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“UM CASAMENTO POR MINHA LIBERDADE”. Dino de Alcântara

31/10/2026 12h11
Por: Mhario Lincoln

Dino de Alcântara

Quido andava há pelo menos 2 anos com uma ideia fixa na cabeça: casar. Mas não um casamento qualquer, com uma mulher do Goiabal ou do Cavaco. Isso que não! Não ia se meter com uma mulher que não tinha nem onde cair morta. Pra lá, misera! Costumava dizer quando metia uns grodes na quitanda de Zé Baiacu, no Desterro. 

Queria, sim, uma mulher que lhe desse um mínimo de conforto, com uma casinha boa, rede lavadinha, quintal limpinho, etc. Mas onde encontrar a fulana? Já estava desesperado. Em casa, a mãe, viúva, não cansava de dizer que ele deveria procurar um emprego, que homem com mais de 25 anos não devia viver sem um trabalho, porque ela não ia viver para sempre. 

Ele desconversava, dizendo que estava procurando um emprego que lhe desse não uma miséria, mas alguma coisa boa. Não era preto escravo para trabalhar sem ganhar.  

E foi levando a vida, com a mãe lhe dando até os trocados para o grode nas velhas quitandas da Madre-Deus, onde moravam – ele e a mãezinha – e do Desterro, onde batia o ponto da malandragem quase todos os dias.

No Carnaval de 1947, conheceu a mulher que mudaria a sua vida para sempre – ou pelo menos por um bom tempo.

Vicência era o nome dela. Viúva de um funcionário público do Maranhão que deixara umas duas ou três casas de aluguel para que ela vivesse e os filhos sem precisar se matar de trabalhar.

Ela, com dois filhos, um casal, menores de 10 anos, completava a renda dos aluguéis na máquina Singer, costurando para fora, todos os dias da semana.

Quido, depois que a conheceu na casa de uma tia de sua mãezinha, procurou saber tudo sobre a viúva, onde morava, o que fazia, de que vivia. Em duas semanas, sabia até onde estavam as casas que eram alugadas e para quem mais costurava e quanto cobrava. 

Munido de todas essas informações, botou o plano em ação. Começou com uma ida até a casa da sua futura noiva. Levou dois metros de fazenda, comprados numa loja da rua Grande, para que ela fizesse uma camisa. 

Feita a camisa, conseguiu se fazer mais presente. Ora era um freguês que conseguia para ela, ora era uma indagação sobre o andamento de uma costura que uma dona havia mandado fazer.

Em três meses, já era íntimo da casa. A costureira mandava o jovem solteiro até o armarinho do Gondinho comprar uns tubos de linha. Quando chegava, trazia uns pães, para tomar um café com ela e com os filhos. 

Um dia, chegou até a trazer quebra-queixo para os meninos. 

No terceiro mês de “namoro” com a viúva, Quido achava que era o momento que dar o bote certeiro, como uma jiboia que pega uma juriti. 

Dizia aos companheiros de grode no Desterro que ela já estava no papo. Ia ter comida boa, roupa lavada todos os dias, além de uma rede perfumada para dormir.

– E ela vai aceitar tu ficar lá sem trabalhar? – Quis saber João Purota.

– Ela tá aqui ó.... – E mostrou a palma da mão esquerda, com o indicador direito fincado bem no meio.

Dizem que os dois chegaram até a apostar um litro de Jurubeba. 

Foi numa sexta-feira, de tardinha, que Quido tomou a grande decisão: era chegada a hora de pedir a noiva em casamento.

De mansinho, com uma cobra que se aproximava da presa, meteu uma série de elogios à viúva e aos filhos, até dar o bote, pedindo-a em casamento.

Ela parecia estar esperando, porque não ficou nem um pouco surpresa. Apenas disse que daria a resposta no sábado de manhã cedo. Que ele esperasse um pouco, que ela daria um sim ou um não, conforme a decisão depois de uma noite de sono. 

Saiu de lá direto para a quitanda de Zé Baiacu, onde encontrou o referido João Purota, mais pra lá do que prá cá. 

– Eu não disse, seu abestado!

– E ela? Aceitou?

– Amanhã eu serei um homem comprometido. Então, seus qualhiras, não me esperem mais por aqui. Agora sou homem casado.

Quido chegou nessa noite em casa depois da meia-noite, comemorando que estava a mudança na sua vida. 

No sábado de manhã, raspou a barba, tomou um banho, vestiu-se com esmero, passou um perfume e tocou para a Rua de Santana, onde morava sua noiva.

Ao chegar, Vicência abriu-lhe a porta, com um sorriso largo no rosto.

– Muito bem, seu Quido. Gostei de ver. Homem que quer casar deve acordar cedo.

– Filhinha, eu acordo todos os dias bem cedo.

Ela o levou para a cozinha e lhe deu um bom café, com pão, manteiga e ovo frito.

Depois, retirou tudo da mesa, lavou a louça e só aí sentou-se para uma conversa séria com o pretendente.

–  Seu Quido, a minha resposta eu já tenho.

Quido, apesar de ter certeza de um sim, ficou com batimentos acelerados. Não imaginava que ia chegar a esse ponto, velhaco que era. Mas, enfim. Era só uma questão de minutos. Logo estaria tudo em pratos limpos. 

E ela, serena, como uma mulher que conhece mais a vida do que o malandro do Quido, disse finalmente que aceitaria, sim, o casamento.

Não se descreve aqui a felicidade do noivo. Ficou radiante, pensando na boa vida que ele levaria nos próximos anos, ou décadas. Ela era mais velha que ele 5 anos. Certamente morreria antes. Ele herdaria as casas, tanto a que morava quanto a que estavam alugadas. Seria rico, podendo, inclusive fazer um segundo casamento, depois da viuvez. Quem sabe até um terceiro. E riu-se em sonhos.

Ela foi até uma gaveta de um armário da cozinha. Ele pensou que era a aliança do falecido. “Economizo até com as alianças!”

Mas o que ela trouxe não foi uma aliança. Foi um papel.

– Toma, seu Quido.

– O que é isso?

– Hoje, já que assumimos um compromisso, quero que almoce aqui comigo.

Ele ficou sem entender, porque ela tinha uma lista. Pensou ser uma lista de convidados.

– Mas... e isto? – 

Ele abriu finalmente. Não era uma lista de convidados.

– Ah é uma lista de mercadorias que deves comprar para o almoço.

Lista de compras:

Um quilo de carne de boi

Um quilo de farinha seca

Um quarto de quilo de café

Um quarto de quilo de açúcar

Jerimum, maxixe, quiabo e vinagreira.

Uma lata de goiabada.

Ele ficou sem ar. Caminhou até o quintal para respirar melhor e entender o que era aquilo.

Voltou-se, sentou-se novamente e esperou que ela fosse até uma gaveta e trouxesse o dinheiro.

Mas ela não arredou o pé de onde estava.

– Avie-se, seu Quido, que o tempo corre. 

Ele, meio sem jeito, sem um tostão no bolso, pensou que ela tinha esquecido do dinheiro.

– Mas, dona Vicência...

– O quê, seu Quido?

Ele olhou para os lados, como a ganhar coragem.

– O dinheiro para as compras...

Ela sorriu, como a conhecer os homens melhor que eles próprios.

– Ah, seu Quido, hoje não tenho dinheiro em casa. Compre o senhor, porque nós seremos uma só família a partir de hoje. 

Ele empalideceu...

– Mas então...

– Avie-se...

Com os pés pregados no chão, teve dificuldade em sair da cadeira em que estava sentado.

Com ar triste, dobrou a lista e meteu no bolso. 

– Ah... E se sobrar o dinheiro, me traga uns retalhos de pano para fazer uma toalhinha de mão.

Ele saiu de fininho, disse um até logo, ganhou a rua, em direção ao Largo do Carmo.

Agora ali, descendo o Beco da Pacotilha, tirou a lista do bolso. Abriu e leu com cuidado. Em seguida, amassou toda e jogou na sarjeta.

– Vá arranjar outro trouxa! 

E tomou o rumo da quitanda de Zé Baiacu.

 

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