Renata Barcellos.
Segundo o filósofo britânico John Stuart Mill, o indivíduo é “soberano sobre seu próprio corpo e mente”. A partir dessas considerações, fico pensando: um pesquisador passa anos, décadas se dedicando a um estudo para comprovar ou não sua hipótese e (só assim) divulgar o resultado. Com os avanços das tecnologias e criação de novos meios de comunicação, por exemplo, surgiram os influenciadores digitais, cujo papel nada mais é que criar conexão com o público para provocar engajamento, criar novas tendências. Vale ressaltar a diferença entre “bloguers” e os influenciadores digitais. Ter um “BLOG” significa apenas ter certo número de pessoas que o segue. Isso não caracteriza um “poder” para influenciar seus seguidores. Considerando isso, é interessante lembrar que na Idade Média a igreja exercia uma grande influência sobre os fiéis. Ela estabelecia quais livros podiam ser lidos e quais eram proibidos, vendia indulgências prometendo um lugar no céu.
Desse modo, os seguidores eram persuadidos a concordar com os ideais e atitudes da igreja, sem ao menos, poder questioná-los. Já, no século XXI, esta prática está presente em outras religiões. Quando penso nos grandes pensadores e nos influenciadores, a correlação a ser estabelecida seria de que aqueles seriam os filósofos. Vale lembrar que estes surgiram por volta do século VI a.C., na Grécia Antiga, na região da Jônia (atual Turquia), e a prática de atuar e debater diretamente nas ruas era uma característica central de vários pensadores da antiguidade (Diógenes de Sinope, Protágoras, Sócrates), especialmente em Atenas. Na contemporaneidade, para as empresas, os influenciadores digitais são como uma ponte entre o produto ou serviço oferecido ao consumidor, pois, através deles, a publicidade da marca atinge um maior número de seguidores e faz com que exista ali a venda do produto ou serviço. Um estudo de 2023 conduzido pela YouPix, em parceria com o Mundo do Marketing sobre os "Desafios do Marketing de Influência", revelou que 76% dos consumidores realizam compras com base nas recomendações de influenciadores; 69% das lembranças de anúncios provêm de divulgações feitas por influenciadores, em comparação com os 36% provenientes de anúncios tradicionais criados pelas próprias empresas. Dessa forma, constata-se o poder de persuasão dos influenciadores na sociedade.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil estuda o acesso de crianças e adolescentes à internet, bem como o seu comportamento em diferentes plataformas. Até 2025, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos eram usuários de Internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. O celular é o principal dispositivo de acesso: 98% de uso entre adolescentes de 15 a 17 anos e 82% entre crianças de 9 a 10 anos, sem diferenças relevantes por classe social. Os vídeos de influenciadores digitais e séries/filmes foram os mais acessados pelos jovens (80% cada), seguidos por tutoriais (74%) e vídeos de pessoas jogando videogame (52%). Já as plataformas mais usadas são WhatsApp, Youtube, Instagram e TikTok. A partir desses dados e do que, muitas vezes, tenho constatado no desempenho dos alunos dessa faixa etária (como professora e pesquisadora de literaturas), lembro-me do escritor Umberto Eco, ao declarar que as redes sociais “dão voz para uma legião de imbecis’’. Tempo atual, no qual as respostas estas em um clique (após a formulação de um comando).
E isso impacta a saúde mental de todos. Na relação professor x aluno, aquele em “depressão”, se pergunta cada vez mais qual é seu papel; e deste por não prestar atenção e refletir quase mais sobre os conteúdos apresentado, muitas vezes. Isso faz lembrar a pesquisa do Panorama da Saúde Mental, de 2024, estudo realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, sobre a relação entre o uso de redes sociais e a saúde mental. De acordo com os dados encontrados, nos jovens entre 15 e 29 anos, as redes são responsáveis por cerca de 45% dos casos de ansiedade.
No livro Utopia, de Thomas More, é retratada a ideia de uma sociedade padronizada, fora de conflitos e problemas. Entretanto, na atual situação da sociedade brasileira, nota-se que não é condizente com a referência do escritor. Afinal, surgem más influências através de grandes nomes na internet, assim como quando surgiu o jogo “Baleia Azul”, onde um grupo de jovens se reuniram e divulgaram-no. Consistia em cada jogador realizar 50 desafios. E o último era acabar com suas próprias vidas. Ademais, atualmente, os “influencers” estão realizando inúmeros procedimentos estéticos, outrossim elevando e impondo os padrões de beleza, um grande impasse para os jovens no século XXI. Tudo isso gera uma falsa realidade e faz com que estes acreditem estar fora do “padrão”, desenvolvendo baixa autoestima… Outra questão de suma importância é adultização infantil intensificada na era dos influenciadores digitais.
Os chamados “influencers mirins” cresceram no país e já acumulam milhões de seguidores nas redes sociais como o TikTok e o Instagram. Mesmo ainda não tendo idade para se cadastrar, segundo as regras das plataformas. O resultado são crianças que pensam e se comportam como adultos, vendendo produtos e serviços e, em alguns casos, fazendo inclusive propagandas ilegais. Diante desse cenário, recentemente, o Brasil avançou na proteção legal desse público. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/25), conhecido como ECA Digital, proíbe expressamente a criação de perfis comportamentais de crianças e adolescentes para direcionamento de publicidade e veda a monetização de conteúdos que os exponham em contextos próprios do universo adulto.
O ECA Digital passa a valer em 17 de março de 2026, seis meses após sua publicação no Diário Oficial da União, também obriga as plataformas a oferecerem mecanismos de verificação de idade e ferramentas de supervisão parental. Um exemplo: no Brasil, segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 53% dos adolescentes de 11 a 17 anos já tiveram contato com divulgação de jogos de apostas na internet, proporção que chega a 63% entre os de 15 a 17 anos. Portanto, faz-se necessário que ações sejam tomadas para que o público não seja influenciado de maneira negativa por pessoas com destaque nas redes sociais. cabe ao Ministério da Educação, através de campanhas (sobre o Marco Civil da Internet), programas escolares (programas de educação digital nas escolas para orientar os alunos a respeito do assunto), dinâmicas e debates instruir crianças e adolescentes sobre os pontos negativos relacionados à influência digital. Dessa forma, os jovens serão menos suscetíveis ao poder que as redes midiáticas possuem, pois garantir o bem-estar da população é garantir a ordem e progresso da nação. Também urge a criação de um órgão fiscalizador dos conteúdos compartilhados na internet, para caso sejam propagadas notícias falsas ou feitos comentários que venham a ferir os direitos humanos ou violem a Constituição Federal, os influenciadores (responsáveis por tais ações) sofram as devidas repreensões.
Desse modo, a população não será induzida a difundir ideais equivocados, além de poderem utilizar seu pensamento crítico. Tudo isso com a finalidade de a “Web” não ser palco para uma “legião de imbecis”, mas um ambiente para a construção de um saber salutar para sociedade.
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