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“Janela pra Dentro”, de RAY BRANDÃO.

RAY BRANDÃO é convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

20/06/2026 15h56 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: RAY BRANDÃO (Autora).
 RAY BRANDÃO, convidada do Facetubes
RAY BRANDÃO, convidada do Facetubes

RAY BRANDÃO.

         A janela era só uma.

         Clara sentou por hábito antigo: mesa do canto, luz coada, mundo lá fora. Flora sentou por necessidade de respirar: mesa do canto, ar que entrava, mundo pra dentro.

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         Entreolharam-se. Não pediram licença, nem desculpas. Só puxaram a cadeira e ficaram. Duas estranhas disputando o mesmo pedaço de tarde, cada uma achando que aquela janela tinha sido posta ali só para ela.

 

         

          Clara, bem mais confiante, se apresentou lembrando da missão que trazia no nome: clarear o que parecia nublado. Os olhos da mulher à sua frente pareciam janelas em dias chuvosos, que mesmo quando cessava a garoa, ainda se percebia sua presença. Clara sabia bem o que era isso.

 

         Flora também se apresentou e percebeu nos olhos de Clara algo que havia perdido. Uma luminosidade que lhe resgatava algo da memória, mas ela não sabia bem o quê.

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         Enquanto comiam e conversavam sobre trivialidades do trabalho, observavam-se e liam-se além das palavras. Clara notou as mãos calosas, as marcas nos braços, a pele queimada de sol e as rugas no rosto de Flora.

         Flora não deixou de perceber as mãos finas, a linguagem culta, a pele limpa e o sorriso largo de Clara. Ambas, de alguma forma, se reconheceram na outra, apesar das diferenças.

         Clara cheirava a livro fechado e sabonete. Flora cheirava a terra molhada e a fumaça de fogueira apagada. Uma media bem as palavras antes de falar; a outra,  falava com o corpo inteiro. Uma olhava pela janela como quem olha vitrine. A outra olhava pra janela como quem olha porta.

 

         Ao se despedirem no final do expediente, parecia que estavam se despedindo de uma parte delas. E, durante algumas semanas, aqueles encontros no refeitório, aquela busca pela janela e aquelas conversas entre garfadas e sorrisos foram revelando o que as aproximou.

         Clara, “luminosa”, ironicamente nasceu na sombra, na casa fechada. Teve uma infância reprimida por pais tradicionais e controladores. Foi criada em estufa, com luz coada e ar medido. Filha única, não podia sair para brincar na rua com outras crianças e tinha que ser a melhor aluna da escola.

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          Flora, de “floresta”, não de jardim. Era a mais velha de sete irmãos que corriam o mundo junto com ela. Tinha a terra inteira pra se espalhar: chuva na cara, pé rachado, fruta no dente, saliva salgada de comer manga verde com sal e tempero, unha quebrada e joelhos esfolados de subir em árvore e pular cerca para roubar goiaba.

          Clara viu no amor a liberdade para sua prisão. Flora viu a extensão da sua felicidade. E, realmente, o casamento para Clara abriu janelas ensolaradas em sua vida: foram viagens, passeios, shows, festas, sorrisos e muitas noites de amor regadas a companheirismo e carinho de pássaro no ninho.

           Enquanto o casamento de Flora foi janela fechada, cerca que ela não sabia pular, muro que não a deixava sair para tomar banho no rio. Foi presa como passarinho engaiolado. Ao contarem suas histórias, perceberam que o destino lhes pregara uma peça ao marcar aquele encontro: deu asas para quem não sabia voar e gaiola para quem voava.

           Flora não sentiu inveja nem raiva. Sentiu falta. Sentiu reconhecimento. Clara não julgou nem humilhou. Estendeu a mão. Sentiu reconhecimento. E a amizade que surgiu não pediu licença. Foi janela que se abriu sozinha.

           Clara não conseguia mais dormir nem ficar tranquila. Precisava ajudar a amiga. Flora consolava a amiga dizendo que estava tudo bem, que já se conformara.

           Um dia, durante as conversas, Clara confessou que não queria fazer faculdade, pois fora pressionada a estudar durante muitos anos e via a faculdade como um retorno à prisão. Flora, pé no chão, ficou impressionada e disse que sempre tivera o sonho de fazer uma faculdade e que via nela sua liberdade.

           Clara passou a noite refletindo sobre as palavras de Flora: “O conhecimento não é prisão, é liberdade”. E, pela manhã, voltou decidida a fazer faculdade junto com a amiga.

 

            Foi um grande enfrentamento para Flora. Teve que arrancar suas raízes do vaso, pular o muro de concreto, correr novamente pela rua, resistir ao inverno denso da incompreensão até chegar ao rio que transbordava de dentro de si e mergulhar sem medo do que encontraria quando emergisse.

            Foi uma grande superação para Clara. Sentir-se novamente entre quatro paredes, pressionada, vigiada, cobrada. Mas ela estava lá, iluminando o vaso, estendendo a mão para a amiga pular o muro, correndo junto, acendendo fogueira e esperando na beira do rio Flora voltar da imersão.

            Flora voltou do rio com terra molhada no cabelo e unha quebrada de novo. Clara estava na margem, não com toalha. Com fogueira.

           Não falaram de matrícula, de livro, de nota. Flora só sentou na cadeira puxada e olhou pra janela do refeitório.

“Passei a vida achando que janela era pra olhar para fora”, ela disse. A voz ainda vinha funda, de quem mergulhou.

           Clara empurrou o café requentado na direção dela. Já não tinha gosto de prisão.

“Descobri que também serve para entrar”, Clara respondeu.

             Lá fora a chuva começava. Nenhuma das duas fechou a janela.

 

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