Mhario Lincoln/Chiquinho França c/Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.
Neste 2 de novembro, Dia de Finados, a memória de Wellington Reis volta a encontrar os amigos que ficaram. Há pessoas cuja morte deixa um silêncio difícil de compreender. Wellington foi uma delas. Cantor, compositor, produtor e pesquisador cultural, morreu em 22 de julho de 2025, aos 74 anos, em São Luís. Deixou uma história ligada à música, ao carnaval e às manifestações populares do Maranhão. Para nós (Eu) e Chiquinho França, ele deixou também a ausência de um companheiro de tantas jornadas, encontros e projetos. Dessa convivência nasceu uma homenagem musical em que a saudade deixou de ser apenas sentimento e encontrou morada na poesia e na melodia.
Mas devo confessar que essa música foi feita para relembrar a partida da filha de Wellington que havia falecido há alguns anos e suas cinzas foram depositadas no mar, em frente à Ponta D'áreia. Mas, em 22 de julho de 2025, Wellington nos deixou e suas cinzas também foram depositadas no mesmo lugar onde estavam as cinzas da filha. Então, a ideia da letra e o verso "eu também vou virar mar", deram uma conotação especial a esses dois eventos de saudade.
Na composição, os versos percorrem uma São Luís que parece participar do luto. A maré esvazia, a lua se reflete nas ondas, o vento carrega um abraço que já não alcança seu destino. A imagem do mar acompanha a dor de quem perdeu alguém e continua procurando sua presença nos lugares conhecidos. Quando escrevi o verso “Hoje o meu peito é maré vazia”, quiz fazer da paisagem da ilha em extensão da própria vida do pai/filha. Foi uma maneira de dizer que a ausência também modifica aquilo que os olhos enxergam. O mar permanece no mesmo lugar. Mas, quem o contempla agora, já não é o mesmo.
A contribuição de Chiquinho França (meu parceiro, amigo e irmão), amplia essa narrativa. O arranjo musical acompanha o sentimento da letra, permitindo que as palavras encontrem espaço para respirar, pois a melodia conduziu a recordação real. A música ganha, assim, uma dimensão que ultrapassa a homenagem individual. Fala de Wellington e alcança todos aqueles que perderam alguém com quem dividiram parte da existência. A saudade, nesse contexto, deixa de representar somente a falta física. Passa a reunir vozes, conversas, pequenos acontecimentos e a certeza de que determinadas amizades continuam participando de nossas vidas mesmo depois da morte.
A letra avança até encontrar uma imagem que concentra o sentido da homenagem: “Com meus joelhos no chão / Eu também vou virar mar”. Nesses versos, tentei mostrar que a saudade pode alcançar uma dimensão quase espiritual. O homem que permanece vivo deseja integrar-se à paisagem que guarda suas lembranças. O mar passa a representar a continuidade de uma ligação que a morte não conseguiu encerrar. Há, nessa passagem, uma entrega emocional que dispensa explicações.
Desta forma, neste Dia de Finados, esta homenagem a Wellington Reis mostra muito da construção do sentimento humano. A homenagem guarda o reconhecimento ao artista e a gratidão ao homem que esteve ao lado dos amigos durante tantos anos. Talvez uma das experiências mais difíceis da existência "seja aprender a continuar vivendo quando alguém que fazia parte de nossa história já não pode caminhar conosco", como me disse Chiquinho França.
A canção responde a essa experiência sem tentar vencê-la. Conserva o nome, a lembrança e o afeto. Wellington Reis permanece nas músicas que ajudou a criar, nas tradições que defendeu e na memória daqueles que o conheceram. E enquanto houver alguém disposto a cantar por ele, uma parte daquela amizade continuará viva. Porque há saudades que o tempo não leva. Apenas ensina a cantar.
Vídeo-Bônus (Mhario Lincoln e Chiquinho França)
Wellington Reis* ajudou a construir parte da identidade cultural do Maranhão. Sua trajetória, iniciada na década de 1970, passou pela criação de manifestações carnavalescas, pela música popular, pela pesquisa e pela gestão cultural. Foi responsável pela criação do nome Boizinho Barrica, participou da formação de grupos e deixou composições como a marchinha O Gaguinho, incorporada à memória do carnaval maranhense. Seu trabalho esteve ligado às ruas de São Luís, aos brincantes, aos artistas e às tradições populares. A dimensão dessa contribuição ajuda a compreender por que sua partida atingiu tantas pessoas. Para os amigos que conviveram com ele, a perda tem ainda outra medida: a cadeira vazia, a conversa interrompida, o projeto que ficou sem sua presença.
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