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O LEGADO: quando a vida transforma a dor em memória e a memória se torna herança para outras gerações

Na sétima edição de Histórias que Inspiram, Josiane Ritta e suas coautoras apresentam relatos de perdas, maternidade, violência, fé e reconstrução. São experiências que ultrapassam a autobiografia e encontram na escrita uma forma de preservar a vida.

08/11/2026 11h36 Atualizada há 17 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: “O Legado”/Mhario Lincoln
Original do livro (Art. MHL/GinaiFT).
Original do livro (Art. MHL/GinaiFT).

Mhario Lincoln*

Essas histórias que eu li são emocionantes e fogem aos clichês romanciados do dia-a-dia porque são narrativas verídicas. Cada linha que absorvi me levaram imediatamente  à lembrança de quem esteve presente, nos filhos que cresceram, nas pessoas que partiram e nos gestos que continuam sendo repetidos por aqueles que ficaram. 

Por isso, é mais que um livro. É um compêndio de atitudes humanas que se transformaram em "Histórias que Inspiram 7 — O Legado", obra organizada de forma profissional e competente por Josiane Ritta e publicada pelo Instituto e Editora Árvore da Vida, em Curitiba, em uma edição impecável, bem diagramada, com paleta de cores à altura dos textos brilhantes inseridos nesse contexto emocional. 

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Suas 249 páginas reúnem treze narrativas autobiográficas, a apresentação da idealizadora e cartas de mulheres que participaram das edições anteriores. O livro propõe uma compreensão do legado que ultrapassa a transmissão de bens, sobrenomes e conquistas profissionais. Trata-se daquilo que uma existência deixa dentro de outra. A espiritualidade cristã sustenta a interpretação das experiências, enquanto a escrita lhes confere permanência. 

O principal valor literário da coletânea nasce desse encontro entre memória, vulnerabilidade e testemunho. Seus relatos não procuram construir personagens infalíveis. Revelam mulheres que conheceram a fragilidade humana e decidiram contar o que lhes aconteceu.

Aliás, a experiência de sua idealizadora, Josiane Ritta, depois de décadas marcadas por rejeições e sofrimento emocional, demonstra a necessidade de recuperar a própria identidade. Sua declaração central estabelece a razão de existir da coletânea: “Foi nesse processo que compreendi que a minha história não precisava terminar em mim.” Espetacular, porque a frase transforma a autobiografia em compromisso com outras vidas. 

Em outra direção, Julyana Biss, autora de Eu só estava ouvindo vozes demais, examina o peso das expectativas, da aprovação alheia e de uma religiosidade que pode aprisionar a consciência. Sua síntese assume uma dimensão familiar e geracional: “Naquele dia, entendi que o meu legado não seria criar filhos perfeitos.” As duas autoras aproximam-se pela percepção de que nenhuma existência deve ser definida exclusivamente pelas feridas recebidas ou pelas exigências impostas. Josiane constrói um espaço para a voz feminina. Julyana procura impedir que os filhos herdem os mesmos mecanismos de sofrimento que marcaram sua trajetória. 

Em Um Coração que Aprendeu a Esperar, Ana Cláudia Padilha descreve a dependência emocional vivida desde a adolescência e o processo de reconstrução de sua autonomia afetiva. Uma passagem concentra o aprendizado: “Quem conhece o seu valor não aceita qualquer amor.” O texto revela como a necessidade de aceitação pode comprometer a identidade e as escolhas de uma pessoa. Aglair Natel, em Do cansaço à Luz, apresenta uma experiência de outra natureza, marcada por décadas de casamento, traições, intimidação e violência. Seu relato registra a decisão de romper com a situação que ameaçava sua integridade: “Decidi viver o propósito e a vida abundante que Deus tem para mim, com fé e alegria, pois sou livre.” A aproximação dessas narrativas revela um dos aspectos sociais mais importantes da obra. A reconstrução da vida feminina passa pelo reconhecimento do próprio valor e pelo direito de estabelecer limites. Em Aglair, a liberdade adquire um significado especialmente concreto: a possibilidade de viver sem medo. 

Algumas das páginas mais dolorosas que me emocionaram bastante, nesta edição específica, estão nos relatos de Ana Paula Ramirez e Dilene Guimarães. A primeira, em Eu atravesso o universo pelo teu amor, preserva a memória do filho João Victor, cuja vida foi atravessada pela fibrose cística. A autora escreve: “Depois da despedida do meu filho, compreendi que existem dores que não passam, tampouco superamos. Aprende-se apenas a caminhar com elas.” A frase rejeita a ideia de que toda perda precisa ser vencida ou esquecida. 

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Já Dilene, em O Presente que virou Legado, recorda a filha Mikaella e encontra nos gestos cotidianos a permanência de sua presença: “O que permanece nem sempre são os dias grandiosos. Muitas vezes, são os pequenos detalhes.” As duas mães oferecem ao livro sua reflexão mais difícil sobre o tempo. Uma criança permanece na memória pelo sorriso, pela maneira de chamar a mãe, pelos bilhetes, pelas brincadeiras e pelos lugares que frequentou. A saudade se torna uma forma de testemunhar a importância de quem viveu. O legado dessas duas narrativas consiste em impedir que a morte seja a única informação preservada sobre uma existência.

Lá no fundo da alma, a maternidade também aparece como escolha, acolhimento e responsabilidade. Esse é o legado de minha amiga Andressa Santucci, em O Amor de Deus em pequenos pedaços de propósito, onde relata a experiência de acolher crianças e construir vínculos familiares pela adoção. A autora registra uma compreensão que atravessa as diferenças entre origem biológica e pertencimento afetivo: “Porque existem filhos que são gerados no ventre — e existem filhos que, pouco a pouco, são gerados no amor.” 

A construção literária ganha força pela simplicidade da imagem. Ivete Zimmermann, em Há sempre um Lugar à mesa, apresenta a casa, a convivência e a hospitalidade como expressões de sua fé. Sua reflexão encontra síntese na passagem: “Quero abrir a porta da minha casa e do meu coração e convidar você a se sentar à minha mesa.” São narrativas que deslocam o legado dos acontecimentos extraordinários para as práticas cotidianas. A mesa de Ivete representa a disposição para receber. A maternidade de Andressa representa o compromisso de oferecer segurança e vínculo amoroso. Ambas mostram que a herança humana também é construída por quem abre espaço para a existência do outro.

Já em Quando o fim é só o começo, Carolina Chuartz relata o enfrentamento de um tumor cerebral, as cirurgias e a maternidade vivida em meio às incertezas de seu quadro de saúde. Uma de suas passagens estabelece a convivência entre tratamento e fé: “Não sou negligente: sigo os tratamentos, mas não vivo mais sob a sombra do medo, e sim sob a luz da gratidão.” O significado dessa frase está na recusa de permitir que o diagnóstico ocupe toda a sua identidade. 

Darlene Stanski, em A Mulher que Deus formou em mim, examina as frustrações, a espera pela maternidade e as mudanças interiores provocadas por esse percurso. Escreve: “Enquanto eu desejava gerar uma vida, Ele gerava uma nova mulher.” Há nessa construção uma inversão de sentido que merece atenção literária. O verbo gerar deixa o campo exclusivamente biológico e passa a representar a formação da própria consciência. Assim, enquanto Carolina procura preservar os dias para acompanhar o crescimento da filha, Darlene reconhece que sua transformação pessoal começou antes da concretização do desejo de ser mãe. As duas autoras apresentam a existência como processo, sem reduzir o valor de uma mulher às circunstâncias de sua saúde ou à realização da maternidade.

Gabriela Corradi, autora de Poços Secos, desenvolve uma narrativa de afastamento e reencontro com a espiritualidade cristã. Sua síntese é direta: “Minha história é simples: eu estava perdida e fui encontrada.” A expressão, próxima da linguagem bíblica, apresenta o reacolhimento como resposta a uma experiência de desorientação. 

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Ildete Simas, em Cicatrizes de um Amor que Prevaleceu, registra a transformação vivida ao lado do marido Alexandre e o sofrimento causado por sua morte, após 42 anos de convivência. A autora escreve: “Enquanto eu viver, levarei comigo as lembranças de Alexandre.” Esses dois testemunhos se encontram na importância atribuída aos vínculos. Gabriela descreve a recuperação de uma relação espiritual que reorganizou sua vida. Ildete preserva uma relação afetiva interrompida pela morte. Suas experiências mostram que a memória não se limita a guardar acontecimentos. Ela conserva compromissos, ensinamentos e sentimentos que continuam participando das escolhas de quem permanece vivo.

O reencontro consigo mesma constitui o núcleo de Florescer não tem idade, de Luciana Cristina S. Gritsch. Ao abordar a ruptura familiar, a depressão, as dificuldades financeiras e a reconstrução de sua vida ao lado do filho, a autora produz uma imagem de impacto: “O fundo do poço tem uma única vantagem: ele é terra firme para pegar impulso.” A frase retira do sofrimento qualquer aparência de destino definitivo e destaca a capacidade de agir diante das perdas. O recomeço assume a forma de decisões familiares, profissionais e espirituais.

A autora e o quadro representativo.

Maria Edna de Souza, em O Pé de Café e a Anestesia Divina, enfrenta memórias de abuso e apresenta o perdão e a fé como componentes de sua reconstrução pessoal. Sua passagem mais significativa afirma: “Não posso mudar o que aconteceu, mas posso decidir o que essas experiências produzirão em minha vida.” As duas narrativas (Luciana e Edna) encontram seu ponto de maior relevância na recuperação da autonomia. O passado permanece como fato. O futuro deixa de ser entendido como simples consequência daquilo que foi sofrido e, no caso de Edna, o perdão é apresentado como escolha pessoal de libertação, sem que isso retire a responsabilidade de quem praticou a violência. 

Diante dessas leituras, como sempre faço em minhas resenhas, decidi compará-las a insights filosóficos. E essa coletânea encontra uma correspondência na obra do filósofo francês Paul Ricoeur (1913–2005), especialmente em Tempo e Narrativa e O Si-mesmo como Outro.

Com Josiane Ritta.

Ricoeur desenvolveu o conceito de identidade narrativa, segundo o qual a compreensão que uma pessoa tem de si mesma se constitui também por meio das histórias que conta sobre a própria existência. Essa concepção ilumina o projeto de Josiane Ritta. Ao transformar lembranças em textos, as escritoras reorganizam experiências fragmentadas e reconhecem continuidades entre quem foram e quem se tornaram. 

A autora que sofreu violência não se resume à condição de vítima. A mãe que perdeu um filho não se limita ao acontecimento da morte. A pessoa que enfrentou rejeição não precisa permanecer identificada pela recusa que recebeu. O exercício narrativo permite reconhecer essas experiências sem convertê-las na totalidade de uma vida. 

Existe, contudo, uma particularidade na coletânea: as autoras interpretam essa reconstrução pela fé cristã. Ricoeur oferece uma chave filosófica para compreender o papel da narrativa; o livro acrescenta a essa estrutura uma dimensão religiosa de providência e continuidade espiritual. Andressa Santucci, por exemplo, em O Amor de Deus em pequenos pedaços de propósito, mostra a chave da importância da Fé nessa obra, aliás, fato igualitário a todos os textos que emocionadamente li. Assim, mesmo que Ricoeur ofereça uma chafe filosófica, em ambas, há um reconhecimento de que contar a própria história é também procurar compreender quem se é. 

Mhario Lincoln.

Aliás, essa obra mostra sua interação direta com a Fé, como já escrevi. Não como simples demonstração carismática de fé literária ou romanceada para angariar lágrimas. Mas a Fé como parte integrante da alma de quem colocou para fora seus sofrimentos e por meio da mesma Fé conseguiu alcançar o equilíbrio. No entanto, o que me deu a entender é que nenhuma dessas autoras usou tais eventos para se locupletar. Isso é magnífico porque me levou diretamente ao que disse o Apóstolo Paulo; e está em Efésios 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie." Na verdade, aí se define a essência teológica da salvação evangélica baseada na fé e não no esforço humano.


Vale ainda lembrar que também há uma forte aproximação como o que ensinou Viktor Frankl, neurologista, psiquiatra e pensador austríaco, criador da logoterapia e autor de Em Busca de Sentido. Frankl sustentava que a busca de significado constitui uma dimensão fundamental da experiência humana e que mesmo diante de sofrimentos inevitáveis pode existir a possibilidade de encontrar uma razão para continuar. Essa perspectiva ajuda a compreender o denominador comum de O Legado. 

As escritoras não descrevem vidas livres de rupturas. Apresentam decisões tomadas depois delas. A aproximação com Frankl exige reconhecer que o sofrimento, por si só, não constitui mérito nem garantia de crescimento. Seu significado depende das respostas que cada pessoa consegue construir, dentro de suas possibilidades. A força literária da obra reside justamente nesse ponto: suas autoras não receberam a mesma vida, não atravessaram as mesmas perdas e não chegaram às mesmas respostas. Mas, compartilham a decisão de não permitir que a experiência termine no silêncio. O legado que permanece nessas páginas não é a dor que cada uma suportou. É aquilo que decidiram fazer com a vida que continuou, entregando seus sofrimentos ao Criador e recebendo dele as forças necessárias para continuar.
Parabéns a todas! Emocionei-me bastante com todas as histórias.

Andressa Satucci, minha anfitriã no evento, com a família.

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*Mhario Lincoln é jornalista, poeta, presidente da Academia Poética Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

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Fontes e referências
- Obra analisada: RITTA, Josiane e coautoras. Histórias que Inspiram 7 — O Legado. Curitiba: Instituto e Editora Árvore da Vida, 2026. ISBN 978-65-975618-4-1. Edição digital de 249 páginas, fornecida para análise.
- RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa; O Si-mesmo como Outro. Referência de apoio: Stanford Encyclopedia of Philosophy — Paul Ricoeur.
- FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido. Referência de apoio: Viktor Frankl Institute — Fundamentos da logoterapia.

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