MEANDROS
Joema Carvalho
Estava no ponto de transição entre o estado casada e o de não casada. Desequilíbrio emocional pleno, uma morte em movimento. Foi quando realizei um trabalho em um ambiente aluvial. Era um rio meandrante, camuflado por si mesmo. Em toda direção a mesma paisagem. Nenhum caminho que me tirasse daquele emaranhado feito de estreitos corpos d´água.
Queria um rio diferente, encaixado em uma fenda geomorfológica estruturada, que conduzisse de forma contínua a outro espaço. Não percebia ainda que um rio encaixado nunca se livra do encaixe, enquanto os meandrantes constroem e reconstroem o espaço, determinados a seguir, protagonistas absolutos do seu destino, redirecionando-se de acordo com o seu próprio processo.
Enquanto abria picadas com o facão em meio às gramíneas altas, crescidas nos microrrelevos em meio ao atoleiro, avistei uma cobra enrolada, em dormência, no meio da passagem que eu abria. Talvez eu mesma, enrolada em mim, carecendo de minhas mudas, sem perspectivas. Apenas um fluxo meandrante e confuso, esparramado em um terreno incipiente, com todos os lados iguais e planos, que precisavam ser refeitos por completo.
Naquele campo, precisei ser guia na companhia de uma estagiária para um inventário florestal rotineiro. Ainda não estava com o Ozzi, o facão pertencia à empresa que me contratara. Com a identidade perdida, precisei resgatar o que me pertencera: meus significados e meu jeito, minha própria guiança novamente.
Após um lanche rápido no meio da floresta, retornamos ao trabalho. Pouco depois, notei a falta da mochila. Havia ficado no lugar onde tínhamos parado para comer, em algum dos meandros. Na ânsia de achá-la nos perdemos.
Sem as chaves do carro, carteira e materiais de campo, seguimos por um desprumo na tentativa de voltar ao local. Foi quando avistamos, em um platô mais alto, uma casa. O único acesso a ela era através de um rio, um pouco mais fundo, ainda estreito. Depois dele um milharal, que também tivemos de atravessar.
Acolheu-nos uma senhora. Por ela soubemos que, havia pouco, colegas da equipe tinham passado por lá. Um moço, que também estava com ela, foi atrás deles. Conseguiu encontrá-los. Com eles, voltamos de carona para a casa. Mas a mochila ficara onde a tínhamos esquecido.
Três dias depois, voltei aos meandros. Então a encontrei. Peguei o que me pertencia e regressei. Os meandros, naquele momento, ainda se esparramavam em um terreno incerto e incipiente. Era o que havia como ponto de partida.

1 foto Fé em dose dupla, por Luiz Dernizo Caron
1 foto “Onde Ainda Correm os Meus Rios”, Leopoldo Vaz
1 foto Mulheres pioneiras na política brasileira. Por Renata Barcellos
1 foto Lia com os olhos da alma
1 foto Salve salve o Dia do Nordestino! Por Pedro Sampaio - 8.10.2026
1 foto Dino de Alcântara: “ENTREVISTA COM O MINISTRO” Mín. 13° Máx. 22°
Mín. 15° Máx. 19°
ChuvaMín. 15° Máx. 17°
Chuvas esparsas
Antonio Guimarães de Oliveira Dia Mundial do Escritor. Por ANTONIO GUIMARÃES DE OLIVEIRA
Desembargador Lourival Serejo ATÉ ONDE CHEGA A DESTRUIÇÃO DAS GUERRAS
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Do casco dos barcos às ruas de Belém: a arte ribeirinha veste o Círio e transforma tradição em renda
Dr. Luis Augusto Guterres Direito, cultura e a responsabilidade de pensar, eis as grandes ferramentas democráticas.