Quinta, 10 de Setembro de 2026 18:55
(xx) xxxxx-xxxx
Galeria de fotos 1 foto

Paulo Urban. Causos de Psiquiatria ( "O Paciente Ecológico)

28/09/2020 15h39
Por: Mhario Lincoln

Causos da Psiquiatria – VI 

Foto: Andrea Camargo

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

www.amigodaalma.com.br [email protected] 

 

O PACIENTE ECOLÓGICO  

A porta de trás da ambulância se abriu e foi D’Albertini quem vi saltar, lépido e alegrinho, falante como sempre. Pois, não fazia nem dois meses de sua última internação. Bastou me ver junto ao balcão da recepção, a preencher uns papéis, que lá do pátio já gritou: 

-- Doutor Paulo, doutor Paulo... o bom filho à casa torna. Aqui estou, mente insana em  corporis sanus para mais uma empreitada hotelística-hospitalar. Vai ter Simba Safári de novo? 

E vindo em minha direção, abraçou-me daquele seu modo efusivo, a triturar-me os ossos.  

Funcionário público municipal, D’Albertini passava regularmente em consultas no ambulatório de psiquiatria do hospital da Vergueiro. Nas vezes em que estava assim descompensado, humor para lá de exaltado, não era raro que o médico em serviço acabasse por encaminhá-lo para nossa Casa de Saúde, especializada em atendimento na área de saúde mental. O enfermeiro da ambulância entregou-me a guia de internação. Foi bater os olhos nela que li, sublinhado em vermelho pelo colega: ‘... paciente hetero-agressivo, dois episódios nos últimos três dias de haver agredido a própria mãe ...’. Aproveitando-me da presença da pobre senhora, que sempre acompanhava seu filho por ocasião de suas internações, convidei-a também a entrar na sala de triagem clínica, a fim de colher melhor história enquanto examinaria o paciente. 

-- O que acontece desta vez, d’Albertini? Qual a razão do pedido de internação? 

-- E eu lá vou saber, doutor? Não vejo motivo nenhum para outra internação. 

-- Bem... não é o que acha o médico que preencheu sua guia. 

-- Esses médicos da prefeitura... adoram internar a gente. Internação por quê? Para quê? Logo eu, que tenho feito tudo certinho, seguido à risca suas recomendações, dr. Paulo. Por que raios querem me internar? 

-- Tem tomado regularmente o seu remédio? 

-- Claro que não, doutor Paulo! Desde a última alta, tenho feito exatamente como o senhor mandou: parei com todos os remédios e só estou comendo flor!  

A mãe do paciente, sentada ao lado dele, envergonhada, só balançou a cabeça, lamentando que sim, que era verdade o absurdo que seu filho contava.   

-- É isso mesmo, senhora? Seu filho deu agora para comer flores? 

-- Não sobrou um só vasinho lá em casa, doutor. Ele comeu absolutamente tudo que eu havia plantado. Em compensação, a cartela dos comprimidos, jogou na privada e deu a descarga. 

D’Albertini protestou, veementemente: 

-- Isso eu jamais faria, doutor Paulo. Peço à senhora minha mãe que não minta ao médico em consulta, pois, irá confundi-lo com suas impropriedades, a induzi-lo em erro, fará com que ele anote inverdades no prontuário, o que seria um prejuízo irreparável para a ciência! Ora, ora, onde já se viu? Uma senhora de tamanha idade, mãe deste ilustre filho que vos fala, mentir assim, descaradamente, para o doutor?  

-- Pois foi exatamente o que ele fez, doutor. Assim como lhe contei. 

D’Albertini até pulou da cadeira. Levantou-se e pôs-se a argumentar, a andar pela sala estudando os gestos, assumindo seus inatos dotes teatrais: 

-- Jamais atiraria uma cartela de comprimidos ao vaso sanitário. Isto seria um crime ecológico, um ato urbano contraproducente também, além do que, fizesse isso, entupiria toda a instalação. E seria necessário depois chamar o pedreiro, o encanador, o arquiteto, a equipe técnica de procedimentos esgotais, quiçá o corpo e a alma de bombeiros... nada há de pior numa casa de gente simples do que uma privada entupida. 

-- Pois jogou, sim, doutor – reafirmou a senhora. 

Olhando para mim, como se eu fosse um juiz do tribunal, D’Albertini fez o reparo: 

-- Minha própria mãe, que vergonha, candidata à Pinóquio Federal! Nem faz ideia do quanto de juízo existe na cabeça de seu ilustre filho, este que vos fala. O que eu fiz foi bem diferente daquilo que levianamente está a me acusar: primeiro, destaquei todos os comprimidos da cartela, um por um, daí sim, pus a cartela vazia diretamente no lixo da copa, e só os comprimidos eu afoguei no vaso, dando a triunfal descarga clínica, conscientemente ecológica. Essa mesma consciência verde é que me faz amar as plantas. Gosto delas de verdade, doutor, literalmente. Tão literalmente gosto das flores que passei até a comê-las, só pra ver gosto têm.   

Explicada a divergência entre as partes, perguntei-lhe:

-- E fora o fato de que anda a comer flores, que mal lhe pergunte, há quanto dias não toma os comprimidos, D’Albertini? 

-- Justamente, desde quando entrou a primavera! Lembro-me nitidamente daquela manhã pomposa, toda raiada e ensolarada, era o 23 de setembro, a data mais pimpona do ano. Acordei de súbito com a voz do Cid Moreira me chamando, dublando aquela segunda fala, algo maior, tonitruante, uma fala misteriosa que vinha diretamente dos céus: “D’Albertini, só de flores se alimente; só de flores se alimente, D’Albertini”! Então, desconfiado, porque podia ser coisa do tinhoso, perguntei quem estava a falar comigo, e a mesma voz me respondeu: “Sou eu, seu anjo da guarda, D’Albertini, o anjo libertador dos frascos e comprimidos; jogue-os fora”! Ah... bom, se era coisa dos anjos, coisa assim sobrenatural, achei por bem obedecer. 

A mãe dele, constrangida, olhava-me a pedir ajuda. D’Albertini, engatado em seu discurso, prosseguia:  

-- E o anjo então me disse, melhor dizendo, ele ordenou: “De hoje em diante, D’Albertini, só coma flores, que flor é mais amor! Jogue fora seus remédios, e não conte para o doutor”. O senhor precisava ver que belezura de voz ele tinha. 

-- E não acha arriscado sair por aí comendo flores, D’Albertini? Pelo que sei, algumas podem ser, inclusive, intoxicantes. 

-- Mas só como as que meu anjo autoriza, doutor. Primeiro foram as pétalas das rosas plantadas pela vizinha, que devorei com orégano. Aquela bruxa depois veio tocar a campainha e se pôs a falar mal de mim pra minha mãe, dizendo que ela tinha que me levar lá pro hospital da Vergueiro. Só de raiva, no dia seguinte, voltei lá. Saltei a cerca que nos separa e comi suas capuchinhas, também aquelas maria-sem-vergonha, não sobrou nenhuma pra contar a história. E tendo devorado as deliciosas plantas da vizinha, pus-me então a traçar o hibisco lá do alambrado do campinho onde, sempre aos domingos, a gente bate uma bolinha. Daqui a pouco, não vai sequer sobrar serviço para o jardineiro. Um pouco amargos, é verdade, mas dão excelente tempero para a feijoada, ou quem sabe um bacalhau português.   

Enquanto eu concluía as anotações de praxe em seu prontuário, ele seguia contando, num verborrágico entusiasmo:   

-- As mais gostosas são, entretanto, as violetas! Não é à toa que vibram no mais alto espectro da luz. Como todas que encontro pela frente, não há vasinho com elas a que eu possa resistir. Apetitosas. Mando logo ver também aquelas mais amarelinhas, que nem sei que nome têm, mas banquete mesmo é quando entro na floricultura, quando como de tudo, das gardênias aos jasmins, isso, bem entendido, quando a dona Laura não está me olhando, claro. Tão sublimes os jasmins que basta pôr um deles na boca que já começo a escutar tango argentino. Se o senhor quiser, doutor Paulo, posso ensinar o cozinheiro do hospital a nos preparar um almoço dominical só de flores comestíveis. Podemos começar a colhê-las pelos vasos da recepção. 

Tentando esclarecer também o porquê de seu comportamento ultimamente andar agressivo, busquei explorar: 

-- D’Albertini, e quanto ao álcool? 

-- Só Martini Amaro, aquele vermelhinho, com duas pedras de gelo. Se não tem do Amaro, vou de Bianco também. Mas cachaça não bebo, não, que muito álcool dá dor de cabeça. 

-- E além do álcool, andou usando outras drogas? 

-- Faça a chamada pelo nome que lhe digo sim ou não, assim ganhamos tempo. 

-- Maconha? 

-- Sim, sim, sim. 

-- Cocaína? 

-- Infelizmente, não tive a o-por-tu-ni-da-de! 

-- Tem usado, sim, doutor – cortou a mãe.

-- Ora, a senhora cale a boca que a conversa é entre mim e o doutor. O entrevistado aqui sou eu, seu ilustríssimo filho querido, este que vos fala. Ademais, a senhora por acaso anda lá comigo o dia todo pra saber o que uso ou deixo de usar? 

Mesmo intimidada, ela tomou coragem: 

-- Justamente, se eu andasse com você o dia todo, até seria bom, não o deixaria fazer essas coisas. 

-- Então, quero a verdade: fez ou não fez uso de cocaína, D’Albertini? 

-- É pra ser sincero, né, doutor? Sinceridade é tudo, né? Ademais, o Pinóquio aqui não sou eu, é minha mãe.

-- Então, conta isso direito.

-- Foi assim, ó, doutor: depois que a gente bate aquela bolinha de domingo, o povo todo se reúne lá no bar do Zé Bigode, pra módi de fazer um pagode, comer um torresminho. Aí, eu tô lá ouvindo meu radinho de pilha Rai-o-vac, as amarelinhas, com fone de ouvido e tudo, quieto no meu canto, tomando meu Martini, sem encher o saco de ninguém, e não é que lá vêm uns amigos me oferecer um pó?

-- E claro, você não resistiu à oferta.

-- De jeito maneira, doutor! Claro que resisti! Fui logo alertando: “Eu agradeço, mas não posso usar cocaína, pois estou em tratamento psiquiátrico”. E disse ainda bem claro: “Psi-qui-á-tri-co! Estou sob os cuidados de meu médico, doutor Paulo, que me passa medicação tarja preta, droga controlada, que não pode combinar com estas drogas descontroladas aí. Portanto, podem ir saindo da minha frente com esse pó maravilhoso, que eu não posso comprometer meu tratamento”. 

Eu e a senhora nos entreolhamos. Percebendo-me desconfiado, D’Albertini arrematou:   

-- Calma lá, que essa história tem desfecho. 

Pusemo-nos expectantes.   

-- Daí o amigão, em vez de ir embora, resolveu bater o pó na mesa, bem debaixo do meu nariz, e ainda fez umas fartas carreiras com o cartão do telefone, e disse assim pra mim: “Vai nessa, cabeção! Pode ir que é presença, mermão; não precisa pagar nada não”. Foi aí que eu disse: “Ah, bom, se é de coração, então, aceito”. E mandei ver, doutor. Um purinho que tava mesmo uma beleza! Ligadão; fiquei ligadão que nem dormi aquela noite.  

Elucidados os ingredientes da receita, uns pela falta, outros pelo uso indevido, era razoável compreender o porquê de D’Albertini ter estado algo mais agressivo ultimamente. E tão logo encerramos sua anamnese e o exame físico, convidei-o a subir comigo à enfermaria. 

-- O senhor não imagina o prazer que sinto cada vez que sou internado nesta Casa, dr. Paulo. Este hospital é um hotel 5 cruzes, todas vermelhas! Vai ter passeio ao Simba, como houve da outra vez? Tô morrendo de saudades da minha amiga Lhama, a Mariquinha. 

-- Não faço ideia, D’Albertini; as atividades terapêuticas externas ocorrem regularmente, mas só participam dos passeios os que se encontram em condições, você sabe. 

-- Eu sei... e já que da última vez fomos ao Simba Safári, por que não fazemos agora uma visita ao Jardim? 

-- Jardim Zoológico? 

-- Claro que não, lá deve ser bem parecido com o Simba. Eu falo é do Jardim Botânico. O senhor não imagina o quanto de flores exóticas tem lá para se comer. Especiarias vegetais vindas do mundo todo! E de quebra, seria um passeio vantajoso para a Casa de Saúde que economizaria o dinheiro do lanche. Como foi que o senhor não pensou nisso antes, dr. Paulo? Nada como unir o fútil ao palatável.

 

E passávamos junto ao balcão da recepção, já próximos à porta que nos levaria às alas internas das enfermarias, quando, descuido meu, D’Albertini nem teve dúvida: estendendo o braço, surrupiou num golpe só as violetas do vasinho que decorava o balcão, e pôs as plantinhas goela adentro, engolindo as flores com seus caules e raízes, também um pouco de terra e tudo. 

-- D’Albertini, tenha dó! – eu lhe disse, num certo tom repreensivo. 

Mas, fazer o quê? Já era tarde. Tinto fora eu em não haver previsto. Sorriso prazeroso nos lábios, aberta a porta, ele já se adiantou a subir as escadas comigo, e ia rindo, mastigando.

-- Uma delícia, Doutor Paulo! Uma delícia! O senhor devia experimentar.      

 =================================================

 

 Abaixo, foto do autor:

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Ancelmo Matias, neurologistaHá 6 anos atrásMato Grosso do SulExistem casos psiquiátricos que deixam a gente muito triste. Todavia, quando se dá uma outra visão à coisa, alimenta-se a esperança de que essas podem mudar um dia. Por isso, caro doutor Paulo Urban, reconheço esse esforço de tratar os problemas psiquiátricos de forma mais branda, contando-nos suas experiencias desta forma. Por um lado, é bastante agradável.
Dr. Carlos MarcioHá 6 anos atrásSão PauloEspetacular essa história. Só aqui neste site é que a gente encontra histórias fantástica. Prof. Urban, receba meu abraço.
DiegoHá 6 anos atrásExtrema MGMuito bom!!! Foucault iria adorar esses causos
Paulo UrbanHá 6 anos atrásSão Paulo (SP)evidentemente, erro meu de digitação: no último parágrafo, anterior ao último travessão, em vez de "Tinto fora eu...", leia-se: "... Tonto fora eu em não haver previsto. ..."
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 17h01
16°
Chuvas esparsas

Mín. 15° Máx. 19°

16° Sensação
1.03 km/h Vento
92% Umidade do ar
100% (49.91mm) Chance de chuva
Amanhã (11/09)

Mín. 16° Máx. 25°

Chuva
Sábado (12/09)

Mín. 10° Máx. 17°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias