Segunda, 02 de Novembro de 2026 13:24
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil FINADOS

Wellington Reis: a saudade que virou mar e continua murmurejando dentro de nós

Essa música, à princípio, foi feita em cima da saudade que Welligton Reis sentia pela filha falecida. Mhario Lincoln e Chiquinho França transformam essa ausência em música. Pouco tempo depois, virou memória de Pai e Filha: lembranças que o tempo não consegue apagar.

02/11/2026 12h07 Atualizada há 50 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Chiquinho França
Gravando “Flor de Açucena”, parceria de Mhario/Chiquinho/Wellington Reis
Gravando “Flor de Açucena”, parceria de Mhario/Chiquinho/Wellington Reis

Mhario Lincoln/Chiquinho França c/Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.

Neste 2 de novembro, Dia de Finados, a memória de Wellington Reis volta a encontrar os amigos que ficaram. Há pessoas cuja morte deixa um silêncio difícil de compreender. Wellington foi uma delas. Cantor, compositor, produtor e pesquisador cultural, morreu em 22 de julho de 2025, aos 74 anos, em São Luís. Deixou uma história ligada à música, ao carnaval e às manifestações populares do Maranhão. Para nós (Eu) e Chiquinho França, ele deixou também a ausência de um companheiro de tantas jornadas, encontros e projetos. Dessa convivência nasceu uma homenagem musical em que a saudade deixou de ser apenas sentimento e encontrou morada na poesia e na melodia. 

Mas devo confessar que essa música foi feita para relembrar a partida da filha de Wellington que havia falecido há alguns anos e suas cinzas foram depositadas no mar, em frente à Ponta D'áreia. Mas, em 22 de julho de 2025, Wellington nos deixou e suas cinzas também foram depositadas no mesmo lugar onde estavam as cinzas da filha. Então, a ideia da letra e o verso "eu também vou virar mar", deram uma conotação especial a esses dois eventos de saudade.

Continua após a publicidade

 

Na composição, os versos percorrem uma São Luís que parece participar do luto. A maré esvazia, a lua se reflete nas ondas, o vento carrega um abraço que já não alcança seu destino. A imagem do mar acompanha a dor de quem perdeu alguém e continua procurando sua presença nos lugares conhecidos. Quando escrevi o verso  “Hoje o meu peito é maré vazia”, quiz fazer da paisagem da ilha em extensão da própria vida do pai/filha. Foi uma maneira de dizer que a ausência também modifica aquilo que os olhos enxergam. O mar permanece no mesmo lugar. Mas, quem o contempla agora, já não é o mesmo.

A contribuição de Chiquinho França (meu parceiro, amigo e irmão), amplia essa narrativa. O arranjo musical acompanha o sentimento da letra, permitindo que as palavras encontrem espaço para respirar, pois a melodia conduziu a recordação real. A música ganha, assim, uma dimensão que ultrapassa a homenagem individual. Fala de Wellington e alcança todos aqueles que perderam alguém com quem dividiram parte da existência. A saudade, nesse contexto, deixa de representar somente a falta física. Passa a reunir vozes, conversas, pequenos acontecimentos e a certeza de que determinadas amizades continuam participando de nossas vidas mesmo depois da morte.

 

A letra avança até encontrar uma imagem que concentra o sentido da homenagem: “Com meus joelhos no chão / Eu também vou virar mar”. Nesses versos, tentei mostrar que a saudade pode alcançar uma dimensão quase espiritual. O homem que permanece vivo deseja integrar-se à paisagem que guarda suas lembranças. O mar passa a representar a continuidade de uma ligação que a morte não conseguiu encerrar. Há, nessa passagem, uma entrega emocional que dispensa explicações. 

Desta forma, neste Dia de Finados,  esta homenagem a Wellington Reis mostra muito da construção do sentimento humano. A homenagem guarda o reconhecimento ao artista e a gratidão ao homem que esteve ao lado dos amigos durante tantos anos. Talvez uma das experiências mais difíceis da existência "seja aprender a continuar vivendo quando alguém que fazia parte de nossa história já não pode caminhar conosco", como me disse Chiquinho França.

Continua após a publicidade

 

A canção responde a essa experiência sem tentar vencê-la. Conserva o nome, a lembrança e o afeto. Wellington Reis permanece nas músicas que ajudou a criar, nas tradições que defendeu e na memória daqueles que o conheceram. E enquanto houver alguém disposto a cantar por ele, uma parte daquela amizade continuará viva. Porque há saudades que o tempo não leva. Apenas ensina a cantar.

Vídeo-Bônus (Mhario Lincoln e Chiquinho França)

Wellington Reis* ajudou a construir parte da identidade cultural do Maranhão. Sua trajetória, iniciada na década de 1970, passou pela criação de manifestações carnavalescas, pela música popular, pela pesquisa e pela gestão cultural. Foi responsável pela criação do nome Boizinho Barrica, participou da formação de grupos e deixou composições como a marchinha O Gaguinho, incorporada à memória do carnaval maranhense. Seu trabalho esteve ligado às ruas de São Luís, aos brincantes, aos artistas e às tradições populares. A dimensão dessa contribuição ajuda a compreender por que sua partida atingiu tantas pessoas. Para os amigos que conviveram com ele, a perda tem ainda outra medida: a cadeira vazia, a conversa interrompida, o projeto que ficou sem sua presença. 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 11h01
21°
Tempo nublado

Mín. 16° Máx. 26°

21° Sensação
11.12 km/h Vento
86% Umidade do ar
100% (38.74mm) Chance de chuva
Amanhã (03/11)

Mín. 17° Máx. 27°

Chuvas esparsas
Quarta (04/11)

Mín. 17° Máx. 20°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias