Marcus Saldanha – historiador, jornalista e escritor
Para quem acha que Finados no Maranhão é apenas um dia de choro e velas, é porque de fato não conhece os cemitérios e as histórias dos rituais de celebração da morte ao longo dos anos nos campos santos maranhenses. Os recorrentes tambores para as almas, os cofo com velas, as coroas coloridas de flores, feiras com farta comida e até corridas de cavalos nos cemitérios não deixam nada a desejar às celebrações do Día de Los Muertos no México.
Inspirados na obra clássica “A Morte é Uma Festa” do renomado historiador brasileiro, João José Reis vários pesquisadores de Estudos Cemiteriais no Maranhão vêm investigando cientificamente a rica arte cemiterial, os variados rituais e símbolos socioculturais da morte que apontam como o Maranhão guarda sua própria e fascinante forma de lidar com o “além”.
Entre eles o historiador e professor Dr. Dimas Ribeiro (UFMA – Campus Pinheiro) que defende os cemitérios como verdadeiros museus a céu aberto e com enorme potencial turístico para visitação (tais como os cemitérios franceses e portenhos que recebem milhares de turistas anualmente) e cultural com exibição de filmes e teatro ao ar livre.
Pioneiro nessa proposta no Maranhão, o turismólogo Antônio Noberto realizava passeios e cortejos musicais no Cemitério do Gavião no Centro de São Luís. A visita incluía poesia, música e curiosidades sobre a história do antigo cemitério da São Pantaleão e seus mortos ilustres, tais como Aluísio de Azevedo, Sousândrade, Padre Mohana, Maria Aragão, Nauro Machado, Coxinho, Joãzinho Trinta entre outros.
Já a historiadora maranhense Julyana Cabral que atualmente realiza pesquisas sobre o assunto no México, estuda desde a graduação a riqueza ritualística nos cemitérios da Baixada Maranhense onde é muito comum a prática circular das velas em cofos. Artesãos preparam cofos que circulam com velas acesas nos túmulos de familiares e amigos.
Seguindo uma tradição matrilinear, as mulheres organizam os eventos e passam de geração em geração as informações sobre as práticas e localização dos túmulos, que dificilmente possuem lápides ou identificação. Além disso, são elas que rezam na cruz para as almas enterradas sem identificação ou para os defuntos cujos parentes já não visitam mais o cemitério.
Herança de indígenas e povos de origem africana com forte característica comunitária que também se apresenta com a realização de refeições nos cemitérios e até em tambores que viram madrugada, como “O Tambor das Almas” na região rural de Vargem Grande.
Além disso, existe uma tradição de produção de coroas de flores coloridas, onde a comunidade escolhe a cor daquele ano que predomina nos arranjos que serão depositados nos túmulos. Fonte de renda e manutenção de uma tradição que atravessa o tempo.
A pesquisadora que vasculhou os jornais antigos de Pinheiro também identificou na região uma disputa histórica pelos mortos, entre a Igreja Católica e a comunidade rural que criava seus próprios cemitérios, fora dos domínios institucionais. Luta que segue ainda hoje contra grileiros que tentam se apropriar indevidamente de territórios que incluem os cemitérios ancestrais das comunidades.
É o que acontece com um cemitério em Pedro do Rosário onde a cada enterramento, ao invés de lápide é plantada uma árvore, o que ao longo do tempo deu origem a uma verdadeira floresta. Em outro caso, ao invés de árvores ou cruzeiros, pedras eram colocadas para identificar os túmulos.
Se para muitos, a morte é um tabu, o professor Dimas conta a curiosa história de seu Raimundo Coelho que construiu um “túmulo casa” no cemitério Santa Sofia da Gama, na zona rural de Pinheiro com decoração que inclui quadros de ídolos como os pais, o ex-governador do Maranhão Jackson Lago, padres e cantores sertanejos.
Se a vida é uma festa, porque a morte também não pode ser celebrada? Pelo menos é o que apontam documentos do século XIX e XX onde corridas de cavalos e verdadeiras feiras livres com fartura de comida, arranjos fúnebres e música eram organizadas na frente ou até mesmo dentro dos cemitérios maranhenses, principalmente na zona rural da Baixada Maranhense.
O que nos falta é reconhecer que em vida, desperdiçamos diariamente uma enorme riqueza histórica, patrimonial e cultural que temos em nossas cidades, povoados e bairros. Homenagear os mortos vai muito além de mandar limpar cemitérios vésperas de finados, acender velas e depositar flores um único dia do ano. Há verdadeiramente, possibilidade de muita vida, alegria e conhecimento junto a memória de nossos mortos.
Representação artística, na foto abaixo, mostra Marcus Saldanha em passeio cultural pelo Cemitério do Gavião, em São Luís-MA.

1 foto “UM CASAMENTO POR MINHA LIBERDADE”. Dino de Alcântara
1 foto A LITERATURA EM FESTA (O Brilho do VII FESTMACPU na UEMA)
1 foto “CADA MACACO NO SEU GALHO”. Por Eloy Melonio
1 foto História: “O Futuro e o Passado na Hora do Voto”, por Marcus Saldanha
1 foto “Vale Tudo”, crônica de Eloy Melonio para o Facetubes
1 foto Jorge Lobo lança o livro “Análise Econômica dos Crimes em Licitações”em São Luis. Mín. 14° Máx. 20°
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DINO DE ALCÂNTARA Um casamento por minha liberdade
Marcus Saldanha Marcus Saldanha: “A Morte no Maranhão Também é Uma Festa”
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