Jornalista Fernando Baima. Editoria do Facetubes/S.Luís-Ma
Sou maranhense. Sou nordestino. E tenho um orgulho danado de pertencer a essa terra e a essa gente. Não é um orgulho que precise ser anunciado a todo instante. Está no meu jeito de falar, nas minhas lembranças, nos meus afetos e na maneira como aprendi a olhar para o mundo.
Nasci numa terra onde as palavras têm sabor, as conversas ganham intimidade com facilidade e até uma brincadeira mais atrevida pode esconder uma demonstração de carinho. Aqui, a gente chama alguém de meu compadre, meu patrão, filho, filha, tio, tia, e, quando percebe, já está conversando como se aquela pessoa fosse conhecida de muitos anos.
Gosto desse nosso jeito de receber. Da conversa sem pressa, da cadeira que sempre aparece para quem chega, do café oferecido mesmo quando a visita diz que não quer. Gosto de saber que, em tantas casas maranhenses, a comida pode ser pouca, mas ainda assim se encontra uma maneira de repartir.
Aprendi a admirar essa generosidade tão presente na nossa gente. Conheço pessoas que têm quase tudo e pouco oferecem. E conheço outras que, possuindo tão pouco, são capazes de dividir até aquilo que lhes faz falta. Há uma grandeza humana nessa disposição de acolher, e ela sempre me comove.
Também gosto da nossa maneira de falar. Do sotaque que não escondo, das expressões que ouvi desde menino, das palavras que carregam uma história inteira. Por aqui, a gente fica abestado, aperreado, encabulado. Uma pessoa querida pode ser chamada de criatura, com uma ternura que só o tom da voz consegue explicar. E, quando bate a saudade, não há palavra que dê conta de tudo o que sentimos.
Ser maranhense também é carregar dentro de mim um mundo de imagens, sons e lembranças. É reconhecer São Luís nas suas ruas antigas, nos casarões, nos azulejos, nas praças e nas conversas de calçada. É sentir a presença do mar, o movimento das marés, o cheiro da chuva chegando e a brisa que atravessa a cidade nos fins de tarde.
É ouvir o toque dos tambores, reconhecer a força do bumba meu boi, a beleza do tambor de crioula, a devoção das caixeiras do Divino e tantas manifestações que fazem parte da nossa vida. São expressões de uma história que continua sendo contada pelas mãos, pelas vozes e pela memória da nossa gente.
Sei que o Maranhão também é feito de dificuldades, desigualdades e injustiças. Não romantizo a pobreza nem considero o sofrimento uma virtude. Mas admiro profundamente a capacidade que o nosso povo tem de preservar a dignidade, a alegria e a solidariedade, mesmo quando a vida lhe impõe condições tão duras.
Com o passar dos anos, fui compreendendo melhor o valor desse pertencimento. Há coisas que a gente só aprende a reconhecer plenamente depois de muito viver. Hoje, percebo quanto daquilo que sou foi construído pelas pessoas que conheci, pelas histórias que ouvi, pelos lugares por onde passei e pelas experiências que a vida me proporcionou.
Trago comigo o Maranhão da minha infância, das minhas descobertas, das minhas amizades e dos meus afetos. Trago também o Maranhão que continuo conhecendo, com suas contradições, suas belezas e sua extraordinária diversidade humana e cultural.
Não sinto necessidade de modificar minha maneira de falar, disfarçar minhas origens ou procurar em outros lugares uma identidade que já tenho. Sou parte desta terra, da sua história e da sua gente.
E quanto mais o tempo passa, mais percebo que meu amor pelo Maranhão não nasce de considerá-lo melhor do que qualquer outro lugar. Nasce simplesmente do fato de ser o meu lugar, aquele onde reconheço minhas raízes e encontro tantas razões para continuar querendo bem à vida.
Sou maranhense. Sou nordestino. E tenho um bem-querer danado por essa terra, por essa gente e por tudo aquilo que, ao longo da vida, fez de mim quem sou.
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