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José Chagas: o paraibano que fez de São Luís uma consciência poética

Na passagem dos 102 anos de seu nascimento, “Maré Memória” recoloca em discussão a vida nas palafitas, o reconhecimento literário e o testemunho de quem viveu dramas existenciais.

29/10/2026 10h56 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, editor-sênior.
Chagas & Palafitas. Arte: Mhl/GinaiFT
Chagas & Palafitas. Arte: Mhl/GinaiFT

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, editor-sênior.

O homem vive sobre a lama e já perdeu até o reconhecimento do próprio nome. Essa imagem, construída por José Chagas em Maré Memória, permite compreender a relação do escritor com São Luís: pertencer à cidade significava responder também por aquilo que ela deixava à margem. Nascido em 29 de outubro de 1924, no sítio Aroeiras, em Santana dos Garrotes, na Paraíba, Chagas teria completado 102 anos nesta quinta-feira. Chagas deixou um grande legado. Sua poesia deu à capital maranhense uma linguagem capaz de reunir patrimônio, abandono e experiência cotidiana. 

Porém, há quem acredite que Chagas acabou "injustiçado", de certa forma, "pelo cânone literário do Maranhão". Quem afirma isso é o poeta João Batista do Lago em entrevista ao jornalista Mhario Lincoln. JB do Lago apresentou uma hipótese sobre a possível resistência "ao reconhecimento mais autêntico de José Chagas". Ele disse: "a repercussão de 'Maré Memória', também levada ao teatro, despertou certo ciúme no ambiente literário e contribuiu para seu afastamento de espaços de prestígio. Ao meu ver, 'Maré Memória' é a cruz que crucificou José Chagas”.

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Contudo, João Batista do Lago delimitou o alcance dessa declaração ao concluir: "trata-se de uma percepção pessoal, cuja comprovação exigiria dados e uma pesquisa que ainda não realizei. Mas vou fazê-lo logo para comprovar o que penso". Seu depoimento propõe investigar as circunstâncias da recepção de Chagas e os possíveis efeitos das rivalidades literárias sobre sua trajetória. "Mas que há (ou houve) uma tentativa deliberada de inviabilizar alguns de seus poemas e alguma parte de sua obra (autenticamente ludovicense, mesmo que nascesse na Paraíba) isso permanece", conclui.

 

Será que essa obra Maré Memória realmente transformou a palafita em expressão das desigualdades de São Luís? A moradia sobre o mangue expõe uma população que pertence à cidade e permanece privada de reconhecimento e condições de existência? Nessa leitura, o poema tensiona a imagem de uma capital celebrada por seus monumentos e sua tradição literária? Introduz nessa representação da burguesia literária, a fome, o abandono e o trabalhador do mangue?  

Por outro lado, a encenação de Maré Memória pelo Laborarte, em 1974, terias ampliado a presença pública dessa denúncia? Existe um registro concreto de repressão ao espetáculo: a historiadora Leide Ana Oliveira Caldas, em trabalho apresentado à ANPUH em 2023, relata, com base na pesquisa de Danielle de Assunção Sousa, que sua liberação pelo DOPS exigiu exame do texto, observação do ensaio geral e cortes de passagens. Esse episódio documenta a intervenção da censura sobre a montagem. 

 

Então, a hipótese de que essa exposição social teria contribuído para “escantear” Chagas, pode ter lógica?  Será que, como comentou o poeta JB do Lago, “Maré Memória é a cruz que crucificou José Chagas”?  Mas será que realmente há fundamento para investigar o incômodo provocado por essa obra específica? O fato é que Chagas - independente de quaisquer especulações - foi muito bem eleito para a Academia Maranhense de Letras, em outubro de 1974 e tomou posse em abril de 1975. E isso, de certa forma, é um coroamente literário a Chagas. É um reconhecimento do cânone literário regional ou não?

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Quanto à influência sobre movimentos sociais da Ilha, as fontes consultadas permitem situar Maré Memória num ambiente de mobilização cultural e conscientização popular, sem estabelecer uma relação causal com movimentos específicos. O próprio Chagas disse da compreensão do grupo, em texto publicado em O Estado do Maranhão, em 1º de maio de 1974, reproduzido em estudo da revista Paralaxe: “O Laborarte não se propõe a um teatro de superfície”. A frase ajuda a compreender a dimensão pública daquela experiência: levar as palafitas ao palco significava tornar visíveis pessoas e conflitos que a representação celebratória da cidade deixava de fora. A censura à montagem demonstra o controle exercido sobre essa expressão. Mas, a extensão de seus efeitos políticos, o eventual isolamento do autor e outras percepções individuais, permanecem sem uma comprovação lógica.

Há de se explictar, entretanto, que Chagas tinha uma intimidade incomensurável com a cidade de São Luís-Ma, onde encontrou solo fértil para excercer diferentes formas literárias. A começar pelos títulos de suas obras: Os telhados, Maré/memória, Os canhões do silêncio e Os azulejos do tempo. A partir desses, o poeta desenhou um percurso entre a arquitetura e a vida que se organiza ao redor dela. 

Nessa perspectiva de leitura, cada elemento urbano funciona como documento: o telhado abriga, o azulejo conserva, o canhão recorda relações de poder. A palafita expõe as condições de existência de quem participa da cidade a partir de suas margens. Chagas tem experiências disso, pois trouxe no sangue a luta camponesa: filho de uma família de pequenos agricultores, precisou interromper os estudos para ajudar os pais. Desejava tornar-se químico industrial. Anos depois, acabou fixando residência na capital do Maranhão desde 1948. Trabalhou no IBGE, exerceu funções na administração pública, foi vereador e manteve presença na imprensa de São Luís por mais de seis décadas. Aliás, José Chagas, chegou à vereança incentivado por Henrique de La Rocque Almeida nas eleições municipais de 1966.

 

Pesquisas da editoria dão conta de que Chagas não quis reeleição, em 1970. O jornal A União, da Paraíba, edição de 14 de julho de 2024, páginas 26 e 27, em reportagem assinada por Marcos Carvalho, divulga depoimento do imortal AML Félix Alberto Lima que informa: "José Chagas decidiu não voltar a se candidatar depois da experiência na Câmara Municipal. O poeta ficou desencantado com a política partidária e passou a exercer sua atuação crítica principalmente por meio das letras e das crônicas". Chagas morreu em 13 de maio de 2014. 

Observem: José Chagas traz em sua alma, dois insigths interessantíssimo que mereciam ser estudados com mais afinco para, então, concluir sobre a forja do poema Maré Memória, esse especificamente, porque foi o precursor das possíveis polêmicas sociais que explodiram há alguns anos, entre as vielas poéticas de São Luís: sua origem camponesa e seu desencanto com as política partidária (consequentemente políticas públicas), da cidade em que vivia.

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Ora, é possível que a desilusão de José Chagas com a política partidária e sua origem camponesa tenham contribuído para a construção humana e social de Maré/Memória (1973). A experiência como vereador de São Luís pode ter aproximado o poeta das contradições entre o discurso político e a realidade das populações marginalizadas. Sua formação, marcada pelo contato com a terra, o trabalho e as dificuldades da vida rural, certamente lhe oferecia referências para compreender o sofrimento daqueles que sobreviviam entre a lama e a maré.

No poema, a palafita ultrapassa sua condição de moradia e se transforma em testemunho de uma sociedade que permite ao homem existir sem lhe assegurar condições dignas de existência. A imagem do caranguejo, condenado a caminhar para trás, adquire uma dimensão filosófica: o progresso perde seu significado quando parte da humanidade permanece submetida a condições que parecem negar a própria evolução civilizatória.

Há, sobretudo, uma questão de identidade humana atravessando os versos. Quando José Chagas escreve que o homem lançado à lama “não sabe o seu nome exato / e também ninguém o chama”, (vale repetir), revela uma forma de exclusão que vai além da pobreza material e torna-se a perda do reconhecimento social. O indivíduo deixa de ser percebido como sujeito de direitos e passa a integrar a paisagem da miséria, confundido com os animais que habitam o mangue. Nesse sentido, Maré/Memória pode ser lido como expressão de uma consciência social amadurecida pela experiência política e pelas lembranças de suas origens. Obs: essa relação constitui uma interpretação literária da editoria, não uma intenção declarada pelo autor.

Contudo, o que permanece nos versos é a percepção de que a verdadeira medida de uma sociedade está na maneira como reconhece a humanidade daqueles que vivem à margem de suas promessas.

 

Chagas e as Palafitas. (mhl-ginaift).

Como ilustração, vale reler o poema que originou inúmeros comentários, lendas ou observâncias pró/contra sobre a literatura do poeta. Muitas vezes os críticos ou aqueles que tentam escrever sobre Chagas acabam "esquecendo esse episódio", como disse JB do Lago. E porquê? Ora, e por que não o fazem já que esse poema ocupa a primeira leitura de Maré Memória? Por que foi publicada em 1973? Ou porque era muito impactante ler um poema com alto teor social, "em uma cidade onde a elite literária estava acostumada a à poesia romântica"? Completa JB do Lago.  

Vale ler e reler o poema, ora em discurssão, abaixo:

 

Olhe aí a palafita
crescendo sobre a maré.
O homem que nela habita
caranguejo ou peixe é.

Caranguejo que se irmana
com os bichos dos lamaçais,
na condição desumana
de caminhar para trás,

de voltar à pré-história,
- vergonhosa marcha à ré -
e afogar sua memória
no ir e vir da maré.

Peixe caído na rede
que a vida lançou ao mangue,
para matar fome e sede
de um mundo nutrido em sangue.

Caranguejo ou peixe, o fato
é que o homem posto na lama
não sabe o seu nome exato
e também ninguém o chama,

nem o batiza de novo
com esse sal de maré.
Não se sabe de que povo
nem de que raça ele é,

ali entre vida e morte,
caranguejo ou peixe ou nada
do que seja fraco ou forte
na maré, sua enteada,

mãe segunda que o cativa,
que como filho o adota,
para a solidão nativa
mar sem porto e sem rota.
                (Maré Memória, 1973).


Leu? Então deve ter entendido que as rimas entre “fato” e “exato”, “lama” e “chama” dão à passagem uma cadência de assimilação imediata. O movimento decisivo ocorre no último verso: a perda do nome encontra correspondência na ausência de quem o pronuncie. A figura humana sofre um apagamento coletivo. Na leitura aqui proposta, a aproximação com o caranguejo e o peixe denuncia uma existência reduzida à adaptação e à sobrevivência. A sociedade deixa de reconhecer a pessoa que habita aquela moradia. E tem mais.

O poema mostra como a pobreza pode atingir a identidade e o existencial das pessoas. A aproximação do homem com o caranguejo e o peixe denuncia sua redução a uma existência dedicada à sobrevivência. A expressão “posto na lama” permite ler essa condição como resultado de relações sociais; a “marcha à ré” expõe uma sociedade que permite a regressão das condições humanas. 

O ponto decisivo está no desaparecimento do nome e na ausência de quem o chame: aquele morador perde reconhecimento, interlocução e lugar na vida coletiva. A maré oferece abrigo e alimento, submetendo-o também à instabilidade. Na imagem final, “mar sem porto e sem rota”, a desproteção alcança o futuro. Chagas transforma a palafita em testemunho de uma cidade que abriga pessoas em seu território e lhes restringe o exercício da cidadania.

Por isso, comemorar Chagas hoje, 20.10.2026 que, se vivo estivesse estaria completando 102 anos de nascido, passa obrigatoriamente por algo muito maior do que publicar sua biografia. muito mais porque ler Chagas em tempo atuais também implica recolocar seus livros em circulação e discutir as escolhas que sustentam sua escrita. Não só uma notinha furtiva em um rodapé qualquer. O leitor - do mais humilde ao mais aguçado - passa obrigatoriamente em reconhecer alguém que debulhou a cidade que o acolheu em seus mínimos detalhes, como quem rasga um pedaço do véu encortinado, vermelho e dourado - dos grandes salões saráuticos da velha Ilha dos Amores, ratificando esse vínculo febril do poeta paraibano com uma cidade descoberta no coração; e, em especial, na responsabilidade do olhar.
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EXCLUSIVO: "Maré Memória". Com Uimar Junior.

 

Fontes principais
- João Batista do Lago: entrevista a Mhario Lincoln, conforme trecho transcrito fornecido para esta edição.
- Academia Maranhense de Letras — biografia e bibliografia de José Francisco das Chagas.
- Wilson Martins — “Ouro parnasiano”, Prosa & Verso, 26/09/1998, reproduzido no Jornal de Poesia.
- José Sarney — “O Caso da ponte”, Academia Brasileira de Letras.
- Nascimento, Carreira e Celestino — “Literatura e mangue: análise do discurso constituinte literário em Maré memória, de José Chagas”, Cadernos do IL, nº 51, 2015, pp. 134–148.
- Leide Ana Oliveira Caldas — “História e cinema no Maranhão: modos de dizer e fazer espaços de resistência fílmica (1970/80)”, ANPUH, 2023.
- Facetubes — registro publicado da entrevista de João Batista do Lago à TV Web Facetubes, 31/05/2025.

 

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