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"Cartas à universidade, Carta décima: Onde meteste as causas e utopias?", de Jorge Bento/Portugal.

05/12/2020 10h58
Por: Mhario Lincoln
Leopoldo Gil.
Textos escolhidos por Leopoldo Gil:
 
Cartas à universidade, Carta décima: Onde meteste as causas e utopias?
Autor: Jorge Bento, Portugal
Albergas a representação intemporal da divina comédia. Os atores mudam. As causas caducam, outras surgem para preencher o vácuo e suscitar o empenhamento.
Ora, pareces desinteressada de querer ser um habitat propício ao plantio de utopias iconoclastas, do cultural e humanisticamente sólido e duradoiro, do esteticamente belo e sublime, do eticamente edificante e irrepreensível.
Subvertida pelo economês e financês, a ‘sabedoria’, que exalas, só retém o que não vale a pena. Desta forma coadjuvas na instauração da ‘idade das multidões’, obliteradora da individualidade, entendida como capacidade de julgamento racional.
Sim, demites-te da formação de identidades e individualidades. Finges ignorar que não se herdam; são obra do caráter e das escolhas porfiadas e transpiradas entre as ofertas da caminhada, da sorte ou do acaso. Dedicas-te à produção em série de ‘mentalidades infantilizadas’ e ‘menorizadas’, de ‘subjetividades abstratas’, frágeis e ocas de conteúdo substancial e simbólico. Vendes gato por lebre, um amplo ror de promessas fantasiosas e delirantes; todos podem ser e ter a rodos o que queiram congeminar: astros e estrelas cintilantes, artistas, empresários, inovadores, investigadores etc., com sucesso pleno e garantido. A tara da ‘sucessoína’ deixa-os à mercê da manipulação sem escrúpulos.
Podias e devias ser o local ideal de florescimento e frutificação do ‘Humanismo secular’, fundado na razão crítica, visando respostas para as questões humanas mais importantes e prementes. Porém faltas à obrigação; tens como infrene paixão as três pragas, que Friedrich Nietzsche (1844-1900) tanto deplorava na sua época: ‘Moment’ (momento), ‘Meinungen’(opiniões) e ‘Moden’ (modas).
Vagueias ao sabor dessa epidemia, entregue a uma litania sintonizada com os cânones, as bulas, cantatas e receitas da doutrina neoliberal. Afinas pelo diapasão das estratégias de comunicação, que modelam as mentes para a abulia e aceitação passiva do que lhes é imposto. Estás convertida em ‘centro contabilístico’, em ‘empresa econometrista’ (hipermercado) do ‘hic et nunc’, de créditos e ‘saberes’ contáveis, efémeros, facilmente descartáveis e substituíveis, dispensadores das aulas e do estudo do livro.
É precisa e fulminante a apreciação de Edgar Morin: a Universidade está a sofrer uma “pressão superadaptativa que força a conformar o ensino e a pesquisa às demandas económicas, técnicas, administrativas do momento, a se conformar aos últimos métodos, às últimas receitas no mercado, a reduzir o ensino geral, a marginalizar a cultura humanista. Ora, sempre na vida e na história, a superadaptação a condições dadas foi, não signo de vitalidade, mas anúncio de senilidade e morte, pela perda da substância inventiva e criadora.”
Admito que os termos desta carta são excessivos e exagerados. O ‘excesso’é um dos traços do humano. E o exagero é germe e método de aprendizagem, mediante o choque que provoca. Não pretendo tirar-te o sono; aflige-me que te afundes e percas nele, nas distopias e vielas que não deverias seguir. Acorda, escuta o repicar do sino da cultura!
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