
ORQUÍDEA SANTOS, editora da Plataforma Nacional do Facetubes
Foto: Vera Santos. (Chiquinho França entrega a "palheta" que ele compôs - com sua guitarra branca que tem mais de 30 anos- a melodia para "TOADAS DE AQUARELAS". Sem dúvida, uma palheta histórica).
O São João do Maranhão de 2026 abriu espaço para uma lembrança que atravessa gerações. A nova música composta por Chiquinho França, com letra de Mhario Lincoln, recoloca Coxinho no centro da cena cultural maranhense. A homenagem não busca reconstruir o passado, mas reafirmar a presença contínua do amo que marcou o Bumba-Meu-Boi de Pindaré e se tornou referência continental. A obra surge em um momento em que o ciclo junino volta a ocupar ruas, terreiros e arraiais, reforçando a força de uma manifestação que se mantém viva porque não depende de modismos, e sim de memória, rito e transmissão comunitária.
A letra da música parte de um ponto essencial do Bumba-Meu-Boi: o encontro entre o sagrado e o profano. O verso “Aê, guarnicê suar da matraca até o amanhecer” coloca o ouvinte dentro do ambiente da brincadeira, onde a madrugada não é limite, mas continuidade. A matraca funciona como marca sonora do Maranhão, e a menção direta ao seu ritmo situa a narrativa no território cultural onde Coxinho construiu sua trajetória.
Quando a letra afirma que “o boi de Pindaré, entre lágrimas e sorrisos, ouviu Coxinho cantando toadas no paraíso”, estabelece-se um diálogo entre o mundo terreno e o mundo simbólico. O boi, figura central da brincadeira, aparece como testemunha da permanência do cantador.
A imagem não trata da morte, mas da continuidade. Coxinho não se ausenta: ele canta em outro plano, e sua voz segue alcançando quem permanece na festa. A repetição dos versos reforça a ideia de retorno, como se a lembrança fosse um movimento circular, próprio das tradições que se renovam sem romper com sua base.
A segunda parte da letra amplia essa construção ao dizer que “Deus abriu o céu para Coxinho cantar”. A frase não busca sacralizar o artista, mas situá-lo no mesmo espaço simbólico que o Bumba-Meu-Boi sempre ocupou: o espaço onde promessa, fé e celebração se misturam. As “toadas tão belas, entre estrelas e aquarelas, caindo no meio do mar” formam uma das imagens mais lindas entre as composições folclóricas do Maranhão e remete ao ponto de encontro entre terra e água, onde muitas brincadeiras nasceram e se fortaleceram. A queda das toadas no mar sugere que elas retornam ao povo, como se o ciclo não pudesse ser interrompido.
A homenagem ganha força porque Coxinho não é apenas personagem histórico. Ele representa uma forma de cantar que moldou o sotaque da Baixada e influenciou grupos de diferentes regiões. Sua presença no São João de 2026, mesmo em forma de tributo, reafirma que o Bumba-Meu-Boi não se sustenta apenas por apresentações oficiais, mas pela memória coletiva que mantém vivos seus mestres.
Desta forma, a música de Chiquinho França e Mhario Lincoln funciona como ponte entre gerações, permitindo que novos brincantes reconheçam a importância de quem abriu caminhos.
O São João deste ano, espalhado por arraiais da capital e do interior, reforça que o Maranhão segue sendo o território onde o Bumba-Meu-Boi encontra sua expressão mais intensa. A diversidade de sotaques, a continuidade dos grupos familiares e a presença das comunidades na organização das festas mostram que a manifestação não depende de estruturas externas para existir.
Ela se mantém porque faz parte da vida cotidiana de quem participa. A lembrança de Coxinho, agora renovada em forma de música, confirma que a tradição não se perde quando encontra novas formas de ser contada.
A LETRA
*Mhario Lincoln/Chiquinho França
Aê, guarnicê,
suar da matraca até o amanhecer.
E o Boi de Pindaré, entre lágrimas e sorrisos,
ouviu Coxinho cantando toadas no paraíso.
E o Boi de Pindaré, entre lágrimas e sorrisos,
ouviu Coxinho cantando toadas no paraíso.
E Deus abriu o céu
para Coxinho cantar.
Toadas tão belas,
feito estrelas e aquarelas,
caindo no meio do mar. (BIS).
TOADAS DE AQUARELA (Mhario Lincoln & Chiquinho França).
Em tempo: "(...) A cultura maranhense recebeu mais um precioso presente. A sensível composição de *Chiquinho França*, musicalizando a inspirada letra do Confrade *Mhario Lincoln*, transcende a condição de simples homenagem para se transformar em um verdadeiro ato de preservação da memória cultural do Maranhão._
_Ao evocar a figura inesquecível de Coxinho, amo maior do Bumba-Meu-Boi de Pindaré, os autores constroem uma ponte poética entre passado e presente, reafirmando que os grandes mestres jamais desaparecem enquanto permanecerem vivos no imaginário popular, nas toadas, nos terreiros e no coração do povo._
_Os versos “Toadas tão belas, feito estrelas e aquarelas, caindo no meio do mar” revelam rara beleza estética, combinando lirismo, musicalidade e profunda identidade maranhense. A imagem criada transporta o ouvinte para um universo onde a fé, a tradição, a arte e a emoção caminham juntas, exatamente como ocorre nas manifestações mais autênticas do nosso folclore._
_Chiquinho França, com sua reconhecida sensibilidade artística, oferece melodia à altura da grandeza da letra, produzindo uma obra que emociona, educa e perpetua a memória de um dos maiores nomes da cultura popular maranhense._
_Mais do que uma canção, esta homenagem reafirma a força do Bumba-Meu-Boi como patrimônio vivo do Maranhão e demonstra que a tradição continua encontrando novas formas de dialogar com as gerações atuais, sem perder suas raízes.
Parabéns a Mhario Lincoln e Chiquinho França por esta extraordinária contribuição à cultura maranhense. Ao homenagearem Coxinho, homenageiam também a alma do Maranhão, sua história, seu povo e sua inesgotável capacidade de transformar memória em arte.
Cel. Carlos Furtado
Historiador e Acadêmico. (..)".
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