da ONU, da declaração sobre os Direitos dos Povos Originários. O documento reconhece a autodeterminação, a relação com os territórios tradicionais e a preservação das culturas como fundamentos da dignidade dessas populações. No Brasil, a passagem da data pede uma reflexão sobre a distância entre reconhecer direitos e assegurar condições para exercê-los. Também exige atenção à maneira como o país conhece, representa e escuta os povos que participaram de sua formação desde antes da colonização.

A dimensão dessa tarefa aparece nos resultados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE em 2025: foram identificadas 391 etnias, povos ou grupos e 295 línguas dos povos originários. Cada número reúne experiências históricas, formas de organização e conhecimentos que precisam ser considerados em suas particularidades. Essa diversidade exige precisão do jornalismo, da escola e dos governos. Tratar centenas de povos como uma população de pensamento uniforme compromete a compreensão de suas necessidades e empobrece o debate público.

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A literatura oferece um caminho para conhecer essas experiências. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2015, A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, reúne, em 768 páginas, memória, pensamento e testemunho sobre o avanço da destruição na Amazônia. O livro nasceu das palavras de Kopenawa e de uma relação de mais de três décadas entre os autores. Sua construção associa a experiência do narrador yanomami ao trabalho do antropólogo, permitindo ao leitor acompanhar uma interpretação da história elaborada por quem sofreu os efeitos desse contato.

Kopenawa questiona uma concepção de progresso orientada pela acumulação de mercadorias e pela exploração da floresta. Em seu relato, epidemias, violência e devastação integram a experiência histórica de seu povo. A contribuição de Albert está também no trabalho de fazer esse pensamento circular por meio de uma obra construída em colaboração. Dessa leitura surge uma pergunta que alcança toda a sociedade brasileira: quais consequências humanas e ambientais precisam entrar na avaliação daquilo que se apresenta como desenvolvimento?

Ailton Krenak - líder indígena, ambientalista, pensador, poeta e escritor brasileiro da etnia indígena crenaque, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras - amplia essa discussão em Ideias para adiar o fim do mundo, ao examinar a noção de uma humanidade separada da natureza.

Na sua participação em um ciclo de conferências, a Universidade Federal de Minas Gerais destaca a crítica do escritor Krenak a uma sociedade que “não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”. A imagem expressa uma relação de regionalidade: o rio participa da memória, dos vínculos e da continuidade de um povo. Sua destruição atinge também essas dimensões da existência.

 

(Divulgação).

As contribuições desses autores ajudam a qualificar uma discussão frequentemente conduzida por opiniões sem indicação de fontes. O compromisso com a informação exige identificar documentos, confrontar interpretações e conhecer as circunstâncias em que cada relato foi produzido. Livros também possuem perspectivas, escolhas e limites. A leitura de três obras [(*)veja relação abaixo)] pode iniciar uma formação; a compreensão de centenas de povos requer estudo continuado, consulta a pesquisas e escuta de seus integrantes. A tradição oral ocupa lugar próprio nesse processo, como forma de transmissão de histórias, conhecimentos e modos de compreender o mundo.

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Para a imprensa e as instituições culturais, essa responsabilidade começa na escolha de quem será ouvido e de quais perguntas serão feitas. Escritores, professores, pesquisadores e lideranças dos povos originários precisam participar da produção do conhecimento sobre suas próprias realidades.

Assim, a data de setembro oferece à sociedade brasileira a oportunidade de avaliar a atenção dedicada a essas vozes durante o restante do ano. Ler Kopenawa, Albert e Krenak é um começo.

Dar consequência pública ao que essa leitura revela, envolve acompanhar a proteção dos territórios, o acesso à educação e à saúde e as condições de transmissão das línguas às próximas gerações.

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A LISTA DE LIVROS INDICADOS POR VÁRIOS INDIGENISTAS

MATOS, Maria do Socorro Pacó de. O olhar das mulheres Sateré-Mawé sobre o lixo. Manaus: EdUA, 2016.

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AZANHA, Gilberto. VALADAO, Virginia Marcos. Senhores destas terras: os povos indígenas no Brasil: da colônia aos nossos dias. 10 ed. São Paulo: Atual, 1991.

GRUPIONI, Denise Fajardo; ANDRADE, Lúcia M. M. de Comissão Pró-Índio (SP) Instituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena. Entre águas bravas e mansas: índios & quilombolas em Oriximiná. São Paulo: Comissão Pró-Índio: lepé, 2015.

Obra de arte.

BERGAMASCHI, Maria Aparecida. Povos indígenas & educação. Porto Alegre: Mediação, 2008.

BOFF, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 2005.

COIMBRA JUNIOR, Carlos E. A. Santos, Ricardo V. Escobar, Ana Lucia. Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Epidemiologia e saúde dos povos indígenas no Brasil / Carlos E. A. Coimbra Jr., Ricardo Ventura Santos, Ana Lucia Escobar organizadores. Rio de Janeiro: Ed. FIOCRUZ: ABRASCO, 2003.

MOURA, Carlos Eugenio Marcondes de. Estou aqui, sempre estive, sempre estarei: indígenas no Brasil: suas imagens, 1505-1955. São Paulo: EDUSP, 2012.

NACOES UNIDAS. Associação Cultural Oficina de Criação Teatral. Nemombe'uguasu Tetanguera pegua/ONU ojapova Ava Kuerape Ohep va Rehegua: Declaração das Nações Unidas/ONU sobre os direitos dos povos indígenas = Declaracion de las Naciones Unidas/ONU sobre los derechos de los pueblos indigenas. Campo Grande: Associação Cultural Oficina de Criação Teatral, 2010.

PAULI, Alcione; SILVA, Cleber Fabiano da; CAGNETI, Sueli de Souza. A literatura indígena. Santa Catarina: Ed. UNIVILLE, 2014.

PORRO, Antônio. As crônicas do Rio Amazonas: tradução, introdução e notas etno-históricas sobre as antigas populações indigenas da Amazônia. 2. ed. rev. e atual.

TEIXEIRA, Carla Costa, GARNELO, Luiza. Saúde indígena em perspectiva: explorando suas matrizes históricas e ideológicas. Rio de Janeiro: Ed. FIOCRUZ, 2014.

Editoria do Facetubes — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.

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